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11/04/2021

O papel da família na criação dos hábitos alimentares e a importância dos rituais na alimentação

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A colunista do Papo de mãe Ariela Doctors fala da relação entre família e alimentação e nos traz uma deliciosa receita de Shakshuka. Quem sabe o que é?

Por Ariela Doctors*

 

Shakshuka

A alimentação durante a infância, além de ser importante para o crescimento e desenvolvimento, pode também representar um dos principais fatores de prevenção de algumas doenças na fase adulta.
Além de fatores sociais e ambientais, os padrões alimentares da família são decisivos na formação de hábitos e memórias alimentares.

O hábito alimentar é criado desde muito cedo. Estudos e pesquisas demonstram que esses hábitos podem ter início quando ainda estamos na barriga de nossas mães! Eles marcam nossas memórias e podem ficar para sempre em nossas vidas.

O primeiro contato que temos com os sentidos alimentares, o olfato e o paladar, ocorre antes do nosso nascimento, quando somos expostos ao líquido amniótico das nossas mães. Isso nos faz pensar que o nosso gosto é formado pelos gostos que atravessam nossas mães, que por sua vez, são influenciados pelos meios onde elas vivem, pelas culturas em que estão inseridas. Portanto, mães que alimentam-se de forma mais saudável, com comida fresca e mais natural, tendem a criar filhos com hábitos mais saudáveis e gostos mais diversos. Já as que alimentam-se com comidas prontas e ultraprocessadas, irão de alguma forma influenciar negativamente na alimentação dos filhos. É muita responsabilidade, não?

Mas, para além dessas condições fisiológicas do gosto, sabemos que nossa memória gustativa é potente e decisiva em outros momentos das nossas infâncias.

Comer é um ritual

Ou, pelo menos, deveria ser.
Onde, como e com quem estávamos ao comer um prato ou ao prepará-lo? Nossos sentidos conseguem promover memórias importantes destes momentos.

Família reunida na hora das refeições: um ritual importante

Na história da humanidade, alguns dos nossos sentidos sempre foram considerados mais nobres do que outros. A visão deu origem à pintura, à escultura e aos espetáculos. A audição possibilita sons, melodias, harmonias, dança e música. O tato, a todas as artes e habilidades, além da indústria.

Olfato e paladar eram considerados menos importantes, com menos prestígio. Porém, Brillat-Savarim, advogado e juiz francês amante da gastronomia, nos ensina que o gosto, formado pelo olfato e pelo paladar, apesar de ter sido uma faculdade mais prudente, mais comedida, alcançou o mesmo patamar das outras; “…quem compareceu a um banquete suntuoso, numa sala ornada de espelhos, flores, pinturas, esculturas…repletas de sons de uma suave harmonia; este, afirmamos, não precisará de um grande esforço de inteligência para se convencer de que todas as ciências foram chamadas para realçar e enquadrar adequadamente os prazeres do gosto.” Vejam vocês o poder do gosto!

Por meio do olfato e do paladar podemos nos transportar para épocas e cenários vividos de forma intensa e sensível. Para além dos nossos sentidos, essa memória nostálgica pode nos remeter a outras sensações como a de pertencimento a grupo, a uma família, a um lugar.

Quem preparava nossas comidas e em qual ambiente?
As pessoas que cozinhavam estavam tranquilas, felizes? Ou apressadas e atarefadas? As comidas eram feitas com prazer ou compradas prontas com sabores e procedência duvidosa?

Como era o ambiente e o momento de comer? Estávamos num lugar calmo e agradável? Ou em frente a uma TV ligada ou a um celular apitando mensagens?

O que era servido nas festas e comemorações da nossa família? Em quais pratos a comida era servida? Havia esmero na preparação da mesa? Uma toalha bonita? Por vezes flores ou velas?

Todas essas perguntas nos levam a pensar sobre a importância que damos ao ato de comer, aos rituais e consequentemente a saúde e qualidade de vida que temos e daqueles que nos cercam.

Como sempre, minha sugestão é cozinhar e comer com nossos filhos e filhas! Assim, desde sempre eles poderão sentir a importância do alimento e do amor em nossas vidas.

Aqui vai uma receita simples e saborosa, que me remete a um lugar importante da minha infância. Uma verdadeira comida reconfortante que minha querida mãe fazia para mim e que agora faço com meus filhos e compartilho com vocês!

Receita Shakshuka (uma espécie de fritada com ovos)

Shakshuka: fritada de ovos

Ingredientes

2 colheres de sopa de azeite;
2 colheres de sopa harissa (pimenta marroquina, encontra-se nas grandes redes de mercado) ou 1 pimenta dedo de moça picada sem sementes;
2 pimentões vermelhos grandes cortados em cubinhos;
4 dentes de alho picados;
1 1⁄2 colher de chá de cominho em pó;
5 tomates grandes bem maduros picados;
4 ovos caipiras + 4 gemas;
120 gramas de coalhada seca (opcional),
1 bom pão de preferência de fermentação natural ou pão sírio

Modo de preparo

  1. Aqueça o azeite em uma frigideira grande em fogo médio e coloque a harissa ou a pimenta dedo de moça, o alho, o cominho e uma pitada de sal. Deixe o alho dourar e acrescente os pimentões, cozinhe em fogo moderado por cerca de 8 minutos.
  2. Acrescente os tomates, deixe levantar fervura lentamente e cozinhe por mais 10 minutos, até obter um molho bem espesso. Prove para verificar o tempero.
  3. Faça oito pequenos buracos no molho. Quebre os ovos delicadamente e coloque um em cada buraco. Faça o mesmo com as gemas restantes. Use o garfo para misturar ligeiramente as claras e o molho, com cuidado para não quebrar as gemas.
  4. Cozinhe em fogo brando até que as claras estejam firmes, mas as gemas ainda líquidas. Sirva com pão e coalhada seca.

Você pode acessar outras receitas no site Comida e Cultura.

@projetocomidaecultura

Canal de youtube Comida e Cultura.

Fontes:
Livro: A Fisiologia do gosto, de Brillat-Savarin
Artigo: Hábitos alimentares, globalização ou diversidade? José Ângelo Wenceslau Góes
Podcast: Panela de impressão – Porque a gente come o que come? de Elaine azevedo

*Ariela Doctors é chef, comunicadora e mãe

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