Papo de Mãe
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As fadas, as crianças e o esporte olímpico: o efeito Rayssa Leal

A pedagoga Ana Paula Yazbek e o professor de educação física Marcola falam das conquistas da "Fadinha", mas fazem um alerta sobre esportes de alto rendimento e crianças

Ana Paula Yazbek* e Marcos Santos Mourão** Publicado em 28/07/2021, às 11h05

Julio Detefon (CBSk)/Reprodução - A "Fadinha" (apelido de Rayssa Leal) é a brasileira mais jovem da história a subir em um pódio olímpico.
Julio Detefon (CBSk)/Reprodução - A "Fadinha" (apelido de Rayssa Leal) é a brasileira mais jovem da história a subir em um pódio olímpico.

As fadas simbolizam os poderes do espírito e as capacidades mágicas da imaginação. São seres folclóricos capazes de realizar feitos incríveis e realizar os maiores desejos dos seres humanos. São as responsáveis por escrever o destino das pessoas, do nascimento até a morte. O significado da palavra fada vem do latim Fata, que significa fado ou destino. Estão presentes em diversas histórias e contos infantis, como Cinderela e a Bela adormecida.

Crianças são indivíduos que estão na primeira etapa da vida conhecida como infância, anterior à puberdade, até os doze ou catorze anos. Embora este limite de idade possa se estender de acordo com cada cultura ou sociedade, um aspecto que deve ser utilizado para compreender o que é uma criança é o fato de que não são consideradas ou tratadas como adultos e, desta forma, devem ser protegidas e cuidadas por pessoas maiores de idade.

Para um esporte se tornar olímpico, precisa ser reconhecido inicialmente pelo Comitê Olímpico Internacional (COI). Precisa ser amplamente praticado por homens, em pelo menos 75 países e em quatro continentes e por mulheres, em pelo menos 40 países e em três continentes. A partir desta olímpiada de Tóquio 2020, o COI deu a oportunidade ao Comitê Organizador de sugerir modalidades que sejam populares no país sede e possam atrair o interesse dos jovens para o movimento olímpico. Para esta edição, foram escolhidos o Beisebol, o Softbol, o Karatê, o Surfe e o Skate.

E foi no Skate que a fada, a criança e o esporte olímpico se materializaram, com a obtenção da medalha de prata de Rayssa Leal, no último domingo, dia 26 de julho. De um dia para o outro, a menina de 13 anos foi o assunto mais comentado do Twitter e ultrapassou a marca de 3 milhões de seguidores no Instagram. Sair de uma Olimpíada com uma medalha de prata e com tamanha notoriedade na rede social é uma experiência para poucos e faz lembrar um conto de fadas. Em tempos tão tenebrosos como os atuais, essa menina trouxe uma alegria enorme para os brasileiros que a acompanharam. Sua conquista levou às lágrimas até experientes profissionais do jornalismo esportivo. Rayssa é o incentivo para que mais meninas se aventurem a andar de skate nas ruas e nos parques, quebrando o estereótipo de que são frágeis. Sua determinação é decisiva para que toda menina se empodere e sonhe em trazer para o mundo suas aspirações pouco tradicionais.

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No entanto, precisamos ter muita atenção com a participação de crianças em esportes de alto rendimento, pois a cobrança precoce por desempenho e resultados pode criar uma dimensão desfavorável ao desenvolvimento infantil. Criança precisa se divertir, experimentar e gostar do esporte escolhido (o que Rayssa demonstra claramente). Caso contrário, é possível que percam, ao longo do caminho, a condição de excelência, ou não suportem o peso da cobrança e da concorrência que o esporte impõe a quem dele participa.

O esporte na infância deve ter ludicidade, ou seja, deve proporcionar prazer à criança, ser desafiador, possível, construtivo, prazeroso e simbólico. Que as meninas olhem para a Rayssa e se imaginem uma campeã olímpica é saudável e desejável. Mas que não sejam levadas e exigidas precocemente para que isso ocorra antes de estarem com a maturidade necessária para lidar com os sucessos e os fracassos inerentes ao esporte de alto rendimento. Rayssa claramente se diverte, tem prazer no que faz e tem uma estrelinha no céu a protegendo. Parabéns, Fadinha!

Ana Paula Yazbek e Marcos Santos Mourão*

* Ana Paula Yazbek é pedagoga formada pela Faculdade de Educação da USP, com especialização em Educação de Crianças de zero a três anos pelo Instituto Singularidades; iniciou mestrado na FEUSP em 2018 e está pesquisando sobre o papel da educadora de bebês e crianças bem pequenas.

É sócia-diretora do espaço ekoa, escola que atende crianças de toda Educação Infantil (dos 0 aos 5 anos e onze meses). Além de acompanhar o trabalho das educadoras, atua em cursos de formação de professores desde 1995 e desde 2002 está voltada exclusivamente aos estudos desta faixa etária.

** Marcos Santos Mourão, conhecido como Marcola, é professor de educação física, mestre de capoeira, formado pela Escola de Educação Física e Esportes da Universidade de São Paulo. Atua como formador de professores de educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental. Selecionado do Prêmio Educador Nota Dez, da Fundação Victor Civita. Assessor curricular de Ed. Física do espaço ekoa e pós-graduando em neurociência e educação pela PUC-RS. Casado com Ana Paula Yazbek e pai da Marina e do Pedro.

Assista ao Papo de Mãe sobre atividade física na infância. 

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