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O cuidar e educar da infância: tarefa de toda sociedade com base no conhecimento construído inicialmente pelas mulheres

Damaris Gomes Maranhão fala sobre o cuidar e educar bebês e crianças em diferentes culturas e o desenvolvimento da pedagogia para a primeira infância

Damaris Gomes Maranhão* Publicado em 13/10/2021, às 07h00

A educação infantil é fundamental para desenvolvimento na primeira infância
A educação infantil é fundamental para desenvolvimento na primeira infância

O cuidado, uma atitude que se desdobra em procedimentos para identificar e atender as necessidades do outro e de si mesmo, está altamente intrincado ao educar na primeira infância. O recém-nascido começa a construir sua identidade como ser humano com o corpo separado do materno pelo corte do cordão umbilical por meio da interação com a pessoa que cuida dele. Ele sente saudades de sua primeira morada, do som da voz e do ritmo dos batimentos cardíacos maternos, do seu cheiro que marcou a experiência de crescer e se desenvolver dentro dela desde a fecundação e por isto o colo materno o conforta.

Mas o pai e outras pessoas também poderão cuidar e contribuir para a construção de novas percepções sobre as pessoas e o meio onde vive. As necessidades serão expressas pelo choro, expressão facial, olhar, postura corporal que serão interpretadas e nomeadas pelo adulto responsável pelo seu cuidado. Assim, gradativamente, a criança aprenderá que determinada expressão gera uma resposta do outro e o cuidador ao reconhecer e nomeá-la, a significa, ou seja, educa.

Assim, um recém-nascido que deixa de sê-lo aos 29 dias de vida, se tornando um lactente, conforme a terminologia do campo da saúde, ou um bebê conforme o senso comum, irá sendo educado em seu meio, aprendendo as diversas sonoridades, expressões faciais, gestos, movimentos e, aos poucos, aprenderá a linguagem “materna”, ou seja, a do meio onde nasceu e vive. A criança também poderá aprender mais de uma língua se estiver sendo cuidado em um lar bilingue, pois os bebês nascem com a capacidade de diferenciar tanto as expressões faciais dos diversos animais como as diferentes linguagens, mas aos poucos irá se especializando naquelas que permeiam seus cuidados.

Assista entrevista do Papo de Mãe sobre primeira infância

Da mesma forma toda criança desenvolve o paladar desde a gestação em contato com os sabores presentes no líquido amniótico derivados dos alimentos consumidos por sua mãe, conforme o contexto sociocultural, que constituem também o leite materno. Se tiver a sorte de continuar sendo aleitado também continuará sendo protegido pelos anticorpos maternos para se defender das infecções endêmicas do meio onde vive.

Ao redor dos seis meses, terá crescido e desenvolvido movimentos que o capacitam a esticar o braço em direção a um alimento e levá-lo à boca. Ao mesmo tempo a mandíbula cresce e desenvolve surgindo os primeiros dentes centrais inferiores possibilitando desenvolver movimentos mastigatórios e de deglutição dos alimentos. Nesta fase de transição, no passado, algumas mães mastigavam os alimentos para seus filhos depositando-os em sua boca, semelhante a um tipo de pássaro que alimenta seus filhotes desta forma.

Cada cultura desenvolveu as práticas de cuidado de acordo com determinado contexto histórico e social, mas em geral as mulheres, por sua condição de gestar, parir e aleitar os filhos, desenvolveram os conhecimentos que são hoje considerados as bases da ciência e arte do cuidado humano. Quando em determinada tribo, desde os caçadores e coletores, a mulher paria e cuidava do seu recém-nascido e estava por um período impossibilitada de continuar a caminhada, a coleta e a caça junto aos demais parceiros, é provável que se ocupasse também dos feridos, doentes e talvez idosos, na mesma condição. Talvez isto tenha levado a fixação das tribos em determinados territórios, ao cultivo da terra, ao cozimento e armazenamento dos alimentos e desenvolvimento das “técnicas de cura”.

A maneira de compreender as necessidades das crianças e a forma como cada sociedade se organiza para prestar os cuidados a elas, corresponde às idéias que cada povo tem sobre a natureza da criança; sobre o processo de desenvolvimento infantil; sobre os determinantes da saúde-doença e dos princípios que regem a sua primeira educação. Essas idéias que Mota e Stork (1997, p.35) denominam “teorias ingênuas” ou neste texto denominamos de “senso comum” condicionam os comportamentos de cuidados em relação à criança, ou seja, o que a psicanálise nomeia como “maternagem”.

Os momentos de cuidados são particularmente ricos em reações das crianças que participam ativamente, segundo suas competências em cada idade, e de acordo com a forma como o adulto interage com ela. Por meio dos cuidados prestados à criança, ela aprende a cuidar de si, do outro e do próprio ambiente. Aprende também sobre os valores e crenças de sua família e comunidade que incidem nas explicações causais e práticas culturais relativas ao processo de crescimento e desenvolvimento e de saúde-doença.

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Mota e Stork (1997) estudaram os cuidados com as crianças em quatro culturas diferentes: pescadores Bozo do Mali, na África ocidental; pescadores e boiadeiros do Estado do Ceará, nordeste do Brasil; periferia e regiões urbanas do norte da França e famílias brâmanes e do meio rural do sul da Índia. Por meio da comparação entre as quatro formas de cuidados à criança nas quatro culturas, os autores analisam que as mães interpretam e respondem às manifestações corporais dos bebês em função de normas da sociedade às quais pertencem, embora suas respostas também são influenciadas pela dinâmica psíquica construída na história pessoal de cada mãe e nas relações vivenciadas com outros filhos ou parentes.

Outro estudo realizado entre o povo Deni, na Amazônia, Brasil, e com o objetivo de investigar a transmissão de práticas de cuidado ao bebê entre as gerações, relata o cotidiano de um casal de avós na dinâmica doméstica. A família extensa possibilita o intercâmbio de tarefas entre gerações e a solidariedade na aprendizagem da função parental.

Na família indígena Deni os jovens pais aprendem a se comportar como seus próprios pais e a praticar os gestos familiares de interação com a criança que atendem as necessidades de nutrição, sustentação, repouso, limpeza e métodos de acalmar a criança. Em caso de necessidade, a avó poderá substituir a mãe, oferecendo o seu próprio seio ao bebê, tanto para nutrí-lo como para acalmá-lo. O avô participa principalmente pela conduta lúdica e afetiva. O estilo de parentalidade é modulado por caracteres familiares de vínculo afetivo, o que conduz a família a um funcionamento intergeracional em que os avós transmitem os gestos adequados e cada mãe ou pai se adapta a seu filho de acordo com o desenvolvimento psicossocial do bebê. Os avós representam o suporte afetivo e cultural para os pais da criança, uma vez que detêm o conhecimento tradicional sobre as maneiras adequadas de cuidar de um bebê (Gil, 2008).

Entre alguns povos indígenas a mãe do recém-nascido descansa na rede após o parto, enquanto a avó paterna se ocupa do bebê, levando-o até a mãe para que o aleite, conforme relatou Hatawaki Karajá, indígena que orientei no Trabalho de Conclusão de Curso de Graduação em Enfermagem na Universidade de Santo Amaro (Karajá,2008). Hatawaki Karajá relatou em seu trabalho que a partir de uma certa idade da criança, a tribo se reúne e festeja consumindo alimentos que são autorizados para serem oferecidos a partir daquele momento iniciando o processo de desmame, da mesma forma que em nossa cultura urbana somos orientados pelo médico pediatra que acompanha a criança. Nessa tribo as crianças são de responsabilidade de todos, embora o uso de tipoia é um recurso que mulheres de várias etnias usam para manter o seu filho junto ao seu corpo, que permite que cuidem, aleitem e transportem simultaneamente a criança enquanto caminham, carregam lenha, colhem frutos, preparam alimentos, ou seja, trabalham e participam da vida em sociedade.

Assim cada povo foi e continua construindo a sua arte e ciência dos cuidados com os recém-nascidos, crianças, adolescentes, idosos, doentes ou feridos. No ocidente, os primeiros espaços coletivos de cuidados de doentes ou feridos surgiram nos campos de batalhas e depois nos mosteiros para acolher doentes e criança órfãs como uma das tarefas cristãs. Os religiosos e pessoas que colaboravam com eles cuidavam das pessoas com base na assistência caritativa. Até que Florence Nighitingale ao ser voluntária com outros cidadãos ingleses na Guerra da Criméia, desenvolveu ambientes, atitudes, técnicas e conhecimentos que contribuíram para aprimorar o cuidado dos soldados.

Após a guerra, no Hospital St. Tomaz, em Londres, liderado por Florence, é aberta a primeira escola de enfermagem sobre a arte e ciência do cuidado humano que hoje constitui uma profissão no mundo todo. Este conhecimento tem sido construído ao longo dos tempos com foco nos serviços de saúde lado a lado com as ciências médicas. Mas para adequar os cuidados às crianças além do hospital é preciso integrar os conhecimentos construídos ao longo dos tempos pela medicina e enfermagem pediátrica, nutrição, psicologia, pedagogia, aprimorando as  bases teóricas e práticas do cuidado à criança no contexto educacional e familiar.

Mas infelizmente, o cuidado ainda é percebido de forma genérica como um saber “naturalmente feminino”, próprio da mulher, portanto comum e desqualificado em relação aos outros saberes e fazeres. Não existe vida sem cuidado, seja conosco, com o outro e com o ambiente, mas infelizmente a sociedade não valoriza estes saberes, tornando-o quase invisível, embora permeie tudo, como a chamada “substância escura” que liga tudo a tudo no universo mas ainda precisa ser melhor investigada.

Retomando a origem etimológica do termo “cuidado” origina-se do latim “cura” ou ainda do “coera” que também significa amizade e amor. Há uma outra relação etimológica com “cora”, coração, símbolo de amor, sentimento, e com “coggitare” ou “cogitatus” que significa mostrar interesse. Assim embora etimologicamente Cuidar e Curar sejam sinônimos, ao longo dos anos a sociedade valorizou mais o conhecimento biomédico relativo as técnicas empregadas para o diagnóstico, tratamento e controle das doenças que se tornou mais nobre e valorizado do que o cuidar ( Benetton, 2002)[1]. Por isso durante longos anos a medicina foi uma profissão masculina enquanto a enfermagem predominantemente feminina, assim como na educação infantil ainda são predominantes as mulheres como professoras desta faixa etária.

Na educação infantil que compreende a faixa etária de menores de cinco anos e onze meses, que precede o ensino fundamental, o cuidado permeia toda ação educativa e vice-versa, devido características do processo de crescimento e desenvolvimento desta ampla e diversa faixa etária associada à organização deste serviço educacional. Os professores e gestores escolares que no passado eram formados para “ministrar aulas” precisam também desenvolver conhecimentos e habilidades para identificar necessidades psicofísicas e atendê-las conforme o crescimento e desenvolvimento de cada criança, interagindo, acolhendo, acalentando, alimentando, trocando fraldas, alternando momentos de repouso e sono com brincadeiras e diversas experiências ao longo do dia, ensinando-as a cuidar de si, do outro e do ambiente, como ao se alimentar, usar o sanitário ou brincar com segurança. Isto embora descrito em todos os documentos que norteiam o currículo da educação infantil no Brasil e em outros países, ainda é desmerecido por alguns serviços, cursos de graduação de professores, profissionais e familiares.

Ainda é comum que escolas contratem e atribuam estas tarefas de cuidado, sobretudo aquelas mais ligadas diretamente às necessidades corporais das crianças e ao que se classifica como “sujo”, às mulheres com menor escolaridade e menor remuneração, que nem sempre participam dos projetos de formação e planejamento pedagógico da instituição. Este modelo tem relação com o que outros autores[2] têm problematizado como uma economia do cuidado, que delega e paga menos aos trabalhadores que exercem as tarefas relacionadas ao cuidado exercido por muitos anos de maneira informal pelas mulheres em suas casas e em serviços como residências e serviços que cuidam de crianças ou idosos. Mas focando as crianças na primeira infância é impossível dissociar o processo de aprendizagens das crianças durante os cuidados daqueles que são considerados como momentos educacionais. Muitas das aprendizagens sobre diversos campos de conhecimento ocorrem durante o processo de cuidados conforme uma professora de educação infantil descreve no artigo Experiencias de cuidado de si, do outro e do ambiente nas múltiplas narrativas das crianças na educação infantil, publicado no volume 22, N.41 da Revista Zero-a-Seis, 2020.

Assim, a pedagogia para primeira infância requer também que se aprofunde os conhecimentos sobre o processo de cuidar de si, do outro e do ambiente. Seria isto o que em outro artigo publicado neste site o autor classificou como “pedagogia dos detalhes”? Está aberto o debate.

Referências

Stork, H.; Mota, G.; Ly, O. Os bebês falam. Como vocês o compreende? Um na comparação intercultural. In. Busnel, M. C. ( org.). A linguagem dos bebês. Sabemos escutá-los? São Paulo: Escuta, 1997. P.34-46.

Gil, A. Transmissão de gestos parentais. Nascimento – antes e depois. Cuidados em rede. Anais do VII Encontro Nacional sobre o bebê. Rio de Janeiro, 1 a 4 de maio de 2008.

[1] Beneton, L.G. Psicologia em saúde. A relação profissional-paciente. São Paulo, 2002.

[2] Hirata H.; Guimarães N.A. Cuidado e cuidadoras. As várias faces do trabalho do Care. Editora Atlas, 2012.

*Damaris Gomes Maranhão Mãe do Bruno e da Melissa, avó da Clara, tia avó da Manuela. É enfermeira Especialista em Saúde Pública UNIFESP/USP, Dra em Ciências da Saúde pela UNIFESP, Professora do Instituto Superior de Educação Vera Cruz, Consultora do CEDUC e Formadora no Instituto Avisalá

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