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Observar para ver

Qual a diferença entre observar e ver para notar as necessidades da criança na infância? A colunista Ana Paula Yazbek responde

Ana Paula Yazbek* Publicado em 25/04/2022, às 09h13

É importante observar a criança - Foto: banco de imagens
É importante observar a criança - Foto: banco de imagens

Ao observar as crianças em suas ações, tenho conseguido colocar em prática a espera antes da intervenção. Aguardo alguns segundos antes de agir e tenho a sorte de testemunhar maneiras inusitadas de enfrentarem problemas, formas criativas de lidarem com dificuldades do cotidiano e trocas extremamente ricas que se estabelecem entre as crianças.

Por conta da leitura de um texto que trazia uma excelente reflexão sobre o papel da observação, propus à minha equipe de professores e professoras que fizessem registros, por escrito e por imagens, de alguma cena que lhes parecesse interessante partilhar.

Foi um excelente exercício sobre aprender a ver a infância. A partir de cenas completamente triviais e “sem importância”, vislumbramos conquistas extremamente significativas para cada uma das crianças observadas. Visualizamos ainda, o quanto a não intervenção do adulto, foi propulsora de momentos de bem-estar, aprendizagens e continuidades para as crianças.

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Uma educadora de uma turma de crianças de três e quatro anos, partilhou um belo relato de um menino que despois de correr, se sentou no centro do tanque de areia e permaneceu um tempo parado, olhando o que acontecia ao seu redor e sentindo a textura da areia. A cena descrevia um momento de pausa desta criança. Como se naquele momento, ele não precisasse de mais nada, além de parar por alguns instantes.

Enquanto eu ouvia o relato da educadora, fiquei pensando no quanto as escolas precisam permitir estes momentos de respiro e solitude para as crianças. As escolas são ambientes coletivos e suas rotinas costumam se estruturar de forma que todas as crianças façam sempre as mesmas coisas ao mesmo tempo. Isso tem sua razão de ser, mas não pode ser entendido como uma regra inabalável, até porque as crianças sempre vão subvertê-la. Penso que devemos garantir a possibilidade de encontro da criança consigo, pois ela é estruturante e favorece a sensação de inteireza e bem-estar.

Outras educadoras da turma dos bebês, por coincidência, escolheram cenas de uma mesma criança para compartilhar. A partir de vídeos bem curtos e de sequências de fotos, vimos um menino, fazendo conquistas motoras significativas que se estendeu desde seu início conosco, com um ano e três meses, até agora, com um ano de cinco meses. Numa sequência de imagens, vimos o exato momento que conseguiu se deslocar em segurança sobre um plano inclinado, quando, depois de alguns dias nos quais solicitava ajuda intensiva das educadoras, subiu numa pequena rampa e escorregou de bumbum, inúmeras vezes.

Num outro dia, tomou coragem e fez o percurso em pé, numa busca lúdica e segura pelo equilíbrio. Noutra cena, esta mesma criança conseguiu descer sozinha, três degraus, organizando seus movimentos de forma extremamente meticulosa. Ao longo de alguns minutos, ele se deslocou de pé até a beirada do degrau, agachou, experimentou a distância entre um degrau e outro colocando um dos pés na beirada, depois se levantou, pegou um bambolê que estava por perto e de pé, testou a distância entre um degrau e outro com o apoio do bambolê. Depois, se colocou sentado, virou o corpo, desceu o primeiro degrau e assim, entre diferentes planos, foi descendo os outros dois. Durante o percurso, procurou o olhar do adulto, como forma de se certificar se estava mesmo em segurança.

Mais uma educadora de turma de crianças de três e quatro anos, estava há algum tempo intrigada com a resistência que um menino apresentava todas as vezes que era chamado para uma roda de história. Até então, ela sempre insistia em sua participação e toda vez que ele se distanciava do grupo, ela o conduzia para junto da turma. Neste dia, ele pareceu mais resistente e ela, ao invés de chamá-lo, ficou observando o que ele estava fazendo. Com rapidez, ele recolhia galhos, folhinhas e ramos de um pinheiro, levando-os para dentro de uma casinha, quando terminou, ele a chamou e mostrou que tinha feito uma fogueira.

Poderia continuar descrevendo as demais cenas levadas pelo restante da equipe, afinal, eram todas triviais e fabulosas.

Triviais porque poderiam ter passado desapercebidas, pois acontecem inúmeras vezes ao longo de um mesmo dia e parecem não ter relevância. Fabulosas porque, quando nos debruçamos sobre elas, vemos instantes que fazem grande diferença, vemos o pensamento em processo, vemos corpos pensando sobre como enfrentar os desafios de manterem-se equilibrados, vemos o pensamento simbólico se estruturando, vemos crianças desbravando e buscando entender o que ocorre ao seu redor e nos mostrando formas de compreender os fenômenos do mundo.

Faço-lhes o convite para desfrutarem de algum destes momentos aleatórios e, a partir deles, fazerem descobertas sobre o que move o interesse de seu filho ou de sua filha.

*Ana Paula Yazbek é pedagoga, formada pela Faculdade de Educação da USP, com especialização em Educação de Crianças de zero a três anos pelo Instituto Singularidades, com mestrado em Educação pela Faculdade de Educação da USP. É Diretora Pedagógica do espaço ekoa, casada com Marcos Mourão com quem tem dois filhos, Marina e Pedro.

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