Papo de Mãe
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A adaptação escolar em época de pandemia

Se em anos “normais” este período já era marcado por incertezas e inseguranças, neste ano há novos componentes a serem levados em consideração.

Roberta Manreza Publicado em 03/03/2021, às 00h00 - Atualizado às 14h39

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3 de março de 2021


Desafio para os pequenos em isolamento social: A educação infantil e os protocolos de biossegurança, afeto e acolhimento.

Por Ana Paula Yazbek*

Pensem na seguinte situação. Em março de 2020 uma criança de dois anos estava indo pela primeira vez à escola. Os primeiros dias não foram fáceis: choros, saudades da família, relutância em se arrumar para sair de casa. Aos poucos, com o passar das primeiras semanas e com o acolhimento e segurança transmitidos pelos educadores, essa criança começa a se sentir mais segura e feliz na escola. De repente, chega a pandemia. A família passa a conviver vinte quatro horas por dia, o espaço profissional e pessoal dos pais se confundem, as reuniões virtuais são interrompidas para dar colo, separar brigas etc. Conseguem passar algumas semanas fora da cidade, uma alteração de rotina que, inicialmente, faz parecer um longo feriado. Após algum tempo retornam à casa e ao trabalho à distância. O convívio com os avós é interrompido, a festa de três anos é feita online. Chega março de 2021 e a criança retorna à escola.

Se em anos “normais” este período já era marcado por incertezas e inseguranças, neste ano há novos componentes a serem levados em consideração.

As escolas de educação infantil[1]passaram todo o ano de 2020 se preparando para a reabertura: buscaram assessorias na área da saúde para garantir e organizar os protocolos de biossegurança, investiram em equipamentos de segurança e evidenciaram ainda mais os cuidados com higiene e limpeza dos espaços e dos materiais.

Algumas instituições ficaram muito fixadas nestes aspectos e deixaram de investir também na criação de protocolos afetivos e de acolhimento, a fim de garantir um retorno/início humanizado, mais respeitoso com as características e interesses das crianças pequenas.

Na construção e no restabelecimento do vínculo, as crianças precisam sentir-se bem-vindas no espaço escolar e para isso, a receptividade, desde a entrada na escola, deve ser evidenciada. A aferição de temperatura, lavagem de mãos, troca de sapatos, devem ser realizadas com muita gentileza e sem pressa, preferencialmente incluindo as crianças nestas ações.

Uma vez que os sorrisos estão escondidos pelas máscaras, os olhares e o tom de voz ternos devem se sobressair. Assim como os convites para que conheçam os diferentes ambientes, pessoas e materiais que progressivamente farão parte desta nova rotina.

A parceria com as famílias é sempre necessária e, mesmo com a pandemia, considero fundamental a presença de um adulto de referência nos primeiros dias de adaptação. Para que isso aconteça com segurança, é preciso que os ambientes sejam arejados e que as crianças tenham livre acesso ao local onde seu familiar estiver. Quando os familiares acompanham seus(as) filhos(as), eles têm a oportunidade de ver como a rotina se organiza, como as crianças são acolhidas pelos educadores e como os conflitos são trabalhados. Isso passa-lhes confiança, pois percebem que se algo ocorrer em sua ausência, tudo caminhará em segurança.

Mas, para além dos cuidados preventivos por conta do coronavírus, as delicadezas e peculiaridades que sempre compuseram o período de adaptação continuam a merecer atenção.

Cada criança e família vivencia este período de modo próprio. Há crianças que se mostram muito animadas nos primeiros dias e que ao perceberem que estar na escola significará ficar longe de sua casa, começam a apresentar recusas e estranhamentos. Outras, parecem alheias ao que ocorre ao seu redor, como se estivessem apenas esperando pela hora de ir embora. Têm, também, as crianças que demonstram estar ávidas pelas novidades e dão pouca atenção aos seus familiares nos momentos de despedida e separação.

A dubiedade é inerente ao processo de adaptação. Num mesmo dia, ocorrem avanços e retrocessos na segurança apresentada tanto pelas crianças, como por suas mães ou pais; cabendo às instituições o suporte para que progressivamente os vínculos de confiança se estabeleçam.

Este período precisa ser muito bem cuidado, a partir do estabelecimento de uma relação próxima e pessoal com cada uma das crianças, a fim de conhecer suas preferências, desejos e receios.

Neste início de ano, tenho notado que precisamos cuidar ainda mais dos vínculos. Tenho a sensação de que, por estarmos todos fragilizados pelas incertezas causadas pelo coronavírus, nós adultos ficamos mais mexidos com algumas manifestações e recusas das crianças.

Por parte das escolas, é importante levarmos em consideração que o intenso convívio familiar deste último ano não pode ser ignorado e que as crianças precisam de momentos de mais silêncio e distanciamento do grupo.

Por parte dos pais e mães, considero que devem demonstrar segurança a seus filhos e confiança de que estarão bem acolhidos na escola escolhida.

Na semana passada, observei pela janela da minha sala uma criança de quatro anos afastada de seu grupo brincando com uma boneca, ela tinha escolhido um lugar bem aconchegante para ficar. Vendo-a ali fiquei imaginando quantas vezes ela ficou embaixo da mesa de trabalho dos pais, enquanto eles estavam em reuniões virtuais. Logo em seguida, pensei que não faria o menor sentido tirá-la dali para fazer alguma proposta junto ao grupo. Ainda bem que isso não aconteceu e ela pôde juntar-se ao grupo quando tinha finalizado sua brincadeira.

Tenho conversado com muitos pais e mães sobre os choros que ocorrem nos momentos das despedidas. Sempre reforço o quanto é saudável que a criança sinalize seu estranhamento e, que na maioria das vezes, o choro finaliza em poucos instantes, dando lugar ao interesse em brincar e partilhar com os novos pares vivências diferentes das vividas em casa.

Quando o choro se prolonga, pedimos aos familiares que aguardem uns instantes, mas formalizamos a separação. Em paralelo, dizemos às crianças que se precisarem iremos chamá-los, ao mesmo tempo, as convidamos para alguma brincadeira, ou proposta que chamem sua atenção.

No reencontro do final do dia, algumas crianças ficam muito emocionadas e voltam a chorar, como se relembrassem que ficaram um tempo distantes. E realmente ficaram. É o momento que concretiza a falta que foi preenchida por pinturas, histórias, brincadeiras na areia, lanchinhos saborosos, risos, machucados, partilhas, disputas, descidas de motocas, canções e tantas outras experiências que ocorrem num dia na escola.

Esse tempo distante, dá espaço para saudade, areja as relações e renova o desejo de estar neste lugar fundamental para o desenvolvimento humano que chamamos de Escola de Educação Infantil.

*Ana Paula Yazbek é pedagoga formada pela Faculdade de Educação da USP, com especialização em Educação de Crianças de zero a três anos pelo Instituto Singularidades; iniciou mestrado na FEUSP em 2018 e está pesquisando sobre o papel da educadora de bebês e crianças bem pequenas.

É sócia-diretora do espaço ekoa, escola que atende crianças de toda Educação Infantil (dos 0 aos 5 anos e onze meses). Além de acompanhar o trabalho das educadoras, atua em cursos de formação de professores desde 1995 e desde 2002 está voltada exclusivamente aos estudos desta faixa etária.

[1]Principalmente as escolas particulares

Veja também:

Saúde e educação: Como garantir esses direitos desde o nascimento. 

Os impactos do isolamento social nos crimes de violência sexual contra crianças e adolescentes




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