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Nem sempre é só timidez: entenda o que é o mutismo seletivo e como identificá-lo

Dra. Elisa Neiva, psicóloga e pesquisadora, fala sobre o diagnóstico e tratamento do mutismo seletivo. E uma mãe fala da sua batalha

Ana Beatriz Gonçalves* Publicado em 17/10/2021, às 17h10

Excesso de timidez nem sempre é apenas um traço comum de personalidade
Excesso de timidez nem sempre é apenas um traço comum de personalidade

Outubro é considerado o mês internacional de conscientização sobre o Mutismo Seletivo (MS), um transtorno de ansiedade que atinge principalmente o público infantil.  Pouco conhecido e fácil de passar despercebido por "timidez", o transtorno pode ser diagnosticado e tratado.

Para entender melhor sobre o tema, o Papo de Mãe conversou com uma das pioneiras do assunto no Brasil, a psicóloga e pesquisadora Dra. Elisa Neiva, que está há 26 anos se dedicando à causa. Segundo ela, a confusão feita entre o transtorno de saúde mental com o traço de personalidade é mais comum do que se imagina.

"Já percebemos que existem algumas caraterísticas, sendo elas comportamentais, ambientais e genéticas. Conseguimos perceber logo nos primeiros anos de vida de uma criança, o período em que ela começa a interagir com o mundo, por isso é mais comum que o mutismo se manifeste nesta fase. Os pequenos estão em um processo de transição de padrões comportamentais e habilidades sociais", começa explicando a especialista.

Um dos principais alertas que Elisa aponta é o comportamento da criança em relação aos outros, sejam eles conhecidos (familiares, amigos e parentes) ou também desconhecidos.

"Antes da pandemia, existia um certo padrão. As escolas chamavam os pais e falavam: 'olha, seu filho(a) é muito quieto. Não conversa com ninguém'. Nesse momento acende uma luz vermelha... Se a criança interage normal em casa, com os pais, mas com os outros não".

A criança que passa por isso, quer falar, mas não consegue. É como se o silêncio já fosse um costume."

Sugestão em vídeo: Entrevista com especialista sobre Mutismo Seletivo

Relato de mãe

Personagens mutismo seletivo
Virginia Salim é mãe de 4, e um dos seus filhos tem o diagnóstico do Mutismo Seletivo. (Foto: Arquivo Pessoal)

"Eu ainda tenho esperança e fé que ele vai vencer", compartilha a uruguaia Virginia Salim, 50, mãe do adolescente Alan, de 16 anos. Casada com um brasileiro, Virginia tem outros três filhos, e entre mudanças de países, ela chegou ao Brasil há 13 anos.

"O Alan tinha 3 anos quando chegamos. Ele já tinha um pouquinho de atraso na fala. Sempre falamos três idiomas em casa; espanhol, inglês e português. Ele falava o básico em espanhol. No começo pensei que era timidez até por conta do idioma", explica ela.

Quando Alan completou 5 anos, Virginia e o marido perceberam que ele só conversava com a família. Isso fez com que eles procurassem a ajuda de um profissional. "Foi quando ele recebeu o diagnóstico de mutismo seletivo".

Desde que Virginia soube do transtorno de ansiedade do filho, Alan não deixou de ir às consultas médicas. No entanto, a uruguaia percebia que o tratamento não estava evoluindo.

Veja também:

"O mutismoseletivo não é conhecido pelos profissionais de saúde. Mesmo esse psicólogo que nos deu o diagnóstico não estava preparado. Até hoje ele [Alan] não venceu o transtorno".
personagem mutismo
Com 3 anos os primeiros sinais começaram a aparecer, mas foi com 5 que Alan Salim recebeu o diagnóstico do transtorno de mutismo seletivo. (Foto: Arquivo Pessoal)

Virginia conta que há 3 anos o filho recebeu um diagnóstico de autismo, que também interfere em sua dificuldade de se comunicar. "Ele diz que não consegue falar, para ele é algo muito difícil. É como se ele sofresse calado. Não é fácil ver todo esse sofrimento", afirma.

Ela conta que Alan se comunica com as pessoas de fora através de gestos com a cabeça e tem um único amigo de infância. "Com nós ele fala, não fica o dia inteiro conversando, mas fala normal. Ele já apresentou algumas melhoras... antes, se alguém vinha em casa, ele cochichava no meu ouvido."

Desde 2012 Virginia usa a internet para unir mães, pais e cuidadores que vivem com o mutismo seletivo. "Criei uma página no Facebook e comecei a colocar bastante informação. Muitos pais entram em contato comigo para trocar experiências e medos. Não me sinto mais sozinha nessa luta. No começo eu achava que era a única mãe que passava por isso". 

Bate-papo com especialista

Papo de Mãe: Com que idade o Mutismo Seletivo pode ser percebido?

Elisa Neiva: A partir dos 3 anos a criança começa a ter uma participação maior em ambientes sociais, na escola, por exemplo, ela fica mais solta. Agora com a pandemia, mudou muito esse olhar e a percepção dos próprios pais. Mas geralmente é por volta dessa idade ou um pouquinho mais. 

Papo de Mãe: Como se trata o Mutismo Seletivo? 

Elisa Neiva: Quando há o diagnóstico, o tratamento é sempre multimodal, ou seja, feito por vários profissionais da saúde. Normalmente o mutismo seletivo traz com ele outras comorbidades além da dificuldade de socialização. Inicialmente, fazemos uma avaliação da criança em casa com os pais, e depois e um ambiente social.

No segundo momento, começamos a criar um vínculo com a criança no consultório. Procuramos entender a forma dela se comunicar, seja sussurrando, escrevendo ou gesticulando.

Tudo isso começa a se transformar num plano de tratamento que vai ser traçado. Importante dizer que cada tratamento é único para cada criança. Se existe dificuldade de fala, por exemplo, trabalhamos em conjunto com fonoaudiólogas, terapias integrativas e se for preciso, em alguns casos, psiquiatras e neurologistas.

Papo de Mãe: Quais são essas outras comorbidades que crianças com o transtorno  apresentam?

Elisa Neiva: Normalmente elas apresentam uma reação intensa ao toque, ruídos, luzes. Isso tudo está muito ligado ao mutismo. Inclusive, o transtorno apresenta semelhanças com o Transtorno do Espectro Autista. Acreditamos que nós tenhamos muitas crianças com diagnósticos errados. Infelizmente o mutismo seletivo é pouco conhecido no mundo, não só no Brasil.

A falta de acesso aos estudos pode estar causando essa questão do diagnóstico. É importante salientar que muitos pais que chegam no consultório se sentem culpados e temorosos que os filhos sejam autistas.

Os dois transtornos podem coexistir uma criança, mas a diferença é que um se trata de ansiedade e outro neurológico.

Papo de Mãe: Uma criança que apresenta o transtorno pode um dia se tornar um adulto comunicativo?

Elisa Neiva: Uma coisa é fato, quando mais cedo for feito o diagnóstico e o tratamento, mais chances da criança superar esse transtorno, porque aí ele se desenvolve em um tempo menor. Na pré-adolescência e na juventude, começa a ficar mais difícil de acontecer por conta do acesso à criança. Pode que ser que ela se torne um adulto extremamente reservado, porém comunicativo, ou uma pessoa totalmente extrovertida.

Papo de Mãe: Qual é a sua avaliação sobre o atual cenário do Brasil?

Elisa Neiva: O cenário de hoje está consideravelmente melhor, acredito que de 5 anos pra cá. Com as campanhas, políticas e o mês internacional de conscientização, conseguimos alcançar mais pessoas. 

Isso tem sido um trabalho feito por muitos pais, tanto é que foi criada uma rede. A gente costuma dizer que pais começaram dar voz ao silêncio dos filhos. Começou a ser mais visto, mas ainda esta mais a quem do que desejado, alguns psicólogos não sabem sobre.

Para mais informações acesse o site do Mutismo Seletivo Brasil

MUTISMO SELETIVO
O transtorno de mutismo seletivo faz com que a criança não consiga se comunicar com muitas pessoas, somente com pessoas próximas.

*Ana Beatriz Gonçalves é jornalista e repórter do Papo de Mãe


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