Papo de Mãe
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LUTO – Morre Arthur, um dos gêmeos siameses que fizeram cirurgia de separação

Roberta Manreza Publicado em 01/03/2015, às 00h00 - Atualizado às 09h42

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1 de março de 2015


“Esse momento é o mais doloroso de minha vida”, escreveu o pai em seu perfil do Facebook

Por Nathalia Ziemkiewicz Revista Crescer

“Esse momento é o mais doloroso de minha vida. Noticiar aqui para todos que estão em oração para a melhora de meus filhos que meu pequeno e amado filho ARTHUR não conseguiu voltar para casa. Meu filho ontem às 23:50 deixou uma família em lágrimas de saudade.” Com esse relato em sua página do Facebook, nesta madrugada (28), o pai dos gêmeos, Delson Papa Brandão anunciava a morte de um dos meninos que foram submetidos à cirurgia de separação na última terça (24).

Na manhã deste sábado (28), o boletim médico do Hospital Materno Infantil (HMI), onde as crianças foram operadas,  informou que Arthur Brandão morreu após sofrer paradas cardíacas: “Os irmãos foram separados na última terça-feira, 24 de fevereiro, após cinco anos de preparação e mais de 14 horas no Centro Cirúrgico. A unidade informa ainda que Heitor Brandão segue internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Pediátrica do hospital, com febre e respirando com a ajuda de aparelhos. Não há previsão de alta”.

Ainda ontem, o pai das crianças comemorava a recuperação dos filhos: “Momento mais lindo foi quando ele HEITOR querendo falar e ele disse ” quero ver Arthur” e a enfermeira levantou a cabecinha dele e ele viu o irmão na cama ao lado. Isso foi outro momento que nós choramos de muita alegria”.

O processo para separação dos gêmeos foi um desafio para os médicos já que os meninos compartilhavam o fígado, os intestinos delgado e grosso, a bexiga e a genitália (pênis, testículos e ânus).

A mãe, Eliana, o pai, Delson, e os filhos, Cecília, Heitor e Arthur (Foto: Weimer Carvalho)

O meu encontro com a família

A minha vida uniu-se a deles em 2013 numa despretensiosa pesquisa pela internet. Além de descobrir os órgãos que compartilhavam, tive mais algumas informações científicas: que a incidência dessa malformação congênita é de 1 a cada 100 mil bebês, que a expectativa de vida de gêmeos siameses costuma ser de 24 horas após o parto e que o Hospital Materno Infantil de Goiânia virou referência nas cirurgias de separação. Mas quem eram Arthur e Heitor, além de números que contrariavam as estatísticas? Como lidavam no dia a dia com o corpo que, do tórax para baixo, coabitavam? E com a falta de privacidade e independência?

Troquei mensagens e ligações com a mãe deles, Eliana Rocha, durante um ano e meio. Ela trabalhava como professora no interior da Bahia quando engravidou pela segunda vez – a primogênita Cecília ainda estava aprendendo a andar. Até os cinco meses de gestação, os ultrassons não detectaram nada de anormal. Foi, então, que os médicos perceberam alterações no exame morfológico e despacharam-na para Salvador, certos de uma infraestrutura mais adequada para atender o caso raro. Assustados com a notícia e religiosos demais para um aborto, Eliana e o marido Delson procuraram tudo sobre o assunto. “Eu não sabia nem que isso existia no Brasil”, diz ela. “Foi terrível, mas decidimos levar adiante.” Para o casal, há um propósito espiritual que justifica a vinda de Arthur e Heitor em suas vidas.

Eliana foi dar à luz a quase mil quilômetros de sua casa, pelas mãos do cirurgião pediátrico Zacharias Calil, em Goiânia. O especialista já atendeu 27 casos de gêmeos siameses e lhe conseguiu uma brecha para morar na Casa de Apoio de Goiás, que recebe pacientes de todo o estado. É num quarto com banheiro que essa mãe viveu a maior parte desses últimos cinco anos, longe do marido e da filha Cecília. Ele não podia largar o emprego e a menina, os estudos. Arthur e Heitor passaram por 15 procedimentos cirúrgicos para a colocação de “bolsas” sob os músculos – preenchidas gradualmente com soro fisiológico, elas vão expandindo a pele. Não basta que os órgãos sejam divididos em dois, mas que haja como recobrir um corte tão amplo. “Resistir ao pós-operatório é o mais complicado”, afirmou Calil.

Heitor, de vermelho, eu e Arthur (Foto: Nathalia Ziemkiewicz)

Duas semanas atrás, Eliana me avisou que a cirurgia de separação definitiva havia sido marcada. Seus filhos teriam 50% de chance de sobreviver. Desembarquei na quinta-feira passada (19) para finalmente abraçá-los. Artur e Heitor brincavam de “cama de gato”, enroscando um barbante comprido entre os dedos de uma forma que jamais serei capaz de copiar. Como qualquer outra criança dessa idade, adoram Peppa Pig e jogos no tablet. Não frequentam escola, mas foram alfabetizados pela mãe e arriscam até o nome das cores em inglês. Eliana se dedica também a trocar suas fraldas, alimentá-los e carregá-los para lá e para cá – eles adoram ir à pracinha ali perto ou ao zoológico da cidade. Embora algumas pessoas lancem olhares como se os garotos fossem uma aberração da natureza, eles nunca viveram escondidos.

Pergunto se brigam muito. Arthur, o mais nervosinho, confessa que sim: “Ele me pirraça e eu também pirraço ele (sic)”. Um quer tomar banho e o outro, não. Um acordou e o outro continua dormindo. Um programa de televisão e o outro, muda de canal. Um quer se virar para a direita e o outro, para a esquerda (cada um tem uma perna, ambas atrofiadas, movem-se com ajuda dos braços). Brigam e permanecem juntos, um de frente para o outro, sem alternativa de refrescar as ideias sozinhos. Um exercício constante de negociação e tolerância. E um aprendizado para mim, que com certeza nunca mais serei a mesma dividida entre antes e depois de conhecê-los.

Nota da Redação Papo de Mãe: Lamentamos profundamente ter que noticiar este fato. A Equipe Papo de Mãe se solidariza com a família dos pequenos guerreiros e continua na torcida por Heitor. Descanse em paz, Arthur. #luto.




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