Papo de Mãe
Papo de Mãe

Por que menino não beija menino?

Roberta Manreza Publicado em 01/02/2017, às 00h00 - Atualizado às 20h05

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1 de fevereiro de 2017


Por Érica Bombardi, escritora*

Meu filho menor, de 4 anos, tem o dom de fazer caras feias. Não é toda criança que tem essa habilidade. Já vi crianças com feição de anjo. Sorrisos encantadores. Mas poucas vezes vi a raiva estampada no rosto com tanta coragem. Ah, sim, porque é preciso ter coragem muitas vezes para não fingir sorrir.

E meu filho sai da escola com uma cara de arrepiar. Nem um sorriso. Nem uma explicação. Ele costuma demorar a explicar o motivo da raiva. Normalmente eu tenho de incentivá-lo a fazer isso.

Então ficamos um bom tempo juntos. Depois do banho e da refeição, nós brincamos, lemos, cuidamos juntos do cachorro, e, quando percebo que nada disso surte efeito, eu o chamo para mexer nos vasos e plantar algumas sementes. Ele adora mexer na terra. Aí não tem escapatória, ele se abre e conversa comigo.

A conversa nunca é direta, mas as perguntas costumam ser rápidas e certeiras.

– Por que eu não posso beijar meu amigo? – ele dispara.

– Lógico que pode beijar seu amigo. – eu rebato.

– Mas o Benito disse que não.

– O Benito talvez não quisesse que você o beijasse…

– Eu beijei a Lúcia e o Nicolas.

– Ah.

– O Benito disse que menino não beija menino. Por que menino não beija menino?

Chegamos ao ponto. Eu previa esse desenlace desde a primeira pergunta mas não quis forçar. Sim, porque eu ia falar de bate-pronto que beijar é normal e também é normal ele beijar quem ele quiser. Mas daí, na real, eu ia é calar a voz dele, eu calaria a chance de ele traduzir a raiva dele em palavras.

Ele faz a pergunta e quem se cala sou eu. Não porque eu não sei o que responder. Mas exatamente pelo oposto. Minha vontade imediata é dizer que é normal menino beijar menino.

Não é o fato de meninos beijarem meninos que me incomoda. O que me incomoda é eu não conseguir dar uma resposta decente sem usar o “normal”.

E o “normal” está queimando em minha língua.

Como uma vespa, ele pica minha língua, ansioso por ser liberto. Afinal, ele tem todo direito de sair de seu ninho e voar pelo mundo. Ele, aliás, já tem asas antes mesmo de chegar a mim, quem sou eu para não deixá-lo sair? Quem sou eu para impedi-lo de mais uma vez voar por aí?

Eu percebo que estou infectada pelo normal. Seja lá qual bicho ele for, tinha colocado ovos e todos eles eclodiram dentro de mim. Eu estou super normal. Nada mais lógico do que transmitir o normal aos que me cercam. Nada mais normal, eu diria.

Então lembro de que, na escolinha, uma mãe tinha reclamado que sua filha queria fazer judô e ela não foi permitida. Para as meninas, balé. Para os meninos, judô. Por quê? Porque é o normal.

“Porque é o normal” é a versão pós-moderna do “porque sim”.

É normal.

É normal meninas fazerem balé e meninos fazerem judô.

E agora eu queria dizer a meu filho que era normal meninos beijarem meninos.

“Normal” já havia infectado tudo.

Não. Eu não digo a meu filho que é normal meninos beijarem meninos. Por que não é.

Uma mulher amar uma mulher não é normal.

Um homem amar um homem não é normal.

Uma mulher amar um homem não é normal.

Um homem amar uma mulher não é normal.

O normal nos cega para o que é extraordinário.

O normal nos impede de sermos hoje extraordinários. E podemos. Podemos ser extraordinários hoje.

A única coisa que nos falta é erradicarmos o normal.

Meu filho me olha, esperando por minha resposta.

– Você beija quem você quiser e quem também quiser ser beijado por você.

Então, ele me beija na bochecha e eu o beijo de volta.

Isso não é nem um pouco normal.

*Érica Bombardi : Mora em Campinas, SP, com a família. Trabalha no mercado editorial desde sua graduação em Editoração, na USP, em 2000. Escreve desde 2005. Publicou dois livros e vários contos, como, por exemplo, os livros Canto do Uirapuru (2016), Além do deserto (2012), e os contos A Caçadora de Dragões D’Água (2015), “Por dentro”, entre outros.

Tem algumas premiações literárias, como o livro Canto do Uirapuru recebeu o Prêmio Literário Biblioteca Nacional, categoria juvenil (RJ, 2016), o 1º Lugar no 25° Concurso de Contos Paulo Leminski (2014), seu poema “Asas” foi selecionado como um dos melhores no Prêmio SESC de Poesias Carlos Drummond de Andrade (2014), foi uma das nove finalistas no Prêmio Barco a Vapor de Literatura Juvenil (2015), seu livro infantil “Besouros” foi premiado no 5º Concurso Agostinho de Cultura (2015).

Suas poesias em https://www.facebook.com/ciapoesia/

Suas crônicas em https://www.facebook.com/ehamaeblog/

Blog https://ericabombardi.wordpress.com/

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Link do livro Canto do Uirapuruhttps://ziteditora.com.br/publicacoes/infantil-e-juvenil/canto-do-uirapuru/




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