Papo de Mãe
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A bagunça na infância

A pedagoga Ana Paula Yazbek explica que as crianças se relacionam de formas diferentes com a bagunça e as regras variam de acordo com cada família

Ana Paula Yazbek* Publicado em 02/06/2021, às 12h47

Crianças obsessivas com a organização
Crianças obsessivas com a organização

“E aí? Sua criança é bagunceira? Quer resolver isso? É fácil, basta seguir os seguintes passos...”

Talvez você, querido/a leitor/a, já tenha embarcado em alguma receita fácil para lidar com a bagunça de seu(sua) filho(a). A maioria aborda essa questão baseada no condicionamento operante de prêmio (reforço positivo) e punição (reforço negativo), com sistema de símbolos de objetos (adesivos, estrelinhas, algodão) que as crianças recebem para trocar por prêmios e com tempos de isolamento em determinados locais (tapetinhos, quarto), quando se comportam mal.

Sinto informá-los que esse tipo de conduta até pode dar certo, mas contribui para a construção de uma obediência baseada em fatores externos e no distanciamento emocional da criança à regra. Regra que, a depender de cada família, pode ser mais flexível, mais rigorosa, mais afetiva, mais definida, mais vaga. Se tratando da organização da casa, existem inúmeras possibilidades. Há quem estabeleça que todos os ambientes devam estar impecáveis, quem tolere a desordem em todos os cômodos, ou em apenas alguns. Lembro-me de um amigo de infância que os pais não permitiam que brincasse com os próprios brinquedos, apenas que os expusessem na prateleira. Outra amiga tinha uma casa tão bagunçada que sentia aflição toda vez que a visitava.

As crianças tendem a aprender o que vivenciam na família, muito mais pelas ações do que pelos discursos. Os bebês já percebem quais locais são mais permitidos à exploração ou não. As crianças também possuem personalidades diferentes, mesmo irmãos, muitas vezes se relacionam de forma diferente com a bagunça. Uns são mais organizados e se incomodam quando se deparam com a desordem. Outros não estão preocupados se o quarto está bagunçado e até preferem que assim fique. Neste sentido temos que tomar cuidado em associar diretamente a bagunça ao aspecto negativo e a ordem ao positivo. Há crianças que se tornam obsessivas com a ordem e qualquer coisa fora do lugar causa ansiedade e tristeza, assim como crianças que a bagunça é reflexo de uma mente criativa e inquieta. Quem já não ouviu adultos que pedem para não arrumar a bagunça da mesa, do escritório, alegando que sabem exatamente onde tudo está?

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O fato é que somos mais complexos do que possamos imaginar e tratar da bagunça como algo fácil e simples de lidar, com métodos que propõe modelar e controlar as crianças, acabam funcionando mais em animais do que em seres humanos. Lembro-me de uma noite de domingo. Nosso filho caçula, Pedro, então com 3 anos, saiu rapidamente do quarto que dividia com a Marina, sua irmã, após ter brincado muito tempo sozinho. Bateu a porta com força e ao se encontrar comigo e com seu pai na sala tentou desviar a nossa atenção, mas fomos direto ao quarto e vimos que estava muito bagunçado, com quase todos os brinquedos espalhados pelas camas e pelo chão. Então, saímos de lá e dissemos que precisava guardá-los nos cestos e quando tivesse arrumado uma boa parte, poderia nos chamar para ajudá-lo. Prontamente, Pedro entrou no quarto, mas um minuto depois saiu, fechando novamente a porta bruscamente e falando com a voz mais séria do mundo: “Mãe, pai, não podem entrar no meu quarto, porque um rato muito feroz entrou lá e bagunçou tudo!”. Segurando o riso, dissemos que o rato já deveria ter ido embora e voltamos a pedir que guardasse uma boa parte dos brinquedos. Quem sabe, com menos bagunça, encontraríamos o roedor bagunceiro e o enfrentaríamos sem medo.

*Ana Paula Yazbek é pedagoga formada pela Faculdade de Educação da USP, com especialização em Educação de Crianças de zero a três anos pelo Instituto Singularidades; iniciou mestrado na FEUSP em 2018 e está pesquisando sobre o papel da educadora de bebês e crianças bem pequenas.

É sócia-diretora do espaço ekoa, escola que atende crianças de toda Educação Infantil (dos 0 aos 5 anos e onze meses). Além de acompanhar o trabalho das educadoras, atua em cursos de formação de professores desde 1995 e desde 2002 está voltada exclusivamente aos estudos desta faixa etária.

Assista ao Papo de Mãe sobre impor limites aos filhos com o saudoso Içami Tiba. 

Ana Paula YazbekEducaçãoPrimeira Infância