Papo de Mãe
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Cadeirantes e pessoas com deficiência vão ter que esperar sentados pela vacinação

Mariana Kotscho Publicado em 20/02/2021, às 00h00 - Atualizado às 12h16

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20 de fevereiro de 2021


O jornalista Raphael Preto Pereira, que é cadeirante, faz um apelo: quando vai chegar a vacina para as pessoas com deficiência?

Por Raphael Preto Pereira*

Adoraria acreditar que a vacinação no Brasil foi iniciada devido a preocupações humanitárias e de saúde pública. Preciso, entretanto, reconhecer que até agora só ficaram latentes os motivos políticos e econômicos para a imunização. 

Sou uma pessoa com deficiência e estou em casa desde março, e pelo andar da carruagem completarei um ano assim. Sem sair nem para  ir ao mercado. É um sentimento estranho, que mistura o privilégio de não precisar sair de casa e a estafa  de não aguentar mais ficar em casa. Hoje, fiquei sabendo que todas as pessoas com deficiência terão prioridade na vacinação. 

Raphael Preto Pereira, repórter do Papo de Mãe

Não dá pra entender qual a regra que  o ministério da saúde está usando para definir quem vai prioridade na vacinação. Estão reabrindo as escolas sem imunizar os professores. Ninguém fala sobre vacinar os policiais e  bombeiros. Só que, a cada dia, aparece um ”grupo prioritário” novo. 

Não posso dizer que discordo dos critérios utilizados para definir os primeiros da fila pois não tenho a menor ideia de quais são eles. Quando participa de uma entrevista coletiva, o ministro Pazuello não fala sobre isso. Tenho minhas dúvidas se adiantaria alguém perguntar. Será que o ministro sabe a resposta? 

Uma parcela das pessoas com deficiência, mais especificamente aquelas que vivem em abrigos ou residências terapêuticas está sendo vacinada. Ou melhor, voltará a ser vacinada quando o estoque de vacinas, que já está acabando, for reposto. Sabe-se  lá quando isso vai acontecer.   

O governo federal nunca teve real interesse na vacinação. Só passou a se preocupar com a questão quando viu que o governador paulista, virtual candidato à presidente, poderia faturar politicamente com a produção em massa do antídoto para a COVID.     

O presidente da república não queria o auxílio emergencial. Derrotado pelo congresso, fez parecer que a ideia tinha sido dele  e viu sua popularidade subir. Ele também conseguiu achar culpados para a piora da atividade econômica, que foi impactada pela COVID: os responsáveis eram os governadores que tinham fechado todo o comércio sem motivo. 

A história estava dando certo até as vozes do mercado começarem a falar. Primeiro, um grupo de grandes empresas brasileiras sugeriu que poderia comprar alguns milhões de doses da vacina. Uma parte iria para o sistema único de saúde, outra iria para as corporações  vacinarem seus empregados.

Depois, o presidente do banco Central, Roberto Campos Neto, e o ministro da Fazenda, Paulo Guedes, admitiram que a principal variável para a retomada econômica é a vacina.  

A ideia  da compra de vacinas por empresas não deu certo. Mas, não teve nada a ver com uma negativa do governo. Foram os laboratórios do mundo inteiro que acharam absurdo a iniciativa privada passar na frente do sistema público de saúde. Parece que para o governo o certo mesmo é vacinar só quem trabalha. 

Deve ser por isso que as pessoas com deficiência, que vivem com suas famílias, não tem data para serem vacinadas. Nossa participação no mercado de trabalho é muito pequena. 

Segundo dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), referentes ao ano de 2015, apenas um por cento das pessoas com deficiência estão no mercado de trabalho. 

Por causa do baixo número de pessoas com deficiência empregadas, não somos considerados peça fundamental na retomada econômica. Portanto, podemos esperar sentados. O governo deve achar que como ficamos sentados a maior parte do tempo, dois ou três anos não farão diferença. 

*Raphael Preto Pereira é jornalista e repórter do Papo de Mãe

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