Papo de Mãe
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» PRIMEIRA INFÂNCIA

Afeto e estímulo: a combinação perfeita e necessária para a primeira infância

Toda criança precisa e merece se desenvolver num ambiente de afeto e carinho

Marina Assis Pinheiro* Publicado em 19/10/2021, às 15h43

O afeto é fundamental para o desenvolvimento infantil
O afeto é fundamental para o desenvolvimento infantil
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A afetividade é dimensão fundamental para o desenvolvimento humano. Ela é a base da formação dos primeiros vínculos, promovendo o colorido qualitativo, emocional, para a experimentação, pela criança, dos estímulos provenientes do brincar, das rotinas e cuidados corporais, dos diálogos, da contação de história e das mais diversas atividades que participa.

A palavra afeto, na sua raiz latina, envolve sentidos voltados para o que toca, comove, fixa e se opera em alguém, affectus/afficere. Nesta direção, a afetividade seria a forma única dos modos de sentir e responder às vivências próprias à relação eu-outro-mundo. A afetividade, portanto, funda a vida de relação em suas formas que vão desde a abertura investida, envolvida, até o desligamento desencantado próprio a um momento que seria como de desistência do outro. O campo afetivo é, portanto, a chave da possibilidade de compartilhamento do vivido, das trocas no diálogo entre os/as cuidadores/cuidadoras e seu bebê. É curioso ver como bebês são capazes de responder com expressões enternecidas, quase às lágrimas, à voz cantada das mães[2].

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Os afetos se constituem, assim, como uma gramática de intensidades vivenciadas corporalmente nas relações humanas e que podem ser distintas em sua natureza e excedentes à expressividade verbal, isto é, à capacidade das palavras as representarem. É através da corporeidade, da pele, dos sentidos, que a trama afetiva dos vínculos possui não só um suporte/base, mas, sobretudo, sua condição de existir enquanto acontecimento, uma marca única, uma assinatura subjetiva. É com o corpo que a presença e a ausência são sentidas pela criança; é com a corporeidade sensível e produtora de sentidos que a criança e o bebê recriam as esperas e os vazios com o brincar imersivo ao longo das rotinas culturais de cuidado[3].

A pandemia da Covid-19 tornou ainda mais flagrante a centralidade das relações entre a afetividade e a corporeidade no desenvolvimento da primeira infância. Os confinamentos domiciliares, fechamentos de escola; lutos e adoecimentos; somados à precarização das condições de trabalho em contexto de crise econômica são dimensões de impacto significativo nos grupos familiares da primeira infância e que requerem ainda muitas pesquisas para compreensão da plena extensão de seu impacto[4]. As demandas sanitárias de distanciamento social e a confrontação diária com a situação de risco de contaminação marcaram de forma inédita as formas de vivência da primeira infância. O corpo se tornou uma arena de risco ali onde seria abertura ao mundo e experimentação do contato tão fundamentais ao acelerado desenvolvimento na primeira infância.

Seja nas situações-limites culturalmente compartilhadas como a pandemia ou na regularidade das rotinas e culturas do cuidado, é sabido que o brincar é um campo de transformação da própria realidade da criança. Através do brincar, a criança pode responder de modo protegido às intensidades afetivas vivenciadas. O brincar é uma forma de equilibração entre a singularidade da linguagem infantil e a diferença radical, míope, por vezes áspera, do mundo adulto.

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Sabemos como pode ser desafiador para a pessoa adulta reaprender a brincar, se sintonizar genuinamente com o campo de interesses da criança, abrir-se em estado de entrega sem reservas para uma forma outra, não habitual, de perspectivar imaginativamente a concretude dos objetos; e, por fim, dispor de um tempo também outro, diferente do cronológico, um tempo feito pela duração da brincadeira.

Independentemente se com adultos ou com outras crianças, ou até mesmo sozinhas, se com ou sem o uso de interfaces digitais e suas telas, torna-se importante destacar três motivos que fazem do brincar uma coisa séria, uma chave para a saúde mental das crianças e para o pleno desenvolvimento do indivíduo:

A espontaneidade, a curiosidade e a inventividade atuantes no brincar se constituem como um registro afetivo em que a criança se sente acolhida em sua diferença. No brincar se inscreve o sentimento de que o outro e o mundo são capazes de lhe acolher/compreender com a sua unicidade, produzindo o sentimento de valor e fruição da vida;

O brincar é um modo de reconstrução da realidade pela sensibilidade infantil. Neste processo de natureza estética, corporificada e afetiva, a resistência dos objetos é preenchida/transformada/significada pela subjetividade brincante da criança. Este processo criativo é produtor das mais diversas formas de encantamento e de produção de sentido para existência que acompanham toda a trajetória de vida do indivíduo;

Não se brinca pela metade, o brincar envolve uma seriedade, um mergulho atencional, imersiva produtora de uma janela na clausura das rotinas, das disciplinas e dos ritmos dos outros e suas intensidades excessivas à singularidade infantil. A criança sente quando os outros “fazem de conta” que estão brincando com ela e costumam reivindicar a presença atenciosa. Por isso o estímulo à brincadeira só se efetiva através da nossa disposição integral de entrega confiada ao brincar e sua dança intersubjetiva.

Para finalizar essa breve reflexão, talvez um dia consigamos nos aproximar de uma compreensão tamanha do sentido do brincar como um fundamental estímulo ao desenvolvimento que só o poeta Manoel de Barros conseguiu dizer. Lê-se no poema chamado O menino que carregava água na peneira (1999):

“(...) A mãe reparava o menino com ternura.

A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!

Você vai carregar água na peneira a vida toda.

Você vai encher os vazios

com as suas peraltagens,

e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!”   

[2] Ver em: https://www.youtube.com/watch?v=WJNYSga0Czk

[3] Winnicott, D. (1975). O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago.

[4] Araújo, L. A., Veloso, C. F., Souza, M. C., Azevedo, J., & Tarro, G. (2021). The potential impact of the COVID-19 pandemic on child growth and development: a systematic review. Jornal de pediatria, 97(4), 369–377. https://doi.org/10.1016/j.jped.2020.08.008

*Professora do Departamento de Psicologia da UFPE e do Programa de Pós-graduação em Psicologia Cognitiva na mesma Universidade. Coordena o laboratório de estudos da dialogia, experiência estética e criatividade (DEC). Email: marina.pinheiro@ufpe.br

**O Programa Nestlé por Crianças Mais Saudáveis é uma iniciativa global da Nestlé, que assumiu o compromisso de ajudar 50 milhões de crianças a serem mais saudáveis até 2030 no mundo todo. Desde 1999 foram beneficiadas mais de 3 milhões de crianças no Brasil.

Com o lema “muda que elas mudam”, a partir de uma plataforma de conteúdo, o programa estimula famílias a adotarem hábitos mais saudáveis e ainda promove um prêmio nacional que ajuda a transformar a realidade de 10 escolas públicas por ano com reformas e mentorias pedagógicas.

Conheça mais no site do programa

Nestlé por crianças mais saudáveis