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Maternidades no plural: 'Quando eu me tornei mãe, eu nasci como mulher negra'

Convidada para escrever sobre sua vivência como mãe preta, Deh Bastos é uma das autoras do livro 'Maternidades no plural'

Ana Beatriz Gonçalves* Publicado em 29/07/2021, às 15h32

Deh Bastos fala sobre como foi ser convidada para participar do livro 'Maternidades no Plural' da editora Fontanar
Deh Bastos fala sobre como foi ser convidada para participar do livro 'Maternidades no Plural' da editora Fontanar

Ela dialoga diariamente com mais de 80 mil seguidores nas redes sociais, mas o frio na barriga de colocar no papel sua história pela primeira vez em uma publicação ainda não se compara com as inúmeras interações virtuais. Deh Bastos, comunicadora, mãe e idealizadora do projeto Criando Crianças Pretas, foi convidada para participar do livro Maternidades no Plural, da editora Fontanar, que lança sua versão física agora na sexta-feira (30).

A mãe do pequeno José, de 3 anos, se juntou a outras cinco mães, Annie Baracat, Glaucia Batista, Ligia Moreiras e Marcela Tiboni, para exaltar as diferentes formas de maternar, cada uma com a sua história, força e coragem. "Falamos sobre várias possibilidades e não esse jeito padrão de ser mãe que a gente vê em comercial de margarina", adianta Deh para o Papo de Mãe.

Como mulher preta, a comunicadora ocupa o último capítulo do livro escrito a muitas mãos. Segundo ela, o título 'Quando eu me tornei mãe, eu nasci como mulher negra', sucinta bem sua jornada na maternidade, que foi marcada pela expressão do racismo, infelizmente mais presente do que nunca na sociedade.

"Eu conto como nasceu o Criando Crianças Pretas e me faço porta-voz de tantos relatos que eu recebo – tenho muita interação com as pessoas na internet, e falo também sobre a violência obstétrica e racismo que eu sofri", comenta.

Aos 37 anos, Deh Bastos diz que entendeu o racismo que sofria apenas quando se tornou adulta, frequentando a faculdade de publicidade e o mercado de trabalho. A gravidez de José também teve grande destaque nesse processo que ela chama de letramento racial. Sem isso, a escritora diz que não teria entendido as violências que viveu no parto "Hoje não consigo mais desvencilhar meu trabalho com a maternidade", conta. A violência obstétrica, que infelizmente ainda existe no Brasil, atinge principalmente as mulheres negras.

Eu sofri racismo por conta do cabelo, sofri o racismo em diversas falas como: 'mulher preta aguenta tudo, não precisa chorar' e 'mulher negra tem leite pra amamentar várias crianças'. Ouvi isso de médico".
Deh Bastos - autora do livro maternidades no plural
Deh e seu filho José. (Foto: Arquivo pessoal)

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Deh Bastos diz que escrever sua história foi um desafio muito grande, e que embora dois dos três anos de vida do seu filho tenham sido vividos durante a pandemia da Covid-19, o que consequentemente a fez ter outra dinâmica de socialização, ela assumiu seu protagonismo e tentou se enxergar como ponte de diálogo.

"É um lugar que eu visitei como criança preta que sofreu racismo. Eu fiz de uma forma muito didática explicando quais os impactos que essa violência pode ter na vida de uma criança. Através de uma comunicação leve, você convida famílias a falarem e pensarem sobre as questões raciais", ressalta.

A chegada de José em sua vida serviu de muita experiência para Deh se aprofundar no assunto, no seu lugar de fala. Ela conta que apesar de sempre saber que tinha a pele escura, desde pequena, ela não entendia o significado disso e muito menos de todo o racismo estrutural que o Brasil possui enraizado como nação.

"Existe um apagamento da nossa história. Eu até fazia o desserviço de dizer que nós eramos todos iguais, que não existia... E a consciência  é um processo doloroso. Comecei a estudar e começaram a cair muitas fichas. É um processo contínuo, não está completo. Você vai vivendo e vai descobrindo", diz ela, que pretende ajudar o filho a construir uma história diferente da sua.

"Eu estava meio engolida pela vida, e quando fiquei grávida do meu filho eu passei muito mal e tive que parar tudo. Acho que esse momento foi importante porque foi aí que eu fui lendo mais. Quando meu filho nasceu, eu falei: 'Não posso deixar que ele chegue até os 30 anos pra começar a ter noção de quem ele é e de onde ele veio".

Um convite para refletir

mãe - maternidade no plural
Capa do livro Maternidades no Plural

'Maternidades no Plural' reforça a ideia de que existem muitas possibilidades e diferentes trajetórias quando o assunto é gestar, parir e criar, segundo Deh Bastos, que ressalta: não existe certo ou errado. "Existe o meu jeito de maternar, que é super válido, e outros bilhões... acho que é um abraço no sentido de que a gente diz: 'tá tudo bem'. Quando você termina de ler você pensa que está tudo bem em ser do jeito que você é", compartilha Deh.

Inseguranças, preconceito, expectativas e machismo. O livro da editora Fontanar traz outros temas importantes e debates sociais, além do racismo, tais como: a LGBTQia+fobia, casamento interracial, relacionamentos, maternidade solo, entre outros.

Essa construção social machista e patriarcal que diz que a mulher tem que dar conta de tudo, que você tem que ser uma mãe perfeita, e você não é, ninguém é. Está tudo bem porque nós somos plurais", finaliza.

Annie Baracat, fotógrafa, mãe do Lilo, participa do livro contando sua vivência com a adoção e a opção de ser mãe solo. Ligia Moreiras, que nunca sonhou em ser mãe, por sua vez, fala sobre como aprendeu a percorrer o caminho da maternidade sozinha e hoje ajuda outras mulheres a fazerem o mesmo.

Já Glaucia Batista não pensava que teria que se adaptar à maternidade atípica, mas passou por esse processo como mãe de autista. Marcela Tiboni, como mulher mãe lésbica, mostra bem como a sociedade ainda não aceita tranquilamente uma família não-heteronormativa. E, por fim, Mariana Camardelli escreve sobre como é possível maternar (e amar) filhos que não são seus, quebrando os esteriótipos de madrastas.

"São histórias diferentes mas, ao mesmo tempo, a gente se encontra nas situações, nas dores. É uma coletânea de atravessamentos, inseguranças, vou me emocionando com as histórias delas. Realmente não existe jeito certo de ser mãe: maternar é um amplo leque de possibilidades", afirma Deh Bastos.

O e-book do livro já está disponível em todas as estantes virtuais e plataformas digitais. Preço: R$ 39,90. Compre aqui.

*Ana Beatriz Gonçalves é repórter do Papo de Mãe

Assista entrevista de Mariana Kotscho e Roberta Manreza, do Papo de Mãe, com Deh Bastos


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