Papo de Mãe
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Um novo olhar: documentário mostra a criação das crianças indígenas

Mostra MIMUS exibirá curtas-metragens sobre a primeira infância indígena; confira a entrevista com a diretora

Sabrina Legramandi* Publicado em 05/07/2021, às 15h03

Série traz depoimentos sobre as formas de cuidar, educar, alimentar, proteger, e transmitir conhecimentos para os pequenos
Série traz depoimentos sobre as formas de cuidar, educar, alimentar, proteger, e transmitir conhecimentos para os pequenos - Divulgação / MIMUS

“Poder olhar o outro e até a nós mesmos com mais delicadeza”. É assim que Rita da Silva, diretora da série de documentários “Primeira Infância Indígena”, define a importância do MIMUS: Múltiplas Infâncias, Múltiplos Saberes.

O evento, realizado pela Usina da Imaginação com o apoio do Centro de Desenvolvimento Infantil da Faculdade de Medicina da USP, contará com cinco dias de programações e debates que envolvem as múltiplas infâncias presentes no Brasil.

Dentre os documentários, serão exibidos seis curtas-metragens dirigidos por Rita e por seu marido, Kurt Shaw, sobre a vivência e a criação de crianças em povos originários do Alto Rio Negro, no Amazonas.

A série, que traz depoimentos sobre as formas de cuidar, educar, alimentar, proteger, e transmitir conhecimentos para os pequenos em cinco línguas baniwa, tukano, nheengatu, tuyuka e português, foi vencedora do edital Saving Brains, do Governo do Canadá, e tem apoio da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal e da Fundação Bernard van Leer.

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O Papo de Mãe conversou com a diretora da “Primeira Infância Indígena”, Rita da Silva, que contou sobre os desafios da maternidade, a sua vivência ao construir o documentário e também sobre a necessidade de revisão de políticas públicas.

Papo de Mãe - Fale um pouco sobre você, a sua trajetória e também sobre o que significa ser mãe.

Rita da Silva - Eu nasci no interior de Santa Catarina e construí uma trajetória querendo sair do lugar de alguém que não estudava – minha família era uma família de agricultores. Por isso, eu tinha uma visão de que a maternidade ia dificultar a minha carreira e decidi ser mãe aos 42 anos.
Como eu cresci durante a ditadura militar, a escola onde eu estudava restringia o acesso às questões culturais. Foi por isso que eu consegui desenvolver as práticas de audiovisual apenas no mestrado e no doutorado, quando eu vislumbrei a possibilidade de trabalhar com a antropologia da imagem. Em 2003, comecei a me aproximar muito disso através do terceiro setor e foi nesse momento que eu conheci o Kurt Shaw e me casei. Nós somos muito companheiros até hoje.

PM - Como surgiu a ideia de fazer um documentário especificamente sobre a primeira infância indígena?

RS - Em 2012, eu fui para São Gabriel (RS) para fazer um pós-doutorado sobre as narrativas de crianças em contextos indígenas. Eu queria entender se crianças indígenas também narram mitos. A partir disso, eu comecei a me aproximar do cuidado que as mulheres e os homens têm com essas crianças pequenas.
Em 2015, fizemos a nossa primeira filmagem. Focamos no dia a dia dos bebês e trouxemos também os adultos falando sobre essa questão da primeira infância. Dessa forma, notamos que eles tinham um modo especial e muito acolhedor de criar as crianças, mas que, ao mesmo tempo, dava muita autonomia nos primeiros anos de vida.

PM - Consegue nos dar um exemplo?

RS - Sim, tem um exemplo muito específico de quando a gente estava filmando uma menina de uns 3 anos de idade.

Ela pegou uma faca na mão e eu notei que ninguém ficou assustado, a não ser eu. Eu não via ninguém se preocupar, eles olhavam calmamente e apenas deixavam a criança explorar ao redor.


Outro momento foi quando estávamos fazendo um filme com crianças brincando, correndo e subindo em árvores. Então, elas começaram a subir em um açaizeiro gigante. Eu olhava com medo para as crianças maiores, mas eu entendia que elas podiam. Quando as que tinham menos do que 6 anos começaram a subir, o meu pavor começou a aumentar e eu tive que me controlar muito para não mandar todos descerem.
Eu ficava observando como os outros faziam e notei que eles não tinham nenhuma ansiedade como eu tinha. Eles estão acostumados a dar essa percepção de liberdade para a criança, com muita clareza para que ela também aprenda a sobreviver naquele contexto.

PM - Quão importante é o debate sobre a primeira infância e a maternidade indígena?RS - É muito importante a gente entender que as políticas públicas não podem ser genéricas, elas têm que olhar o particular. Para que as políticas públicas não sejam uma coisa negativa para esses povos, é preciso que se tenha em mente a diversidade e também o contexto de cada um deles.
A primeira infância é um lugar muito interessante para a gente se aproximar, porque as crianças pequenas estão captando muita coisa. É um momento da vida para se pensar, com muitos desafios. Ter esse espaço com esse diálogo traz a possibilidade de ampliarmos o nosso conhecimento pelo mundo e de trazermos vínculos mais verdadeiros com as crianças e com os adultos.
Sobre as mulheres, como no nosso contexto, elas são as que mais estão próximas dos filhos, mas é essencial dizer que os pais também têm seu papel e seus resguardos. Eles não podem comer qualquer coisa, ir a qualquer lugar e têm várias restrições quando o seu filho nasce. Tudo isso porque eles entendem que o que o pai faz nesse primeiro período da chegada de um bebê influencia na saúde da família e da criança. Acho que esse é um aprendizado muito bonito.


A questão do parto também é bem importante: as mulheres realizam os partos na floresta e têm uma conexão com o corpo muito mais visceral do que nós.

Elas também têm medo, mas enfrentam e têm tecnologias para isso, é o corpo delas que age durante esse momento.

PM - Qual a importância de um evento como o MIMUS: Múltiplas Infâncias, Múltiplos Saberes?
RS - Essa escuta e esse diálogo são essenciais para que a gente deixe de lado uma perspectiva violenta sobre o outro e até sobre nós mesmos. É poder se pensar com mais carinho, com mais delicadeza e pensar sobre os demais também com mais delicadeza.
A gente está em um momento tão difícil no Brasil e tão complexo em termos políticos, acho que é hora da gente abrir o coração para novas maneiras de viver.

O evento

O MIMUS começa amanhã (6) e vai até o sábado. As inscrições e a programação completa podem ser acessadas por meio do site.

*Sabrina Legramandi é repórter do Papo de Mãe. 

Confira o Papo de Mãe sobre a primeira infância:

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