Papo de Mãe
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Volta às aulas: impactos pedagógicos, sanitários e fiscais, além de muita discussão

Estudo realizado pela Fundação Maria Cecília Souto Vidigal traça um mapa de como os municípios brasileiros vão lidar com a retomada das aulas presenciais nas escolas. Famílias ficam entre decidir mandar ou não seus filhos para a escola

Raphael Preto Pereira* Publicado em 02/02/2021, às 00h00 - Atualizado às 19h56

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A retomada das aulas presenciais deve modificar a rotina das famílias, e a maneira como cada município vai gerir os gastos necessários para a reabertura das instituições vai impactar os orçamentos. É o que mostra uma análise de cenários feita pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal.

Segundo o estudo intitulado “Custo da reabertura de creches e  Pré-escola públicas no Contexto Da  Covid-19”, o orçamento público dos municípios brasileiros  será impactado por medidas como a contratação de educadores em caráter emergencial para substituir os professores que estão no grupo de risco. Segundo outro levantamento feito pela Folha de São Paulo em agosto do ano passado, as redes de ensino públicas brasileiras chegam a ter até 40% dos educadores nessa condição.

Além do dinheiro utilizado com a contratação de educadores, o levantamento da Fundação também levou em consideração os valores dos gastos com materiais para a assepsia das escolas, estudantes e professores.

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O estudo considerou como base os cenários de três cidades brasileiras que divulgaram os custos com a reabertura das creches e pré-escolas públicas: São Paulo (SP), Sobral (CE) e Manaus (AM). As informações que balizaram o custo dos cenários de reabertura foram divulgadas pelos próprios municípios. 

“Com o relatório, nós tentamos considerar qual seria o impacto da volta às aulas e os custos disso em um protocolo de retorno seguro“, explica Paula Pereda, coordenadora do estudo. “Não entramos num debate sobre a questão fiscal em si, mas sim, procuramos apresentar um caminho considerando o custo da retomada”, esclareceu a pesquisadora. 

São 5 propostas. O documento explicita os pontos positivos e negativos de cada um dos cenários. “A maneira como cada escola decidir voltar certamente terá um impacto no orçamento de cada uma e de cada rede”, acredita Paula. 

Apesar de serem responsáveis por mais da metade das matrículas na educação infantil, os municípios brasileiros ficam com a menor parte da arrecadação, o que pode impactar no planejamento financeiro para a volta às aulas. 

criança ruiva lendo livro
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Para a gerente executiva de articulação do Instituto Ayrton Senna, Inês Kisil Miskalo, a questão da arrecadação municipal precisa ser debatida: “Você tem na prática mais de cinco mil sistemas educacionais, porque a maioria dos sistemas educacionais está na rede municipal. E quando olhamos para a questão dos municípios é importante pensarmos na eficiência: e essa, infelizmente, é uma palavra que está fora do universo educacional”, lamenta. 

Inês também ressalta que mais de 70% das cidades brasileiras têm menos de 20 mil habitantes e dependem dos recursos que advém de um fundo de participação. “ E as prefeituras, em geral, são responsáveis pelo atendimento de um público que normalmente está marginalizado do processo de educação”, completa.

A volta às aulas também causa  debate entre os grupos que defendem os interesses das instituições de ensino privadas e ONGS que militam pelo direito à educação.

Benjamin Ribeiro da Silva, presidente do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino de São Paulo, diz que as escolas já poderiam estar abertas: “Nós já temos condições para abrir desde agosto”, defende. E completa: “As escolas particulares já assumiram todo o custo necessário para a abertura e já assimilaram esse custo ”.

A posição entretanto não é consenso para quem trabalha com educação. O professor da Universidade federal do ABC, Fernando Cássio, que integra a Rede Escola Pública e Universidade e também o corpo diretivo da  Campanha Nacional Pelo Direito à Educação, diz que as escolas não estão preparadas e defende que há uma falta de transparência no processo. 

“As escolas não estão preparadas, nem mesmo as privadas. O número de instituições que têm  protocolos sérios de segurança é ínfimo”, acredita. “ Vamos continuar com um modelo que é indutor de desigualdade, como foi o ensino remoto no ano passado”, lamenta o educador.

Ana Paula Yazbek, coordenadora da escola particular  Espaço Ekoa e colunista do Papo de Mãe, defende que todo o processo de retomada está acontecendo baseado no diálogo com educadores, escolas e responsáveis. 

“Nossa escola tem um projeto muito associado ao uso dos espaços escolares como um todo, não se baseando apenas na utilização da sala de aula, mas também de todos os lugares disponíveis em uma escola, como a área externa, por exemplo.” Ana acredita que o diálogo com os pequenos também será fundamental nesta nova fase:  “Se a gente ouvir de uma criança, por exemplo, que ele não quer fazer uma determinada atividade proposta em um momento, a gente vai precisar dialogar, porque a rotina da casa dele, onde ele estava até agora, é diferente do que é praticado na escola”, explica. 

A Sociedade Brasileira de Pediatria divulgou um documento com uma série de recomendações aos gestores para o planejamento da volta às aulas “Caso uma  determinada localidade atenda esses pré-requisitos, configura-se plausível que o retorno de crianças e adolescentes às salas de aula presenciais seja autorizado, desde que sempre com a observação dos critérios definidos pelas autoridades sanitárias.”, diz um trecho da publicação.

Em uma entrevista ao Papo de Mãe, o médico Roberto Trindade afirmou não ser a favor da volta às aulas enquanto não houver vacina .

O assunto ainda rende debates acalorados entre pais, mães, profissionais da saúde e da educação. Em resumo, é uma questão que envolve toda a sociedade e o debate é diário, principalmente em grupos de Whatsapp.

Com a palavra, as famílias

Mayra Abbondanza, cozinheira – 5 filhos entre 2 e 16 anos

A volta gradual da economia e dos serviços pressionou o poder público para a retomada das aulas. Para Mayra Abbondanza, que trabalha em casa junto com o marido, “A pandemia trouxe reflexões sobre aquilo que é realmente importante”.

Mayra tem 5 filhos, sendo que o caçula está na rede pública. Ela conta que sentiu uma diferença no tratamento entre escola pública e escola particular na volta às aulas: “Na escola privada muitas vezes é preciso tomar mais cuidado com a postura dos pais do que com  a das crianças, precisa sempre mandar e-mail, ficar explicando sobre as medidas sanitárias.  Na escola pública, é esperar reabrir e ver como vai ser”.

Carolina Prestes, publicitária – uma filha de 3 anos

A publicitária Carolina Prestes  recebeu em novembro a notícia de que a escola particular em que matriculou a filha Olívia, de 3 anos, retornaria às aulas. A menina voltou a frequentar a escola no dia 27 do mês passado.  “Eu tinha muito receio, mas ao mesmo tempo percebia que o desenvolvimento da minha filha estava sendo impactado pela falta de escola, foi só ela voltar pra escola que diminuiu  a birra”, conta Carolina.

Antoune Nakkhle, jornalista – uma filha de 16 anos

Os pais também encontraram dificuldades para trabalhar a questão emocional dos filhos durante a pandemia. O assessor de imprensa e comunicação Antoune Nakkhle acredita que a maior dificuldade foi gerir a parte psicológica da filha nesse período: “No meu caso, o que mais me impactou foi o cuidado emocional maior que passei a ter e me atentar junto à minha filha, Gabriela, que tem 16 anos. Quando começou a pandemia ela estava com 15 anos. Procurei, na medida do possível, ficar mais perto da Gabriela e dos estudos dela; afinal, ela e todos os alunos precisaram se adaptar de uma hora para outra ao ensino à distância”, relembra. “Expliquei para ela que todos estavam passando por um processo de adaptação”. 

Nakkhle diz que a escola está seguindo todos os protocolos de segurança e mantendo, por exemplo, o limite de 30% de estudantes na escola. Mas apesar de ser favorável ao retorno das aulas presenciais, todas essas medidas, não deixam o pai totalmente seguro: “Eu não me iludo. Acho que teremos que manter o distanciamento no mínimo até o final do ano”, acredita. Ele também se preocupa com a saúde dos profissionais de educação: “Na verdade para mim, como pai, o que impacta e preocupa é o fato de os educadores e profissionais que trabalham em instituições de educação não fazerem parte dos grupos prioritários para serem vacinados.  Mas todas estas preocupações que tenho como pai, a maioria delas, poderiam ter sido sanadas se não tivéssemos um governo federal ignorante e incompetente”, finaliza Antoune. 

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Adriana Mendes, jornalista – uma filha de 11 anos

Moro em Santos e minha filha Miranda, de 11 está, no 7 ano do ensino público municipal e não vai pra escola.

Santos é a cidade com maior número de óbitos por 100 mil habitantes no Estado de São Paulo. As aulas começam na próxima segunda, de forma híbrida, 1 vez por semana presencial e os demais dias virtuais.

Ano passado foi o primeiro ano da minha filha nessa escola. Foram 20 dias presenciais apenas. Conversamos e ela acha que tudo bem ficar mais um tempo estudando em casa, até que todo o grupo de risco seja vacinado. Sou filha única e minha mãe tem 85 anos. Enquanto ela não for vacinada, sem chance. Mas o que queremos mesmo é que todos os profissionais de educação também sejam vacinados.

Acauã Rodrigues dos Santos, geógrafo e Márcia Aiko Shirakawa, farmacêutica – um filho, 16 anos

O Colégio do meu filho adotou esquema Híbrido.
Dividiu cada Turma em 3, e as turmas A, B e C vão se sucedendo nos dias da semana. Grade de aulas normal.

Nos dias que é Integral (3 por semana) levam marmita e almoçam na sala, pois os restaurantes em volta não oferecem condições adequadas, alerta dado pelo próprio Colégio.

E nós, com 57 e 60 anos ?
Poderíamos optar por escolher ficar só no virtual. Algum esforço, levar algum atestado, conversar sobre problemas de saúde, etc.

Mas vamos topar o risco. Se fosse virtual pra todos, sem exceção, é uma coisa. Mas pra um adolescente de 16 anos, sabendo que parte dos seus amigos e amigas está se encontrando, pensamos ser muito importante para manter o equilíbrio emocional e, caso não deixássemos, talvez gerasse um caos aqui em casa. E confiamos no profissionalismo deste Colégio.

Com todos os riscos, marcadas de bobeira e cuidados que temos tido todo este tempo, agora pode-se falar que em alguma medida nossas vidas estão nas mãos dele.

Cassia Neumann, pedagoga – uma filha de 9 anos

A Beatriz está numa escola nova e foi uma ano muito difícil de terapia e depressão. Ela foi dois dias na semana de adaptação para a escola agora no retorno, mas ela ficou super gripada, com dor de garganta. Deu negativo para Covid-19, mas fiquei com medo. A minha deu negativo, mas quantas deram positivo. Então repensei.

Minha ideia inicial era ela ir pro presencial porque ela precisa, ela não se adaptou ao ensino remoto, mas repensei pelo medo e agora não vou mandar, vou deixar em casa no remoto. Tem muitas mães na mesma situação que eu, que não sabem se mandam ou não mandam. Porque querer mandar, a gente quer, quer que aulas retomem, que vida siga, mas o medo é bem grande. A gente tem que abordar estas questões de segurança com mais seriedade.

Monica Mandaji, jornalista e pedagoga – uma filha de 16 anos

A Luisa estuda no Colégio Itaca, zona oeste de São Paulo,  e está no ensino médio. Ela optou por não ir para a escola no presencial. Ela tem acompanhado os noticiários e ela acha que no momento em que estamos numa segunda onda de covid-19, ela acha complicado se expor, expor professores e expor os avós – já que uma vez a cada 15 dias ela vê os avós. Nós estamos mantendo o isolamento.

A gente também acredita que depois de tanta dificuldade da escola chegou num momento de aprendizado remoto que ela acredita que está dando conta.

Ednilce Lins Rodrigues Duran, assistente social – um filho de 14 anos

Tenho um filho com 14 anos, foi agora para o nono ano.

Eu decidi não mandá-lo para o presencial considerando todo esse cenário que estamos vivendo. No final do ano, acho que em novembro, ele foi em duas atividades presenciais que a escola promoveu, e naquele momento até nasceu um pouco de esperança de voltarmos nesse ano, ainda que com muitas restrições, mas essa possibilidade durou poucos dias.

Quando em vez de continuarmos a melhorar o patamar de controle da pandemia, os casos e as mortes continuaram a aumentar assustadoramente, qualquer ideia nesse sentido foi descartada.

Em que pese o empenho da escola e o cuidado nosso em casa, esse “bolha” pretendida me pareceu ser uma bolha de sabão. Uma tragédia antecipada e, por mais que as perdas no âmbito social sejam bem significativas, eu acho que é possível a gente suprir e regenerar, mas as consequências da doença vão pra um outro nível de caminho sem volta.

Sem contar a proporção que esse contágio vai tomando, é assustador pra mim. Meu filho, embora, sinta falta, também sente medo… não é tranquilo pra ele, mas aceitou sem criar muita resistência. No momento, a maioria da sala dele vai permanecer on-line, isso também ajudou na resignação da parte dele. Penso que o esforço tem que ser de todos, até que a gente tenha a pandemia controlada, só que o nosso comportamento como sociedade e da parte do nosso governo, caminha contra isso.

Fernanda Passos, arquiteta – 2 filhos, 10 e 12 anos

Sou mãe da Luiza, 12 anos e do Felipe 10 anos. Eles estudam no Colégio Marupiara.

Optamos por não mandar as crianças para a escola nesse primeiro momento, onde o índice de contágio está igual ou pior do que no início da pandemia.

Apesar de ninguém ser do grupo de risco aqui em casa, entendemos que até conseguirmos vacinar a população, o isolamento é o recurso mais eficiente que temos para diminuir a circulação do vírus.

Sendo assim, como tivemos o privilégio de poder trabalhar em home office, e as crianças estarem em uma escola que conseguiu proporcionar aula e acolhimento emocional mesmo on-line, ficaremos em casa mais um pouco…até para liberar para famílias que precisam desse retorno, para que os funcionários e professores da escola fiquem mais seguros com menos alunos circulando.

Não foi, nem é uma decisão fácil, conversamos muito por aqui e estamos na expectativa que logo eles possam voltar de forma mais segura para todos.

Professora e Mãe de dois meninos, de 5 e 8 anos, que prefere não se identificar

Trabalho em escola particular que está sendo super legal com a equipe. Pudemos escolher se preferimos continuar no online ou voltar ao presencial pois temos famílias que querem as duas opções.

Como mãe não voltaria agora. Como professora sei o que é o dia a dia de uma escola e como as coisas não são tão controladas. Mas acho triste mesmo ver mães (e digo mães mesmo porque a gente sabe que infelizmente quem se responsabiliza de verdade pelas crianças são as mães no fim) em pé de guerra com professoras e tenho muito receio de como vai funcionar a volta na escola pública que não tem nem condição nem um projeto de melhoria.

Tenho medo pelas crianças e suas famílias. Elas não são os maiores vetores ao que tudo indica e pelo que a gente sabe desta cepa que já foi estudada. Mas o número de estudantes e a logística que a volta as aulas mobiliza me faz pensar que estão centenas de milhares de crianças… Se morrer sei lá 5% disso, é uma tragédia já…

Ao mesmo tempo tenho noção de que tem crianças em situação de extremo risco que estariam melhor na escola, não importa como.

Nota: O Papo de Mãe agradece a todos que colaboraram com esta reportagem, trazendo suas informações, suas experiências e seus sentimentos.

*Raphael Preto Pereira é jornalista e repórter do Papo de Mãe

(colaborou Mariana Kotscho)


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