Papo de Mãe
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Preconceito e desinformação prejudicam a inclusão no mercado de trabalho

Mariana Kotscho Publicado em 04/02/2021, às 00h00

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4 de fevereiro de 2021


Há leis que garantem vagas no mercado de trabalho para pessoas com deficiência, mas elas nem sempre são cumpridas. Entenda qual é a realidade neste artigo de Thaissa Alvarenga, da ONG Nosso Olhar. E conheça o projeto Bike Art.

Projeto Bike Art da ONG Nosso Olhar

Por Thaissa Alvarenga*

Quando um bebê vem ao mundo, uma série de sonhos nasce com ele. Os pais querem ver seu pequeno crescer, se desenvolver e seguir o curso natural da vida de estudar, trabalhar e um dia ser bem sucedido profissionalmente. Parece simples, mas, para a pessoa que nasce ou desenvolve uma deficiência, a trajetória é bem mais difícil. Por mais apta que ela esteja para assumir uma série de funções dentro de uma empresa, o preconceito e a falta de informação tornam-se grandes barreiras neste caminho. No Brasil, temos cerca de 45 milhões de pessoas com deficiência, mas apenas 0,9% está empregado, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED).

Com o objetivo de proporcionar mais oportunidades de emprego e de inclusão, o governo implantou em 1991 a Lei de Cotas (Lei 8213/91), que determinou a obrigatoriedade de todas as empresas do setor privado a destinarem um percentual de suas vagas para pessoas com deficiência de acordo com a quantidade de colaboradores: 2% quando a empresa tem de 100 a 200 funcionários; 3% de 201 a 500 funcionários; 4% de 501 a 1000 funcionários; e 5% de 1001 a diante. Apesar de vigorar há 30 anos, ainda existem empresários que não cumprem a lei e pagam multa de R$ 2.519,00 a R$ 251.929,00 por profissional não contratado.

Isso acontece porque ainda existe muito preconceito e falta de informação no mundo empresarial. O descrédito no potencial da pessoa com deficiência, como se ela não fosse capaz de aprender e se desenvolver dentro de uma área profissional, prejudica não só o indivíduo, mas a própria empresa, que deixa de contratar funcionários competentes e capacitados que poderiam colaborar com o crescimento da instituição. Na maioria dos casos, essas pessoas só precisam de alguém que confiem em sua capacidade e dê uma oportunidade.

Por outro lado, a empresa que cumpre com a lei de cotas abre portas para que sua equipe aprenda com o processo de inclusão e viva ricas experiências no convívio com a diversidade. Também trabalha a cultura organizacional da instituição e consegue até mesmo ter mais representatividade no mercado. Os benefícios não param por aí. Um estudo recente da consultoria RH Michael Page mostra que empresas com funcionários inclusivos conseguem aumentar a receita em 19%. Além, é claro, de colaborar com a inserção da pessoa com deficiência no mercado de trabalho.

A verdade é que os mitos e a desinformação prejudicam o avanço da inclusão nesta área. Foi pensando nisso que criamos o projeto Bike Art, da ONG Nosso Olhar, para dar a jovens com síndrome de Down a oportunidade de aprender e vivenciar sua primeira experiência profissional. Com o auxílio de parceiros e artistas, esses jovens participam da confecção de obras de arte e vão a diversos pontos comerciais expor e vender seus trabalhos. Eles são capacitados e incentivados a passar por experiências importantes para que venham a se tornar pessoas ativas profissional e financeiramente.

Tudo que eles precisam é de pessoas e empresas que confiem em suas capacidades e que apoiem a real inclusão. Cada um de nós tem pontos fracos e fortes que, se forem trabalhados de maneira correta, podem fazer a diferença no mundo corporativo e na sociedade. É essa aposta na diversidade que faz a diferença. Aceitar que cada pessoa tem um jeito único de contribuir com seus talentos e habilidades é colaborar para um mundo melhor. Antes da deficiência, vem o ser humano. Precisamos enxergar a pessoa antes de qualquer outra coisa.

*Thaissa Alvarenga é fundadora da ONG Nosso Olhar

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