Papo de Mãe
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Os meninos e o HPV. O câncer de boca é também uma preocupação

Roberta Manreza Publicado em 15/11/2016, às 00h00 - Atualizado em 22/11/2016, às 22h19

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15 de novembro de 2016


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Por Luiz Paulo Kowalski*, cirurgião oncologista

O Ministério da Saúde anunciou que a partir de janeiro de 2017 o calendário nacional de vacinação incluirá a proteção de meninos de 12 e 13 anos contra o papilomavírus (HPV). A faixa etária contemplada será gradativamente aumentada até 2020, quando abrangerá os garotos entre nove e 13 anos. 

Um estudo publicado pelo A.C.Camargo Cancer Center mostra que um em cada três tumores de boca em adultos jovens tem associação direta com o HPV, chegando a 80% nos casos de câncer de amígdala. A imunização dos meninos ajudará também na proteção contra câncer de pênis e ânus. Para as meninas, cuja principal incidência associada ao vírus é  o câncer de colo do útero na idade adulta, a vacina está disponível na saúde pública desde 2014 para a faixa etária entre nove e 13 anos.

Durante a sua participação em fevereiro deste ano na Jornada de Patologia do A.C.Camargo, congresso internacional para disseminar as inovações relacionadas ao temas, em São Paulo, o virologista alemão, Harald zur Hausen, Nobel de Medicina por ter descoberto a relação entre o HPV e o câncer de colo de útero, afirmou que ampliar para os meninos a imunização contra o vírus seria de fundamental importância não apenas porque a imunização pode protegê-los, mas também porque incluí-los é uma estratégia para quebrar a cadeia de transmissão. O HPV é transmitido sexualmente. Segundo ele, meninos imunizados não passariam o vírus a parceiras ou parceiros que não tivessem sido alcançados pelas campanhas em vigor.

Os números evidenciam a importância da vacinação junto aos meninos. Um estudo publicado pelo A.C.Camargo na revista científica International Journal of Cancer – www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21618514 – aponta que 32% dos tumores de boca em adultos jovens têm associação com o HPV. O grupo identificou também que há 10 anos o HPV respondia por 25% dos casos de câncer de amígdala, um dos mais frequentes nessa região, e hoje o vírus está associado a 80% desses tumores.

Além de identificar a forte ligação de HPVs oncogênicos com tumores na região, o estudo identificou uma mudança no perfil dos pacientes. De acordo com o cirurgião oncologista e diretor do Departamento de Cirurgia de Cabeça e Pescoço e Otorrinolaringologia do A.C.Camargo Cancer Center, Luiz Paulo Kowalski, historicamente esses tumores afetavam essencialmente homens mais velhos, tabagistas e/ou alcoólatras. Por sua vez, hoje esses tumores também atingem os mais jovens (entre 30 e 45 anos), que não fumam e nem bebem em excesso. Entre eles, alguns praticam sexo oral desprotegido. Somado a isso, explica Kowalski, está o fato de que a incidência esteja aumentando também porque a tecnologia que permite o diagnóstico melhorou em razão do desenvolvimento de exames de biologia molecular capazes de detectar o HPV.

De acordo com o especialista, é fundamental orientar pais e responsáveis quanto à importância da vacinação contra o vírus HPV tanto para meninas quanto  para os meninos, assim como reforçar a comunicação a eles das evidências científicas de sua segurança e eficácia. “São estratégias que podem contribuir para melhorar a adesão dos jovens que estão na faixa etária coberta pela campanha. Tanto para eles, quanto para os demais, é fundamental também falarmos sobre o papel do sexo seguro como medida de prevenção”, acrescenta.

Por sua vez, Kowalski ressalta também que ter sido contaminado com o vírus está longe de ser uma certeza de que o câncer se desenvolverá. “Queremos deixar claro que o HPV é um vírus muito presente na pele ou em mucosas e afeta homens e mulheres. Muitas pessoas já se infectaram, mas não tiveram verrugas nem câncer. Há mais de duzentos subtipos de HPV, sendo que apenas 30 a 40 deles podem causar doenças como verrugas genitais e tumores no pênis, ânus, vulva, boca, garganta e, o mais comum, no colo do útero”, explica

O especialista acrescenta que os tumores de garganta relacionados ao HPV têm melhor prognóstico em relação àqueles provocados pelo fumo. Eles respondem de forma mais efetiva à quimioterapia e à radioterapia e, muitas vezes, não há necessidade de cirurgia. “Vamos também reforçar que o cigarro segue sendo um fator de risco importante e, quando associado ao consumo de álcool o risco se potencializa e ambos causam tumores que costumam responder pior ao tratamento”, esclarece.

 A vacina não protege pessoas já infectadas pelo vírus. Por isso, o momento ideal de recebê-la é antes do início da vida sexual.

*Cirurgião oncologista, diretor do Departamento de Cirurgia de Cabeça e Pescoço e Otorrinolaringologia e orientador do programa de pós-graduação do A.C.Camargo Cancer Center, Luiz Paulo Kowalski é graduado em Medicina pela Universidade Federal do Paraná, mestre em Medicina (Otorrinolaringologia) pela Universidade Federal de São Paulo, doutor em Medicina (Otorrinolaringologia) pela Universidade Federal de São Paulo e Professor Livre Docente em Oncologia pela Faculdade de Medicina da USP. É membro do Corpo Editorial dos periódicos Surgical Oncology (Oxford), Head & Neck, Acta Otorhinoloryngologica Italica, Oral Oncology, Revista Brasileira de Cirurgia da Cabeça e Pescoço, Clinics (São Paulo), Revista Brasileira de Cancerologia e Revista da AMB. Atualmente é Presidente da International Academy of Oral Oncology.




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