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Deixem nossas crianças fora disso

O ator e escritor Vinicius Campos critica a repressão e a força militar na educação, e fala da necessidade do acolhimento e da liberdade para as nossas crianças

Vinicius Campos* Publicado em 03/09/2021, às 14h07

O helicóptero fez um voo baixo sobre o colégio após professora ser suspensa por criticar Bolsonaro - Foto: reprodução
O helicóptero fez um voo baixo sobre o colégio após professora ser suspensa por criticar Bolsonaro - Foto: reprodução

Depois de afastar uma professora por fazer um discurso contra o governo Bolsonaro, a escola Notre Dame de Lourdes, de Cuiabá, pediu à Secretaria de Segurança do Estado que um helicóptero do exército sobrevoasse o pátio do colégio com a bandeira do Brasil. Eles alegam que o "evento" fazia parte das comemorações de 07 de setembro.

Patriotismo ou repressão?

Não entendo como alguns educadores ainda acreditam que a repressão possa ser parte do processo de crescimento e desenvolvimento das crianças. Inclusive no Brasil, país com polícia militarizada, Estado que usa a violência contra seus cidadãos, inclusive aqui, todo professor deveria entender que educação só se faz com acolhimento e liberdade.

Ontem, numa rede social, vi que uma colega de infância defendia que se aplicasse educação militarizada em todo o país. Fiquei surpreso. Minha colega, filha de um pai extremamente rigoroso e repressor, vivia escapando para tentar viver suas experiências adolescentes. Bem nova acabou engravidando. Teria sido diferente a história se os pais a tivessem acolhido? Se alguém tivesse acompanhado suas descobertas sexuais, talvez ela teria recebido a informação correta para que a maternidade chegasse num momento mais tranquilo?

Repressão e força militar não servem pra criança, pra adolescente e nem para adulto. O Brasil deveria sentir vergonha por precisar de militares. Nosso país só faz uso dessa força porque fracassou totalmente na educação e na construção de uma sociedade justa. Mandamos homens armados para as ruas para esconder a vergonha de uma sociedade que discrimina e não dá oportunidades para que seu povo se desenvolva como qualquer ser humano merece. É covardia matar aqueles que não aceitam esse sistema tão perverso no lugar de resolver nossos problemas.

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O governo, que tem como líder um militar com uma história de péssimos serviços, tenta militarizar nossa educação porque pretende criar exército pronto para atuar a partir da ordem de qualquer canalha, de qualquer lunático. E me preocupa muito que nem mesmo professores, profissionais que entendem o propósito da educação, sejam capazes de contextualizar o que está acontecendo em nosso país. Óbvio que não todos, porque a maioria luta diariamente para consertar na sala de aula as burradas daqueles de colarinho branco.

O canalha do presidente, um ser que não foi bem educado, nem acolhido, trama contra o futuro das nossas crianças, e já é hora que as instituições brasileiras coloquem limites. E ele tem cúmplices, muitos. Comunicadores, jornalistas, políticos, pastores, religiosos, donos de canais de televisão. Canalhas como ele que rifam o futuro de nossos pequenos em troca de uns trocados a mais no bolso. E não adianta fazer evento para arrecadar fundos para instituições, não adianta Criança Esperança, nem Teleton, se não atuamos na raiz do problema.  

Não podemos aceitar que nossas crianças sejam alvo dos delírios de um desgoverno, e quem se cala é parte do problema. Quem não denuncia é cúmplice. Quem finge não ver é tão criminoso quanto.

*Vinicius Campos, escritor e pai de 3 adolescentes – Colunista do Papo de Mãe.
instagram: @viniciuscamposoficial

Assista ao Papo de Mãe sobre a escola na vida das crianças

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Papo de Mãe. 

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