Papo de Mãe
Papo de Mãe

Tiraram o gira-gira

Roberta Manreza Publicado em 27/10/2015, às 00h00 - Atualizado às 09h17

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27 de outubro de 2015


CAROLINA DELBONI – Estadão

Foto: ThinkStock

Foto: ThinkStock

Porque uma criança se machucou e a mãe, indignada, foi reclamar com o clube que aquele brinquedo era uma ameaça à segurança do filho. Brinquedo que, certamente, passou por sua infância. Assim como a de uma geração que brincou em parquinhos. Gira-gira, roda-gigante, gangorra, balanço, trepa-trepa. Será que nem mais os parquinhos vão restar a essa geração?

Se pais continuarem a surtar com o que acontece com os “seus” filhos, estamos todos perdidos. Essas crianças, que mal sabem brincar, não terão nem mais espaços públicos onde se arriscar. Parquinho é essencial na vida de uma criança. Testar os limites e aprender com eles, de forma divertida, mais ainda. Porque no gira-gira dá frio na barriga e o cabelo voa. No gira-gira, a criança aprende até quanto pode ir sua força pra girar. O quanto precisa segurar o corpo pra não cair; o quanto precisa ir mais devagar pra respeitar o menor que está dividindo o brinquedo com ela. Ou o quanto pode girar mais rápido porque já tem capacidade de aguentar o peso do corpo. Olha só quanto aprendizado numa brincadeira inocente.

Mas tiraram o gira-gira do parquinho. Porque uma mãe surtou que o filho se machucou. Querida mãe, vou te contar uma coisa. Seu filho vai continuar a se machucar. Você pode pedir pra tirar todos os supostos perigos da frente dele e, mesmo assim, ele ainda irá se machucar. Pelo simples fato de ser criança. Pelo simples fato de estar aprendendo, e descobrindo, não só o próprio corpo como as coisas da vida. Conhece o conto dos Irmãos Grimm da princesa Aurora? Ou a Bela Adormecida? Lembra que o pai, o rei, manda queimar todas as rocas do reinado a fim de proteger a filha do que era dela como destino? Pois é, nem mesmo num reinado, nem sendo rei, pai e mãe controlam o que é dado como aprendizado a um filho.

E não vivemos num reinado. Isso aqui não pode ser “governado” conforme o que eu quero ou deixo de querer. E o que os outros querem também? Será que tenho o direito de tirar um brinquedo de um parquinho, que teoricamente é de uso público daquele espaço, porque me incomoda? Não seria mais correto lidar com a frustração de um filho machucado do que mandar “queimar” todos os gira-giras da infância?

Essa segurança louca dos muros; dos carros blindados; dos tapetes de borracha no chão da brinquedoteca; da joelheira dos bebês; do tênis com sensor de localização do filho que se afasta no shopping; da coleira (sim! acham normal coleira em criança); do chapéu para chuveiro (sim! pra não espirrar água no olho da criança e ela não assustar); de uma lista imensa de parafernálias que teoricamente protegem a criança de algo. Oi?! Que neurose é essa que vivemos? Que neurose é essa em que se transformou a infância?

Criança precisa de parquinho pra sentir frio na barriga. Precisa de gira-gira pra sentir o cabelo voar. Precisa de balanço pra ter a sensação de estar no céu. Precisa de trepa-trepa pra poder se orgulhar de ter atravessado tudo aquilo sozinho. Precisa de gangorra pra passar em pé de um lado pro outro. Criança precisa de parquinho pelo simples fato dele fazer parte da infância. Com toda segurança e perigo que ele oferece. Cabe aos pais se controlarem e garantirem, assim, uma infância saudável a essa geração.

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