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Abuso não é carinho: jogo alerta para violência sexual contra crianças e adolescentes

Ruth Lima, da ONG Visão Mundial, conta sobre o lançamento do jogo "Não me toca, seu boboca!", para combater o abuso sexual contra crianças e jovens

Maria Cunha* Publicado em 28/07/2021, às 16h44

O jogo tem o objetivo de ensinar crianças e adolescentes a diferenciarem carinho de assédio - Arquivo Visão Mundial
O jogo tem o objetivo de ensinar crianças e adolescentes a diferenciarem carinho de assédio - Arquivo Visão Mundial

Hoje, dia 28 de julho, foi lançado o jogo 'Não me toca, seu boboca!', uma adaptação do livro, de mesmo nome, da escritora Andrea Taubman. O jogo tem o objetivo de ensinar crianças e adolescentes a diferenciarem carinho de assédio, fazendo isso de forma lúdica e com uma linguagem adequada.

Ruth Lima, gerente de programas técnicos da ONG Visão Mundial, comenta o lançamento e dá detalhes sobre o desenvolvimento do jogo, como ele funciona e a importância dele no combate ao abuso e à violência sexual contra crianças e adolescentes.

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De acordou com Ruth Lima, o jogo surgiu de uma necessidade organizacional diante da pandemia, já que fomos obrigados a ficar confinados, o que também incluiu as crianças com as quais a ONG trabalha nos programas de área.

“Então, se pensou o que a gente poderia fazer, que iniciativa a gente poderia desenvolver para que em um contexto como esse, de confinamento, em que a gente não pode abordar as crianças, nem trabalhar com elas de maneira presencial, a gente pudesse promover algo que, aonde elas estivessem, elas poderiam participar”, conta a gerente de programas técnicos da Visão Mundial.

Assim, surgiu ideia de junto com a autora do livro, produzir o jogo baseado no tema do abuso e a exploração de crianças, e que utiliza os personagens do livro para contar ou abordar o assunto através do jogo.

“A gente fez uma parceria com um designer, o Daniel Martins, que também é ludólogo e aí junto com a Andrea Taubman, que é a autora do livro, eles pensaram nas estratégias que poderiam fazer para que esse jogo ficasse atrativo também para as crianças. Então, surge ‘Não me toca, seu boboca!’, o jogo de autoproteção, como a gente tem chamado internamente na organização”.

Como funciona o jogo?

Ruth conta que consiste, realmente, em um jogo de tabuleiro composto de peças em que as crianças ou mesmo adultos, houve teste com os dois públicos, montam um tabuleiro numa superfície plana, dispõem as peças do jogo de uma maneira em que ele se organize como tabuleiro e jogam entre um e até seis participantes.

A duração de cada jogada é em média de 25 minutos. A faixa etária indicada é para crianças com mais de 5 anos, podendo participar de 1 a 6 jogadores e ser moderado e guiado, ou não, por uma pessoa adulta, que lê as instruções e ajuda nas dinâmicas.

A lógica do jogo é que cada participante que está jogando, consiga resgatar, à medida que eles vão rolando o dado, as cinco personagens do livro, das garras do que Ruth chama de vilão, o Tio Pipoca, que é o possível abusador.

“Então, os participantes vão rolando o dado e à medida que cai, porque é um dado é personalizado, ou a carinha do Tio Pipoca ou a face da Ritoca, que é a menina mais esperta da história, você vai avançando casas nesse tabuleiro e vai resgatando os personagens”, explica Ruth Lima.

Jogo 'Não me toca, seu boboca!'
Jogo 'Não me toca, seu boboca!'

O objetivo do jogo é, além do resgate, chegar à casa inicial e todos juntos gritarem ‘Não me toca, seu boboca!’, para afirmar à turma toda que está participando que eles venceram o jogo e não houve abuso. Se houve, porque Ruth Lima explica que a temática do jogo permite isso, o grito significa que eles conseguiram resgatar a personagem da situação de abuso, a criança que foi abusada. Tudo isso acontece numa linguagem acessível às crianças.

“As crianças jogam sem ter dificuldades, porque ele é lúdico, trabalha com uma linguagem muito acessível a essas crianças nessa faixa etária, de cinco até mais ou menos uns 12 anos, vai depender do grau de maturidade de cada criança, e aí elas também interpretam algumas coisas pelas figuras e pela ilustração que o jogo traz, tudo na mesma temática do livro”.

Como ter acesso ao jogo?

Ruth Lima conta que, aprincípio, a Visão Mundial está fazendo uma tiragem para doar ao público que atende nos seus programas diários.

“A gente trabalha com público focado em crianças e outras organizações que atendem as crianças. Então, essa tiragem, inicialmente, ela vai situada a crianças que tenham outros irmãos e possam jogar junto com eles ou entre a vizinhança, porque como são comunidades muito vulneráveis, a tendência é que eles brinquem juntos”.

A gerente de programas técnicos da Visão Mundial lembra que os jogos também serão distribuídos para as escolas parceiras da ONG, aonde programas semelhantes estão localizados.

“Por serem parceiras, elas trabalham em cooperação conosco atendendo essas crianças. O nível de nossa parceria é: os nossos educadores vão até lá e promovem as atividades, então o jogo, uma vez doado pras escolas, atinge muito mais crianças, as que gente atende e as que moram naturalmente na localidade em que um desses programa se localiza”.

Qual a importância do jogo?

“Na minha concepção, ele é importantíssimo”, afirma Ruth Lima. A gerente de programas técnicos da Visão Mundial justifica seu posicionamento ao dizer que quando a gente fala de violência sexual, na temática do adulto é uma coisa, já na da a criança é outra.

“A criança, por si só, na sua natureza, já é mais vulnerável e depende do adulto para poder entender algumas coisas. Quando a gente trata desse tema, a maioria dos conteúdos que a gente encontra, seja um livro, jogos, materiais mesmo da faixa etária das criança, infantojuvenil, eles não têm um linguajar que facilite as crianças nas interações do dia dia a entenderem esse tema. Mas, além de entender é importante saber se autoproteger para proteger a elas e as outras coleguinhas, o seus pares”.

Outra questão lembrada por Ruth que o jogo aborda são dilemas, pois o jogo faz perguntas que vão levando a criança a internalizar um conhecimento de quem pode ser abusador ou não, como ela pode se proteger de uma possibilidade de abuso ou não.

“Então, a criança vai criando esse conhecimento, vai praticando a partir da medida em que ela joga e, quando ela se deparar com uma situação dessa real, ela vai saber como se proteger, como pedir ajuda, a quem confiar, a importância do jogo se deve muito a isso”.

Assim, Ruth Lima afirma que disponibilizar o jogo às crianças e adolescentes é colocar para eles um equipamento em que a criança brinque e aprenda, ao mesmo tempo, um conteúdo que nem sempre os adultos conseguem explicar para ela com a naturalidade que ela precisa.

Os futuros possíveis impactos

Ruth afirma que, em sua opinião, a partir do dia de hoje, em que ocorreu o lançamento, o jogo será muito bem aceito entre o público que a Visão Mundial atende.

Hoje, a gerente de programas técnicos da Visão Mundial conta que os dados do Disque 100, por exemplo, afirmam que entre abril e maio foram mais de 25.000 denúncias de abuso e violência sexual contra crianças e adolescentes e com as crianças estando confinadas, o risco de isso aumentar é maior.

“Então, quando uma organização como a Visão Mundial coloca em prática iniciativas como essa, ela incentiva outras organizações a fazerem o mesmo e a trazer à tona o tema do abuso e da exploração sexual de crianças, a violação de direitos e a violência sexual, que ocorre inclusive dentro da família e nos ambientes que ela convive”.

Ruth conclui seu discurso ao reforçar a importância e os impactos do jogo na vida das crianças e adolescentes, e que, como sociedade, podemos buscar outras iniciativas como essa para abordar o tema e capacitar as crianças a se autoprotegerem.

*Maria Cunha é repórter do Papo de Mãe 

Assista à entrevista completa com Ruth Lima

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