Papo de Mãe
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Somos feitas de recomeços

Os desafios de lidar com a maternidade, vida profissional e muitas mudanças, curiosidades e recomeços

Mariana Wechsler* Publicado em 17/02/2022, às 08h00

Mariana Wechsler com seus 3 filhos - Arquivo Pessoal
Mariana Wechsler com seus 3 filhos - Arquivo Pessoal

Esse é meu primeiro artigo para o Papo de Mãe, e estou muito feliz em poder contar com o seu tempo aqui comigo. Sou de São Paulo, tenho 39 anos, mãe de 3 filhos e nossa família está longe do Brasil há pouco mais de 4 anos. Se uma mãe já passa por inúmeros desafios ao longo da maternidade, imagina uma pitada a mais ao ficar longe de toda sua rede de apoio…

Foi assim que eu comecei a me aprofundar mais e mais nos estudos da parentalidade. Ou eu conseguia entender melhor meu papel no mundo, ou não via muito mais o que ser. Sempre fui acostumada a trabalhar demais, eu trabalhava com publicidade, a carga de trabalho era pesada e horários praticamente inexistentes. 

Aí veio a maternidade. E logo de gêmeas… De um lado a graça da Vida, trazendo dois maravilhosos presentes, Anne e Lara. Do outro, o peso das madrugadas sem fim, dos seios destruídos, dores inomináveis. Dois anos passaram, e mesmo com uma certa rede de apoio, foram tempos difíceis. Mas passou. Eu já usava salto! Eu estava já me sentindo outra, imaginando voltar ao mercado de trabalho, com toda energia do mundo!

Certo mês, o atraso. Abro o teste, e vem a notícia do nosso terceiro filho. 

Veio como um balde d’água gelado! Confesso que primeiro chorei pelo desespero de ter que passar por todas as dificuldades de ter um recém nascido em casa, das mamadas da madrugada, das noites com vaporizadores (São Paulo não é para qualquer um). Gente! Enquanto meu marido sorria e pulava de alegria, eu aos prantos de cabeça deitada na mesa de jantar. Hoje eu rio dessa história.

Nosso terceiro, Gael, primeiro fã das irmãs, ganha o coração de todos. Aquela alegria que do primeiro olhar na sala do parto contagia o ambiente.   

Mariana com seus 3 filhos
Lara, Anne e Gael aproveitando o dia com Mariana - Foto: Arquivo Pessoal

Um ano após o nascimento do Gael, eu já começando a ensaiar uma vida de mulher trabalhadora, sonhando com reuniões e clientes, tínhamos que tomar uma decisão importante. Uma oportunidade bateu na porta e não podíamos perder. Lá vamos nós para um país novo, sem falar a língua local e sem nossa querida rede de apoio. 

Bom que com a pandemia, vocês podem sentir e entender um pouco o que eu passei. No início, com uma criança de 1 ano e duas de 3 anos, era difícil sair sozinha e muito menos ter uma vida social. Era praticamente ficar em casa cuidando de 3 pequenos. Te parece estranho? Acho que você consegue entender. 

A minha sorte que eu tive um treinamento intensivo sobre isolamento social pré pandemia. 

Aqui volto a relembrar. Ou eu conseguia entender melhor meu papel no mundo, ou não via muito mais o que ser. Abri meus livros sobre parentalidade, tudo sobre criação de filhos, fiz cursos, escrevi e escrevi o quanto eu pude. Engajei-me em projetos sociais, ainda que à distância. Obrigada Zuckerberg e Zoom! Ajudo muitas mulheres pelo Brasil e em outros Países, a se reencontrarem. 

O vento da minha vida mudou para melhor e graças a vocês, que estão lendo e que de alguma forma participam - e para as novas “participarão” - desse nosso processo de crescimento, que agora estou aqui contando para vocês um pouco da minha visão sobre isso tudo, sobre esses desafios diários da maternidade e da parentalidade. 

E hajam desafios. 

Assista ao Papo de Mãe sobre carreira e maternidade

Um dia, a gente percebe que não é a ausência do “obrigado” que faz com que a bicicleta não tenha sido um presente incrível. Que a festa de aniversário não foi sem graça somente porque ganhar muitos presentes foi o momento mais legal. Que o almoço não estava ruim só porque não tinha batata frita. Que a viagem não foi um fracasso só porque deu saudades do ursinho.

Gratidão é uma coisa engraçada, a gente faz e fica esperando.

Talvez pudesse ser diferente se a gente percebesse que ser grato não condiz com o desenvolvimento normal do cérebro da criança. 

Talvez a gente sofresse menos se soubéssemos que nos primeiros cinco anos de vida, a criança tem uma tendência egoísta, por questão de sobrevivência. E que apenas com 24 anos o cérebro humano termina de amadurecer, e de se desenvolver. 

Qual será o motivo da nossa insistência em querer que nossos filhos com 7, 8, 10 anos ou até mesmo adolescentes, que estão em pleno desenvolvimento cerebral, expressem a gratidão?

A gratidão é como uma plantinha, experimente plantar a semente e regá-la durante a convivência com a criança, sem que haja cobranças. Olhe para esse vaso com menos expectativas e mais curiosidade. Procure saber se a quantidade de água está deixando a terra úmida, se o sol está nutrindo as folhas.

Quando presentear a criança com uma bicicleta, tenha curiosidade em ver como ela vai reagir, curiosidade de vê-la vivenciando aquele momento. Ajustar a expectativa para esse olhar de curiosidade pode pegar uma situação que terminaria em frustração, e fazê-la terminar em boas risadas. No fim, uma boa lembrança.

Geralmente é assim, quando baixamos a guarda, conseguimos nos surpreender. Quando der vontade de cobrar gratidão da criança, tente lembrar que somos nós que criamos as expectativas e que nossos filhos não são obrigados a atendê-las. Mas também não é necessário deixar de planejar alguma coisa legal, um passeio, por exemplo. O segredo é planejar com o olhar de curiosidade e ao mesmo tempo pensar em algo que faça sentido para você. 

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Planeje um programa que você também goste e lembre-se do olhar de curiosidade! Foi sendo curiosa sobre meus filhos e sobre a nova vida que se abre a cada dia, que consegui encontrar forças e inspiração para transformar os meus olhares sobre o mundo. 

Eu quero muito poder contribuir para esse nosso coletivo chamado de Sociedade. Contribuir para desenhar esse papel de mães, de pais, de cuidadores, vós ou vôs, entendendo os novos tempos, as novas demandas sociais, e olhando para a relação parental como algo que precisa ser mais humanizado. Sem aquele ABC e famosos “5 passos para acalmar a sua criança”, “3 atitudes para sua criança não fazer birra”. 

Sigo aprendendo um monte de coisas nessa caminhada criando meus filhos. E por medo ou por amor, acabamos demonstrando muitas vezes pessoas que não somos, e nos afastamos do nosso verdadeiro EU. O bom é que podemos transformar tudo. 

Eu quero muito saber um pouco da sua história. Manda aqui para a redação algo que você queira dividir, um desafio que você passou ou passa cuidando de uma criança. Quero conhecer vocês!

contato@papodemae.com.br

Mariana Wechsler sorrindo
Mariana Wechsler, colunista do Papo de Mãe

*Mariana Wechsler, Educadora Parental, especialista em educação respeitosa, budista há mais de 34 anos e formada em Comunicação. Mãe de Lara, Anne e Gael. Escreve sobre parentalidade consciente, sobre os desafios da vida com pitadas de ensinamentos budistas e suas experiências morando fora do Brasil, longe de sua rede de apoio. Acredita que as mães precisam aprender a se cuidar e se abraçar, além de receberem apoio e carinho. Sempre diz: “Seja Fantástica! Seja sempre a sua melhor amiga”.

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