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Volta às aulas: "O retorno III"

Já foram vários tentativas de voltas às aulas durante a pandemia. Algumas famílias ainda têm medos. Será que agora volta mesmo ou ainda há riscos?

Damaris Gomes Maranhão* Publicado em 02/08/2021, às 07h00

Damaris Gomes Maranhão por Manuela Maranhão, de 10 anos, sua sobrinha neta
Damaris Gomes Maranhão por Manuela Maranhão, de 10 anos, sua sobrinha neta

Em maio de 2020 escrevi o primeiro texto sobre o impacto da pandemia na educação infantil. Naquele momento, estávamos ainda aprendendo sobre as características de transmissibilidade do novo vírus nas diversas faixas etárias e grupos sociais, um desafio para as autoridades sanitárias mundiais.

O texto convidava os leitores para uma reflexão sobre os impactos nas crianças e familiares da interrupção temporária do atendimento presencial nos serviços educacionais, sobretudo entre as famílias que não tinham outra opção para compartilhar cuidados e educação dos filhos enquanto se ocupavam das próprias tarefas pelos quais são responsáveis. Mesmo em home office os pais precisavam se concentrar nas reuniões on-line, ao ler ou redigir relatórios, fazer cálculos, dependendo da atividade exercida. Seus filhos continuavam necessitando de cuidados permeados por interações, brincadeiras e experiências diversas que possibilitam as aprendizagens.

Nem toda família tinha internet ou computadores suficientes ou tempo para acompanhar as crianças que ainda não dominam sozinhas os comandos ou teclas do computador nas aulas on-line, além de que os menores de três anos nem deveriam ser expostos às telas por muito tempo.

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Mesmo os professores que assumiram a partir daquele momento as aulas remotas perceberam a impossibilidade de conciliar cuidados/educação dos próprios filhos em tempo integral no contexto doméstico com o exercício profissional on-line. Muitas crianças ficaram restritas às telas dos celulares ou da televisão que podem comprometer o sono e o desenvolvimento neuropsicomotor saudável.

Além do trabalho em home office, há famílias cujos pais ou mães são trabalhadores dos diversos sistemas de transportes da cidade, supermercados, farmácias, entre outros serviços essenciais usados pela população em geral. Há também sobretudo mulheres mães que são cuidadoras de idosos ou babás, enfermeiros ou auxiliares e técnicos de enfermagem. A categoria enfermagem também compõe com os médicos, fisioterapeutas, nutricionistas, auxiliares de limpeza, cozinheiros, os serviços de saúde que assistem a população em hospitais, pronto socorros, ambulatórios, Unidades Básicas de Saúde  - inclusive responsáveis pela vacinação.

Ciente desta dificuldade, os responsáveis pelas creches para trabalhadores de hospitais (HU, Einstein, Sírio Libanês entre outros) não interromperam o atendimento presencial para os filhos dos profissionais que atuam nos hospitais pudessem assistir as pessoas sob sua responsabilidade. Alguns Centros de Educação Infantil na cidade de São Paulo se mantiveram abertos para atender as crianças cujas famílias continuaram atuando em serviços de saúde. As escolas e creches privadas conseguiram abrir em outubro, embora nem todas as famílias tenham enviado seus filhos.

neta Clara
Clara, de 5 anos, neta de Damaris, em aula remota

Em dezembro de 2020, escrevi o segundo texto abordando o retorno às aulas presenciais que se daria em fevereiro de 2021. Entretanto, este retorno foi parcial, tanto pela redução de números de crianças em relação ao espaço físico existente, como pelo aumento de casos após festas de final de ano que preocupou famílias que optaram por continuar com aulas à distância. Os professores da rede pública e seus sindicatos resistem há um ano desde que se anunciou o provável retorno gradativo às aulas presenciais, reivindicando melhores condições de trabalho com as crianças e imunização completa dos professores.

Mesmo agora, com o avanço da vacinação dos adultos e iniciando em alguns estados a programação para vacinar adolescentes, não há previsão de vacinação de todas as faixas etárias das crianças. Como as famílias podem confiar em enviar seus filhos à escola? Ao mesmo tempo, como estas famílias podem continuar seu trabalho on-line ou presencial e ao mesmo tempo garantir a educação dos seus filhos que é fundamental para o desenvolvimento integral e pode impactar em toda a sua vida?

A importância da Parceria

Mais do que nunca, a parceria efetiva entre familiares das crianças e professores é fundamental. Combinar com os familiares os cuidados mais importantes ao chegar na escola, começando pela higiene de mãos de todos incluindo os bebês que dependem dos adultos para fazê-lo, associado a um sistema de informação diário de potenciais sinais ou sintomas de adoecimento das crianças (mais eficaz que medir a temperatura na entrada) ou contatos dos pais, irmãos, parentes ou colegas de trabalho com uma pessoa suspeita ou confirmado com o novo vírus, pode ajudar a evitar novos casos na comunidade e na escola.

Para tanto é fundamental que familiares e equipe escolar estejam bem informados sobre o que é considerado contato no caso deste vírus seguindo as normativas dos documentos oficiais da Vigilancia Epidemiológica do Estado de São Paulo para as escolas, evitando potenciais surtos ou afastamentos desnecessários.

A pandemia de uma doença de transmissão respiratória requer planejamento para aumentar os distanciamentos entre os corpos tanto dos adultos, como das crianças e adolescentes considerando desde o transporte até a escola, a chegada e saída. E é um grande desafio, no caso dos bebês, que requerem colo tanto para acolhê-los como para oferta de mamadeiras ou do leite materno no copo, no transporte até o trocador de fraldas, no acalanto para dormir.

aula de ballet
Clara, neta de Damaris, em aula remota de ballet

Mas os professores podem aprender com enfermeiros a como acolher um bebê no colo e manter a própria segurança, como se faz nas unidades de pediatria no hospital. Tenho falado sobre estas técnicas em palestras on-line realizadas para profissionais do setor educacional de diversos municípios e instituições desde o início da pandemia, a maioria publicadas no Youtube.

Os professores e pais podem juntos debater e planejar as atividades mais seguras e, ao mesmo tempo, educacionais desenvolvidas durante o dia, o repouso, as refeições, as brincadeiras e interações evitando misturar grupos que devem ser organizados em “cortes” ou “bolhas”. Este planejamento monitora contatos  do grupo, eventualmente com alguém doente, podendo serastreado, evitando-se surtos (dois casos ou mais no mesmo período de incubação, ou seja, dentro de 14 dias) ou seja, contágio com origem dentro do ambiente escolar.

E as famílias precisam se comprometer, assim como os profissionais da educação, em evitar quebrar estas regras fora da escola, evitando misturar crianças de diversos grupos em outros eventos, como visitas na casa do colega de outra turma, festas de aniversário, exceto se residam na mesma casa.

As crianças de todas as idades já aprenderam pela observação dos familiares e das pessoas do bairro ou comunidade onde convivem, que neste momento a maioria das pessoas e colegas usam máscaras, exceto os bebês ou aqueles que têm alguma restrição devido a características do seu desenvolvimento.

Mas as maiores de dois anos que podem usar as máscaras adequadas à sua face talvez ainda demandem ajuda para retirá-las e armazená-las na escola com segurança, tanto as de tecido ou as descartáveis, durante as refeições, ao beber água, ao trocá-las conforme tipo e orientações sanitárias. Se os adultos que convivem com elas usam as máscaras de forma adequada, podem ser bons modelos para as crianças e adolescentes, assim as famílias devem se comprometer com os professores nesse sentido.

Readaptação ou Nova Adaptação?

O retorno das crianças e adolescentes às escolas exige também o acolhimento e compreensão por parte dos adultos dos desafios enfrentados pelos bebês que haviam começado a adaptar-se ao contexto da creche no início de 2020 e interromperam este processo e agora ao retornarem com mais idade e em outra fase do desenvolvimento requerem uma nova adaptação. As crianças mais velhas, e mesmo os adolescentes, também requerem uma nova adaptação pois algumas que haviam iniciado uma nova série em 2020 tiveram este processo interrompido pela quarenta que se prolongou mais ou menos, dependendo da adesão das famílias ao retorno - em escolas privadas, reabertas em outubro do mesmo ano, ou, no caso das escolas públicas, se programam para fazê-lo neste mês de agosto de 2021.

Mas algumas famílias ainda temem enviar seus filhos à escola devido ao temor do contágio pelo novo vírus ou por não confiar nas medidas sanitárias da escola. Mas é preciso avaliar risco e benefício das aulas presenciais nesse momento, da creche ao ensino médio, pois o afastamento deste importante espaço social impacta muito a sociabilidade, o desenvolvimento psicofísico e a construção do conhecimento.

Faço parte de um grupo de profissionais de saúde no Instagram, o Ciência pela Escola. Ali trocamos experiências nos mantendo atualizados em relação a pesquisas científicas publicadas ponderando o risco de infecção pelo retorno das aulas presenciais e o impacto psicofísico do ensino remoto.

Além disto, tenho acompanhado três escolas privadas na zona oeste e sul da cidade de São Paulo que iniciaram atendimento presencial em outubro de 2020 e uma quarta que optou pelas aulas presenciais a partir de fevereiro de 2021. Constatei que os casos de Covid-19 confirmados foram raros entre crianças e, após rastreio epidemiológico inclusive com auxilio da UBS da região, concluímos que o contágio foi no contexto familiar.

Para compreender melhor este fenômeno, participo de uma pesquisa que visa o acompanhamento de todos os casos suspeitos ou confirmados durante dois anos no contexto de um Centro Municipal de Educação Infantil de Campinas reaberto em maio de 2021. Também acompanho, como avó e mãe, minha neta Clara (5 anos) que retornou para a pré-escola em outubro de 2020, o que foi fundamental para o desenvolvimento de sua sociabilidade. A mãe dela é professora de artes cênicas e música em três escolas privadas onde observamos também que o ambiente escolar pode ser seguro desde que adote cuidados recomendados pelas autoridades sanitárias adequados a cada faixa etária.

Meu filho e nora são médicos e atendem como psiquiatra e ginecologista do SUS em vários serviços o que poderia nos expor como família, mas antes de nos reunirmos sempre checamos os potenciais contatos no trabalho ou na família ampliada de cada um. Até o momento, podemos dizer que vencemos este risco, mas como não existe risco zero, mesmo após vacinados, continuamos atentos ao uso de máscaras de forma adequada, aos distanciamentos possíveis, ao arejamento dos ambientes e higiene de mãos. De vez em quando, como humanos, nos pegamos em atos falhos, mas um alerta o outro, sempre atentos à segurança de todos.

Considerando que em todo mundo e no Brasil se reconhece o grande impacto psicofísico e educacional no afastamento prolongado das crianças e adolescentes e mesmo jovens adultos universitários do ambiente escolar, precisamos estabelecer parcerias efetivas entre profissionais do setor educacional, do setor saúde e todos os familiares que convivem ou assistem as crianças, adolescentes e adultos. Mas o que significa parceria? Significa reconhecer a necessidade de troca constante de informações, de negociação de pontos de vista diversos, de ações com objetivos comuns, que no caso passa pelo cuidado e educação da nova geração.

É preciso superar o que se denomina de “teatro da higiene”, ou seja, ações equivocadas na entrada da escola, representando medidas de segurança. Sem dúvida lavar as mãos ao chegar em qualquer lugar, inclusive na escola ou na residência, é uma medida eficaz para evitar não apenas a Covid-19, mas várias doenças transmissíveis. O uso e manuseio adequado da máscara, arejar bem os ambientes, preferir atividades ao ar livre mesmo na escola, aumentar o espaçamento evitando aglomerações e limpeza de superfícies mais tocadas pelas mãos, cozinhas e sanitários são fundamentais em qualquer tempo. Mas, sobretudo, temos que reconhecer que dependemos do compromisso de todos para poder notificar e investigar potenciais casos de qualquer doença transmissível e da Covid-19 para evitar surtos na escola.

Caso ao ler este texto você tenha dúvidas ou discorde de alguma informação pode nos enviar mensagens iniciando o debate necessário para a construção de uma consciência sanitária coletiva e combatendo as fake news.

*Damaris Gomes Maranhão Mãe do Bruno e da Melissa, avó da Clara, tia avó da Manuela. É enfermeira Especialista em Saúde Pública UNIFESP/USP, Dra em Ciências da Saúde pela UNIFESP, Professora do Instituto Superior de Educação Vera Cruz, Consultora do CEDUC e Formadora no Instituto Avisalá

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