O Portal
da Vida em Família
25/11/2020

“Ser mãe de menino negro é ter medo que eles andem pela noite na rua, ou até mesmo durante o dia, e que sejam confundidos com bandidos”

“Uma leoa, uma mãe, mãe negra.”

Tatiane, Lucas Florio e Florio Joaquim

Se tornar mãe e colocar uma criança no mundo é uma decisão às vezes difícil, que envolve dúvidas, medos, idealizações e receios. Ser uma mãe negra e criar uma criança negra no mundo em que vivemos aumenta ainda mais a complexidade dessa experiência. Principalmente quando se é mãe de menino.

Eu, Tatiane Santos, sempre achei que seria mãe de menina, sonhava com laços e turbantes mãe e filha. Pensava em empoderá-la, em ser uma mulher forte e independente, e, principalmente, ensiná-la a ter pertencimento quanto a nossa etnia.

Então, na primeira gestação,  recebi Lucas Florio, Um menino lindo com um sorriso encantador, hoje com 4 anos.

Lucas e a mamãe Tatiane

Enquanto ele crescia, também crescia minha militância diante do racismo estrutural que sofremos no mundo, e que principalmente acontece em um espaço onde as crianças têm o seu primeiro aprendizado sobre o que é pertencimento.  A escola é o local onde normalmente acontecem os primeiros episódios de racismo e é onde as crianças se percebem negras ou entendem o peso que sua cor pode ter na sociedade.

A partir deste contexto me torno mãe de menino e também militante étnico racial infantil. Meu objetivo é compartilhar com outros educadores a mudança de olhar, de falas e de atitudes racistas que acontecem na escola, onde a criança negra muitas vezes é invisibilizada, nos livros e em representatividade nos brinquedos e desenhos das paredes.

Após 2 anos de tentativas, eu e meu marido, resolvemos em frente à pandemia ficar apenas com o Lucas como filho único, mas fomos “surpreendidos” por uma segunda gestação. Estamos esperando Noah Akim! Sim, mais um menino. Além disso, tenho uma irmã que também tem dois meninos.

Noah Akim na barriga da mamãe Tatiane

Vocês já devem imaginar: minha militância apenas ficou mais forte, tanto que eu e meu marido decidimos por um nome de matriz Africana para registrar a nossa luta.

Aprendi que ser mãe de menino é receber um olhar todos os dias como se você fosse uma heroína, acordar descabelada e receber um beijo com a frase ” está linda mamãe” .

É ouvir a palavra “mãe” de perder as contas todos os dias,  é receber um amor incondicional com todos os seus defeitos. É ser uma Rainha rodeada por príncipes.

É também ter medo, medo de vê-los crescer e precisar enfrentar um mundo de desigualdade e racismo, ter medo que eles andem pela noite na rua, ou até mesmo durante o dia,  e que sejam confundidos com bandidos pelo simples fato de serem meninos/homens pretos.

Amor de irmãos

Colocar uma criança negra no mundo é pensar que ela vem com uma bagagem. Você tem que explicar como é o dia a dia de uma pessoa negra no Brasil, como é lidar com a violência na rua, explicar sobre nossa história e porque lutamos até hoje. É deixá-los fortes para responder com respeito e também lutar pelos seus direitos e ocupar os espaços antes negados a nós, e que agora estamos ocupando.

Quero que meus filhos e sobrinhos sejam o que quiser: médico, bombeiro, esportista, empresário, que possam freqüentar as melhores faculdades, que saibam dos seus direitos e deveres, mas que principalmente saibam quem são, que valorizem e lutem pelo seu povo.

Não será fácil, mas estarei aqui lutando como uma Leoa por eles.

Uma leoa, uma mãe, mãe negra.

Por Tatiane Santos – Pretinha Educadora


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