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Vida na ponta do pé: Bailarina Eliana Favarelli não desistiu da carreira após perder uma das filhas gêmeas

Especial Dia das Mães: dançarina premiada relembra luto materno e superação em meio a sua paixão pela arte, que acabou inspirando a filha. Leia mais!

Ana Beatriz Gonçalves* Publicado em 08/05/2021, às 00h00 - Atualizado às 18h49

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O show tem que continuar, e continuou. A dançarina profissional Eliana Favarelli, de 58 anos, vai passar pelo seu décimo Dia das Mães sem Rafaela. Até hoje, ela não esquece do choque em receber a notícia da morte da filha, que por conta de uma má formação cerebral, não sobreviveu a uma pneumonia aos seis anos. Ela era gêmea de Marina, hoje com 17.

“A Rafaela pegou todo mundo de surpresa. Naquela época foi tudo intenso. A gente se assustou porque não teve salvação. Ela morreu no domingo e na terça eu já tinha aula [de dança]. Meu marido me incentivou a ir, ele dizia que se eu ficasse em casa seria pior”, conta a bailarina, que resolveu seguir o conselho do companheiro. Eliana não se esquece da reação das colegas de dança ao chegar no local: “Isso que é coragem”, diziam para ela. 

As lágrimas de dor não aguentaram até o fim da aula. Eliana chorou até não poder mais, e recebeu carinho e acolhimento. No dia seguinte, segundo ela, amanheceu melhor. “Foi um baque para a família toda, mas a dança ajudou a passar um pouco a tristeza. Ali eu me distraía, tinha amizades e solidariedade”, relata a profissional de dança há pelo menos 44 anos.

Dedicada em sua arte desde os 18 anos, em 2000 ela se casou e não demorou para a família crescer. Após 4 anos ela já estava grávida em dose dupla. No entanto, no quinto mês de gestação, Eliana e o companheiro foram surpreendidos ao descobrirem que uma das bebês tinha má formação cerebral. “Caiu o mundo pra gente. Nós não sabíamos se ela ia sobreviver ao parto ou até mesmo depois dele. Ficamos chateados, mas fomos estudar todas as possibilidades”. Orientada por uma médica para não se precipitar pensando no pior, o sentimento de incerteza era inevitável para Eliana. Com isso, ela parou de dançar. “Eu parei tudo, tive uma gravidez de repouso. Meu corpo não suportava muito o peso das duas crianças”, conta. A dança, que até então era sua vida, precisou ficar em segundo plano antes mesmo do nascimento de Rafaela e Marina. E o que aconteceu depois não foi diferente.

“Eu era uma pessoa muito ativa, foi bem difícil esse período. Tive que parar tudo nessa época. Psicologicamente foi horrível, você não quer que as coisas deem errado. Mudou toda a realidade, a gente estava esperando se a criança ia sobreviver ou não.”

dia das mães

Eliana começou a dançar aos 13 anos, desde então, não parou mais. (Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação)

Os problemas de saúde da Rafaela começaram a aparecer por volta dos oito meses. Convulsões, medicações e internações em hospitais começaram a ser frequentes na vida de Eliana Favarelli. O medo era constante. “Chegamos a passar 90 dias com ela no hospital, o pulmão não se desenvolvida. Até os 2 e 3 anos era muita luta pela vida. Depois disso ela começou a se desenvolver. Começamos a investir em muitos tratamentos”, lembra a dançarina.

Eliana voltou parcialmente para a sua rotina de dança no período em que Rafaela estava estável. Nessa época, ela conseguiu retomar suas atividades e em 2007 chegou a criar um grupo de dança em Americana, interior de São Paulo, sua cidade natal. Na época, Eliana engravidou de Leonardo, seu terceiro filho.

Tudo parecia ir bem quando veio o baque: Rafaela pegou uma pneumonia fortíssima e em apenas dez dias morreu. Para resistir ao luto, a dança foi sua salvação. “No começo a tristeza era muto grande, quando eu me ocupava com atividade física eram os melhores momentos. A dança fazia eu sair dessa sensação de incapacidade, de tristeza.”

personagem com os três filhos

Eliana com os filhos; Marina (esquerda), Rafaela (centro) e Leonardo (direita) (Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação)

eliana com as filhas gêmeas

Eliana com as gêmeas Marina (esquerda) e Rafaela (direita). Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação)

A ressignificação da vida

Em 2011, após um ano da morte de Rafaela, a dançarina se envolveu intensamente com a dança. Viagens, concursos internacionais e premiações passaram a fazer parte da sua rotina. Nesta mesma época, em parceria com o bailarino Reginaldo Sama, Eliana Favarelli se dedicou a um grupo formado por bailarinos que se afastaram dos palcos. Além de ressignificar sua própria vida, ela decidiu fazer o mesmo com a dos outros.

Eliana precisou conviver com a saudade e também com o presente. No primeiro momento, ela conta que foi extremamente difícil. “Foram anos de luta. Vendi meu carro porque não aguentava entrar nele, me lembrava demais ela. O mais triste de tudo é quando escutava alguém com o nome Rafaela. Até hoje ouvir esse nome é um baque pra mim”, afirma.

Na visão de Eliana, que precisou se manter firme e forte para cuidar de Marina e Leonardo após a partida de Rafaela, o show continuar não significa esquecer a filha que se foi. “A gente nunca tirou a imagem dela, mas também nunca deixamos que os nossos filhos deixassem de seguir em frente.  A lembrança é pra sempre.”

“Independentemente disso, a gente não pode esquecer de nós. Se você não está bem, como vai cuidar do filho que precisa de você? De alguma maneira é preciso encontrar um tempo para cuidar da parte física e emocional”, diz Eliana Favarelli sobre o luto materno.

Eliana e Rafaela (Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação)

“Uma vez me perguntaram porque eu comprava sapato para Rafaela se ela não andava. Eu respondi pra pessoa: ‘Ela não anda, mas ela tem pé. Você não usa sapato no seu pé? Então a minha filha também vai usar sapato”. (Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação)

A repercussão em Marina

A gêmea de Rafaela, Marina, herdou o amor da mãe pela dança ainda cedo, quando a irmã estava viva. Segundo Eliana, a pequena pediu para fazer aulas de dança ainda com três anos. Na época, Marina era pequena para entender o luto e a perda da irmã. “Quando a Rafa morreu, explicamos tudo direitinho. No começo ela sentiu a tristeza junto com a gente”, relembra Eliana.

Por ser muito pequena, a dança não foi uma válvula de escape para Marina. No entanto, Eliana se arrepende até hoje de não ter levado a filha no enterro da irmã. “Eu e meu marido cometemos esse erro, mas não sabíamos o que fazer. Perguntamos para um médico se deveríamos levar a Marina ou poupá-la. Acho que essa falta do adeus repercutiu na vida dela”.

A bailarina profissional conta que a terapia tem ajudado a filha a processar a morte da sua gêmea. A dança certamente faz com que ela se sinta mais próxima da mãe, e de certa forma, com as raízes da trajetória de sua família. “Ela tem certo arrependimentos por não ter passado muito tempo com a Rafaela, mas ela está curando essa falta”.

Marina e Eliana em ensaio artístico. Hoje, mãe e filha são parceiras e compartilham a paixão pela dança (Foto: Nanah D’Luise)

Registro atual da família de Eliana. (Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação)

*Ana Beatriz Gonçalves é jornalista e repórter do Papo de Mãe

Reportagem em memória de Rafaela Favarelli Chiti

Assista ao vídeo de Eliana com Marina em especial do Dia das Mães:

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