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É utopia pensar na ética médica na amamentação? Parte 3

O pediatra Moises Chencinski fala sobre como a amamentação e a ética médica são abordadas na faculdade de medicina

Redação Publicado em 21/03/2022, às 09h04

"O melhor momento para ensinar ética médica é pouco antes da qualificação e, melhor ainda, pós-qualificação".
"O melhor momento para ensinar ética médica é pouco antes da qualificação e, melhor ainda, pós-qualificação".

Recapitulando, “mais uma vez”. Nas 2 partes anteriores desse artigo (Parte 1 e Parte 2), abordamos 3 temas que se entrelaçam e se encontram na questão de ética (ou da falta dela): Lobo em pele de cordeiro, Código de Ética Médica e A má medicina como ela é.

Vamos fechar essa linha de raciocínio com esse artigo opinativo publicado no BMJ recentemente e concluir.

E pra terminar, o não programado ensino médico

Acho que quem me conhece e com quem eu já partilhei opiniões, sabe desse meu posicionamento.

Aleitamento materno: Durante 10.000 horas-aula, distribuídas em 6 anos de formação médica, são dedicadas 15 horas para falar sobre nutrição. E o aleitamento materno tem uma parte muito pequena nessa área. Isso quer dizer que, entre os alunos que cursam Medicina, quem não for para a área de Pediatria (cerca de 70% deles) nunca mais vai ouvir falar sobre a importância e relevância de um bebê mamar no seio da sua mãe, desde a sala de parto, exclusivo e em livre-demanda até o 6º mês, complementado, a partir daí, com alimentação saudável e equilibrada até 2 anos ou mais.

Nos 3 anos de residência de Pediatria, o tema aleitamento materno, que deveria ser a base e presente em todos os congressos que abordam crianças, em qualquer especialidade, não deve ter mais do que 30 dias de carga horária. E, mesmo assim, um curso específico sobre aleitamento materno não é exigência como o Curso de Reanimação Pediátrica que tem enfoque na reanimação da criança e adolescente, com estabilização na primeira hora do atendimento. Todas as crianças mamam leite materno. Uma parte bem menor das crianças terá necessidade de reanimação.

Mas a reanimação salva vidas. Verdade.

O aleitamento materno salva muito mais.

O curso de reanimação é importante? Sim.

O curso de aleitamento materno também é.

A proposta não é um OU outro. Que tal UM E OUTRO?

Assista ao Papo de Mãe sobre rede de apoio à amamentação.

E o Curso de Ética Médica? Esse artigo opinativo do BMJ traz uma realidade que é importante ser conhecida por todos. Para o autor, que foi professor da área, “a educação em ética médica precisa de uma grande reformulação. Na minha opinião, há muito ensino de ética médica nos primeiros anos da faculdade de medicina e muito pouco após a qualificação, quando realmente importa.”

Sim, existem aulas de Ética Médica no curso de 6 anos de Medicina. Elas fazem parte da área de Humanidades – Bioética que tem, em média, uma carga horária de 80 horas divididas em 2 semestres. Muito mais do que aleitamento. Mas muito, muito mais.

Mas, seria ótimo se essa aula não fosse dada no 3º e 4º semestres da faculdade (2º ano). Sabe quanto disso, um aluno, após 4 anos, ainda se lembra? 

Sim, mas não me lembro de nada. Nós apenas tivemos que aprender as coisas de cor para o exame. A ética médica só é relevante quando você começa a praticar.”

Quando o aluno chega ao 5º e 6º anos, na sua prática médica de internato, a imensa maioria deles não revê o Código de Ética Médica.

Ironicamente, quanto mais os alunos se aproximavam da qualificação, menos ensino de ética recebiam.”

E para terminar as citações desse “cutucante” texto:

O melhor momento para ensinar ética médica é pouco antes da qualificação e, melhor ainda, pós-qualificação, quando os médicos estão na prática e podem aplicar imediatamente o que aprendem ao seu trabalho clínico. Só então a ética médica, livre das amarras dos exames iminentes, ganha vida como uma disciplina relevante e prática.

No entanto, a maioria do ensino de ética médica deve ocorrer após a qualificação, com casos da vida real para ilustrar a aplicação de princípios ou normas éticas à situação concreta.

Conclusão

Será por isso, que ainda hoje, existe discussão sobre validade e eficácia de vacinas, da importância do aleitamento materno para a saúde materno-infantil, da relevância da educação infantil e do contato das crianças com a natureza para se criarem cidadãos, responsáveis, atualizados, respeitosos e, principalmente, ÉTICOS?

Veja também: 

O que pode existir de mais importante do que a vida?

Mas a vida precisa vir num pacote com dignidade, com respeito pelo próximo, com empatia, com justiça, com equidade, com direitos, com responsabilidades, sem preconceitos, sem julgamentos.

Uma vida que valha a pena ser vivida: sem guerras, sem mortes evitáveis, sem humilhações, sem injustiças. UTOPIA do presente? Pode ser. Mas, quando você nasceu, passou pela sua cabeça, ou pela de alguém, que você passaria por tudo o que passou, todos os desafios e superações, e hoje, estaria onde você está e seria quem você é?

Se hoje, você contasse a sua história de vida para alguém, sem contar que é a sua vida, será que não estaríamos diante de mais uma UTOPIA? A do seu passado?

Será?

*Dr.  Moises Chencinski , pediatra e homeopata.

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