Papo de Mãe
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» Educar e cuidar

O cuidar na educação infantil

A importância dos afetos, do acolhimento, do cuidar na educação das crianças e durante a vida toda. Atenção ainda mais necessária na pandemia

Ana Paula Yazbek* Publicado em 19/05/2021, às 10h01

Cuidar faz parte do ato de educar
Cuidar faz parte do ato de educar
Ana Paula Yazbek, pedagoga

“Cuidar das coisas implica ter intimidade, senti-las dentro, acolhê-las, respeitá-las, dar-lhes sossego e repouso. Cuidar é entrar em sintonia com as coisas.” (Leonardo Boff, artigo "O cuidado essencial: princípio de um novo ethos")

Cuidar é parte integrante do ato de educar, uma educação sem atenção aos cuidados não pode ser considerada educação.

Cuidar está relacionado aos afetos, ao importar-se por algo ou alguém, portanto ao querer bem! É um valor, um compromisso ético que deve ser assumido com muita disponibilidade e responsabilidade por todas as pessoas, em especial educadores e profissionais de saúde.

Numa escola de educação infantil, o cuidado se traduz no tom de voz, no olhar, nos gestos e postura corporal de toda equipe, em especial dos educadores e das educadoras. Se traduz no ambiente, na organização dos espaços e seleção dos materiais, na possibilidade de participação das crianças nas tomadas de decisões, na valorização de suas ideias e no incentivo a sua autonomia. No acolhimento aos momentos de tristeza, na mediação dos conflitos durante as disputas, na atenção ao bem-estar físico e emocional.

Os cuidados se apresentam nos detalhes e trazem muita diferença ao dia a dia. Estão num cantinho organizado com brinquedos especialmente selecionados para que as crianças possam continuar a brincadeira do dia anterior; no lanche preparado com capricho pelas cozinheiras e nos pratos servidos com cuidado estético para garantir uma apresentação apetitosa dos alimentos; nos convites gentis para a realização de diferentes propostas e no respeito às diferentes formas de participação de cada uma das crianças, entre tantas outras situações.

Cuidar é prazeroso para quem recebe e para quem cuida, pois traz uma atmosfera de respeito mútuo e de busca partilhada de conforto.

No dia a dia da escola que eu sou diretora, a todo momento acontece alguma situação que merece destaque.

No início deste ano, recebi um vídeo que a mãe de uma criança de quase três anos tinha encaminhado à educadora da filha. A criança estava conversando com a mãe em casa sobre como tinha sido seu dia conosco e falou que ela tinha se machucado, ao final de seu relato ela concluiu “Sabia que a minha ‘pofessora’ cuida tudo!”.

Em outra ocasião, outra criança de dois anos estava brincando numa de nossas salas e, quando sua educadora se aproximou para chamá-la, ela teve um sobressalto. A educadora preocupada, logo se desculpou dizendo-lhe “Puxa! Eu te assustei, me desculpe!”, a criança, graciosamente sorriu e disse “Imagina! Eu não me assustei! Eu tô na minha escola, você se esqueceu?”. Demonstrando sua segurança em estar conosco!

Todos os dias, recebo visitas de crianças em meu escritório. Algumas passam para dar oi e mostrar alguma coisa especial que encontraram pelo parque. Outras me procuram para pedir para mandar um recado para o pai ou para mãe porque sabem que “faço contato com o mundo exterior” via Whatsapp, então me pedem “você ‘liga minha mãe’ e fala que eu gosto muito dela?” ou “fala pro meu pai que eu tô andando de bicicleta!”. Sempre aproveito estes momentos para prolongar as conversas e descobrir mais sobre seus interesses e preferências. Recebo também crianças que mostram seus ralados no joelho e peles levantadas no canto dos dedos como se fossem pequenos trunfos e ficam muito felizes quando eu coloco um curativo. Recentemente, uma dessas crianças falou “Nossa Ana, ‘obigado’! Você cuida muito bem, você é muito boa!”. Certamente a criança que falou isso não sabe o bem-estar que ela me causou, passei o dia com um sorriso escondido atrás da máscara, feliz por ganhar o “certificado de qualidade” validado por ela.

Estamos vivendo um momento em que estamos precisando muito cuidar uns dos outros. Se não tivermos atenção, o medo de nos relacionarmos com outras pessoas e a fragilidade das relações acabam embrutecendo as relações, nos tornando distantes e indiferentes aos outros e isto é muito prejudicial a todos nós, concorda?

*Ana Paula Yazbek é pedagoga formada pela Faculdade de Educação da USP, com especialização em Educação de Crianças de zero a três anos pelo Instituto Singularidades; iniciou mestrado na FEUSP em 2018 e está pesquisando sobre o papel da educadora de bebês e crianças bem pequenas.

É sócia-diretora do espaço ekoa, escola que atende crianças de toda Educação Infantil (dos 0 aos 5 anos e onze meses). Além de acompanhar o trabalho das educadoras, atua em cursos de formação de professores desde 1995 e desde 2002 está voltada exclusivamente aos estudos desta faixa etária.