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“Foi uma correria”, diz mãe de menina de 11 anos que ficou 5 dias internada com Covid-19

A  farmacêutica Lígia Rizo conta a angústia que viveu à espera de uma vaga nos hospitais para a filha de 11 anos, que ficou com um dos pulmões comprometido em decorrência da infecção pela Covid

Maria Cunha* Publicado em 13/05/2021, às 00h00 - Atualizado às 15h26

Beatriz e Lígia
Beatriz e Lígia - (Foto: Arquivo Pessoal / Reprodução Papo de Mãe)

Tudo começou numa quarta-feira, no final de fevereiro, quando a mãe de Beatriz, de 11 anos, Lígia Maria Rizo, teve sintomas de Covid-19. Na sexta-feira, ela colheu o exame e a filha, que estava passando a semana com a avó, teve febre. No sábado, veio o resultado positivo da mãe. No domingo, a filha teve mais uma febre e foi levada para colher o exame. Ela passou em consulta com pediatra, estava saturando bem e, com o raio-x limpo, foi liberada pra casa. Na segunda-feira, o exame de Beatriz saiu positivo, mas ela estava bem e como a maioria dos casos de coronavírus em crianças é assintomático ou não agrava, ela ficou em observação em casa.

Mas na terça-feira,  veio o inesperado: em torno das cinco e meia da manhã, Beatriz teve uma febre muito alta e aquilo preocupou a mãe, que é farmacêutica. De volta ao hospital, a pediatra falou: “Olha, mãe, já que você veio até aqui, vamos tirar outro raio-x”. O resultado: o pulmão esquerdo dela estava comprometido. Foi pedida a internação, só que o hospital estava sem vagas, o que aumentou ainda mais o desespero de mãe. “Já estava começando a questão de estar tudo cheio e não ter vaga, o colapso passou na nossa cara. A gente ficou 38 horas no PS, fazendo fisioterapia respiratória, medicação à espera da vaga num outro hospital”, relata a Lígia. 

O pulmão esquerdo de Beatriz foi tomado por uma pneumonia em decorrência da Covid-19

Depois de 38 horas, foi possível uma transferência entre hospitais, mas o processo foi difícil. “Por ela ser uma criança, os hospitais não estavam com crianças com Covid-19, então ninguém queria levar uma criança com a doença para uma ala pediátrica ou pra UTI. Estava todo mundo com medo”, conta a mãe de Beatriz. Outro ponto levantado por Lígia é em relação a como tratar a evolução da doença, a lidar com este desconhecido, ainda mais em crianças:  “É tudo novo, o que fazer com uma criança que piora? Hoje, a área da saúde ainda está conhecendo mais o que dá resposta e o que não dá em um paciente adulto”. 

O caso da menina de 11 anos chocou também os profissionais que cuidaram dela. “O fisioterapeuta falava que era bizarro a maneira como ela fisicamente estava bem e o raio-x, a imagem, não estava boa”, conta Lígia. No total, foi uma internação de 5 dias em que mãe e filha ficaram isoladas no quarto. Esta semana, Beatriz finalmente voltou pra escola presencial. 

Beatriz ficou 5 dias internada

Para Lígia, “o mais importante é todo mundo dar a importância de que criança pega, criança pode ficar ruim. É uma minoria, mas é bom todo mundo se cuidar e continuar  isolado”, ela conclui. A mãe de Beatriz também afirma ser totalmente favorável à vacinação e que, quando a vacina da Covid-19 chegar para as crianças, a menina irá tomar, assim como tomou todas as demais.

Veja aqui o depoimento completo de Lígia Rizo

E as crianças com comorbidades?

Thaissa Alvarenga é criadora da ONG Nosso Olhar e do portal de conteúdo Chico e suas Marias e seu filho mais velho, de 7 anos, Francisco, tem síndrome de Down. Ela explica a importância de colocar no grupo prioritário adultos e crianças com síndrome de Down: “Baseado na ciência, sabemos que essas pessoas têm questões no sistema imunológico, que é mais enfraquecido.” Pessoas com síndrome de Down têm 10 vezes mais risco de morrer por complicações de uma infecção por coronavírus.

“É sempre importante ter a aprovação da Anvisa e sempre saber a segurança da vacina nesse público, mas a gente tem sim que exigir da ciência e do poder público que avance para pessoas abaixo de 18 anos e que chegue no grupo das crianças, todas, e nas crianças com síndrome de Down com as suas questões atreladas”, pontua Thaissa. Por enquanto, apenas os maiores de 18 anos estão incluídos no grupo prioritário.

Thaissa Alvarenga e os filhos

A mãe de Francisco ainda informa sobre uma pesquisa que a Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down fez e fala da campanha #euexijoumadosederespeito que mostra que os adultos com síndrome de Down são são vulneráveis, o que justificou o início da vacinação grupo: “Além disso, baseada na ciência, nós temos a lei brasileira da inclusão, que rege e diz que a pessoa com deficiência tem sim os seus direitos e prioridades. Então, a vacinação desse grupo é super importante como a de todo mundo, mas, olhando especificamente pra questões de saúde e vulnerabilidade, foi um ganho absurdo”, completa Thaissa. 

O desejo da empreendedora social é que até o final do ano todos se vacinem, “que a gente avance para as crianças, com segurança e respeitando a todos.”

Por que a dúvida sobre vacina para menores de 18?

A pediatra e endocrinologista Dra. Andreza Juliani Gilio, em entrevista ao Papo de Mãe, explicou alguns motivos pelos quais as crianças não são prioridade na vacinação contra a Covid-19 e comentou sobre os testes ainda em andamento dos imunizantes para menores de 18 anos.

A pediatra Andreza Gilio

De acordo com a pediatra, “o número de casos de Covid-19 em crianças, proporcionalmente ao ano passado, não mudou muito. “Esse ano nós tivemos um aumento muito grande em todas as faixas etárias da infecção, então, proporcionalmente, tivemos aumento também do número de crianças infectadas, mas as complicações continuam muito raras. O índice de internações de crianças, em números absolutos, foi 1.76, mais ou menos, do número de crianças positivadas, que é um número bem abaixo do que a gente tem na população adulta.”, explica a Dra. Andreza Juliani Gilio. 

Segundo as informações da pediatra e endocrinologista, no ano passado, a taxa de letalidade estava por volta de 0,7% ou 0,8% e, neste ano, já caiu para 0,6%. Além disso, a Dra. Andreza Juliani Gilio revela acreditar nas evidências que todas as publicações que saíram nos últimos meses trouxeram: as crianças não são grupo de risco e têm menos complicações. “É óbvio que não é zero risco, mas se você pegar a pandemia do H1N1 em 2009, morria-se 17 vezes mais, na faixa etária de crianças até 2 anos, do que hoje”, exemplifica a pediatra.  

Em razão disso, a Dra. Andreza Juliani Gilio demonstra a importância de priorizar os grupos com maior risco. “Pra gente atingir uma imunidade populacional, a gente precisa vacinar mais de 90% da população e as crianças representam, mais ou menos, 30% da população mundial. Então, elas vão precisar sim ser vacinadas, mas como a taxa de letalidade nesse grupo é muito baixa, com muito poucas complicações, elas têm que ficar por último”, relata a pediatra e endocrinologista. 

Sobre priorizar as crianças com comorbidades na vacinação, a Dra. Andreza Juliani Gilio é favorável e explica que “dependendo da comorbidade, existe um risco maior de a Covid evoluir com complicações”, pontua a médica. Apesar disso, a Dra. Andreza diz ter esperança de que, quando chegar o momento de as crianças se vacinarem, exista o número suficiente de doses.

É importante dizer que, de acordo com a pediatra, a falta de estudos conclusivos sobre a aplicação em menores impossibilita uma avaliação imediata de possíveis eventos adversos.

A Dra. Andreza Juliani Gilio deixou, ainda, um alerta aos pais. A pediatra e endocrinologista explicou que, apesar de rara, o que mais complica o coronavírus em crianças é uma síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica. A doença ocorre pós Covid, mais ou menos de 10 a 15 dias, e a criança evolui com febre por três dias e pode ter todos os órgãos acometidos. “É uma doença imunológica que precisa ser observada o mais precocemente possível para que pais procurem ajuda, porque nós temos tratamento com imunoglobulina, a gente tem que internar a criança, fazer diagnóstico o mais precoce possível. Então, crianças muito prostradas, com febre há mais de três dias, crianças tossindo muito, cansadas, com um comportamento fora do habitual delas, têm que acender um alerta pros pais”, conclui a médica. 

*Maria Cunha é repórter do Papo de Mãe

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