Papo de Mãe
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» PRIMEIRA INFÂNCIA

As praças públicas e as crianças

A colunista do Papo de Mãe, Damaris Gomes Maranhão, fala sobre a importância do brincar ao ar livre. Com segurança e seguindo protocolos na pandemia, as praças das cidades são uma boa opção para as crianças

Damaris Gomes Maranhão* Publicado em 29/05/2021, às 07h00

Ilustração de Manuela Diniz Maranhão, 11 anos
Ilustração de Manuela Diniz Maranhão, 11 anos

Clara, quatro anos, filha única, mora em um conjunto habitacional simples – tipo BNH - com vários prédios semelhantes no entorno de uma praça pública localizada na Vila Madalena, Zona Oeste de São Paulo.

Em meio às árvores há uma trilha no entorno de toda a praça para quem deseja caminhar, uma quadra, vários dispositivos para exercícios, bancos e mesas, um local reservado - Parcão - para os cães brincarem livremente e um play-ground para as crianças.

Nesse espaço público bem conservado, pessoas de todas as idades convivem, brincam e se exercitam. Em plena pandemia, escolas públicas ainda em atendimento apenas on-line, embora muitas escolas privadas, como a que Clara frequenta e onde sua mãe é professora, estejam abertas desde outubro de 2020, alguns pais, avós e babás encontraram nesse espaço público uma possibilidade de interação, brincadeiras e atividades diversas com as crianças de forma segura, uma vez que em espaço extenso e ao ar livre.

Com consciência e segurança, estes momentos são possíveis

Um dos pais sempre traz consigo uma garrafa com álcool em gel a 70% alertando todos sobre a importância da higiene das mãos. Todos, com exceção de um bebê, usam máscaras. Embora parte deles já frequentassem a praça, tanto as crianças como os adultos não se conheciam antes das crianças interagirem. Elas se encontraram no play ground ou andando de bicicleta ou patinete na quadra.

Os adultos responsáveis pelas crianças, aos poucos foram se conhecendo, compartilhando impressões, cuidados e começaram a programar lanches e atividades para os dias seguintes como música e pintura. As crianças também fizeram novas amizades, compartilharam brinquedos e conhecimentos, por exemplo, sobre a taturana que observaram nas plantas. Clara contou para a avó que a amiga disse-lhe que iria virar uma mariposa, assim como demonstrou orgulhosa como aprendeu com a sua nova amiga Marcela a impulsionar o balanço com o próprio corpo e a fazê-lo também em pé.

Por outro lado, Clara que aprendeu a assinar seu nome na própria pintura, chama atenção de outras crianças que também querem assinar seu desenho. São orientadas pela mãe de Clara que podem assinar cada um do seu jeito, ou, seja, conforme criam suas próprias expressões, suas garatujas ou desenhos das letras do próprio nome.

Clara preparou uma carta contendo um desenho para a sua amiga Marcela e pediu para a avó entregar sua correspondência no prédio próximo à praça onde mora. Assim, ela vai aprendendo a função social da expressão pelo desenho e escrita, ou seja, continua seu processo de aprendizagem, com apoio dos familiares e amigos da pracinha. Uma das crianças fez aniversário e os pais optaram por celebrá-lo na praça com toda segurança que a situação exige, inclusive com nova regra sobre como soprar a vela (sem soprar no bolo...)

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Festa de aniversário em praça de São Paulo
Foto: Damaris Gomes Maranhão

Cidadania

Apenas as crianças comeram o bolo para que os adultos não retirassem a máscara. Sempre admirei essa praça, não apenas o espaço cuidado e diversificado, mas como as pessoas usufruem dela, para se exercitar, passear com seus cães e conviver com as crianças no playground, sobretudo comparando-a com as próximas a outro bairro onde resido, Mirandópolis, entre Praça da Árvore e Saúde.

As poucas praças que me recordo, além é claro do Parque Ibirapuera, são pequenas e não há espaços diversos que atenda os interesses e características do desenvolvimento dos vários cidadãos, sobretudo das crianças menores de seis anos, não incentivando a sua interação como a vivenciada e descrita acima.

Fotografei uma pequena praça localizada no limiar do bairro Planalto Paulista com o bairro Saúde, no final da Avenida José Maria Whitaker, com placa de reforma recente. Além de pequena, não há sequer uma árvore nela, não é acolhedora para as crianças e seus acompanhantes, além do piso de cimento sob os brinquedos oferecer maior risco às crianças se caírem. Talvez por isso nunca observei crianças ou adultos interagindo nesse espaço, convivendo ou brincando nele.

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Outras pequenas praças próximas à Rua das Rosas em Mirandópolis também não são adequadas às crianças que têm que brincar no espaço ladrilhado em frente à igreja Santa Rita. No passado recente, muitas pequenas praças instalaram equipamentos de exercícios para adultos, mas parece terem esquecido que na cidade há crianças de diversas idades que carecem de espaços públicos que as considerem também como cidadãos.

Do outro lado do bairro Saúde, na Vila Inglesa, fotografei outra praça recém reformada, bem arborizada e com vários recursos como a da Vila Madalena. Recém-inaugurada, estava repleta de crianças estreando os diversos brinquedos e espaços. Por que existem essas diferenças? Como a cidade de São Paulo planeja e cuida dos espaços públicos para as crianças? Afinal, a cidade deve considerar as características do desenvolvimento e necessidades de movimento, interação, brincadeiras fundamentais para o desenvolvimento humano.

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Crianças pintam em praça de São Paulo
Foto: Damaris Gomes Maranhão

E se você conhece uma praça interessante, bem cuidada, adequada às crianças e outras faixas etárias, comente, envie fotos, vamos ajudar a construir uma cultura de uso dos espaços públicos que respeite as crianças e suas famílias.

*Damaris Gomes Maranhão Mãe do Bruno e da Melissa, avó da Clara, tia avó da Manuela. É enfermeira Especialista em Saúde Pública UNIFESP/USP, Dra em Ciências da Saúde pela UNIFESP, Professora do Instituto Superior de Educação Vera Cruz, Consultora do CEDUC e Formadora no Instituto Avisalá

Assista à entrevista do Papo de Mãe "A criança e a cidade", com Lais Fleury, do Instituto Alana

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