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Síndrome Alcoólica Fetal: a luta pela visibilidade do risco que envolve o consumo de álcool na gestação

A doença é pouco falada e ainda não se tem uma estimativa de quantas crianças são afetadas, no entanto as suas consequências são permanentes

Ana Beatriz Gonçalves* Publicado em 07/09/2021, às 10h52

E poderia inserir o nome por extenso do CISA - Centro de Informações sobre Saúde e Álcool?
E poderia inserir o nome por extenso do CISA - Centro de Informações sobre Saúde e Álcool?

Se tornou um senso comum a ideia de que o consumo de bebidas alcoólicas ou qualquer alimento que contenha álcool seja perigoso durante a gestação. Tal fato é praticamente um dito popular, em que muitas vezes nem se sabe por quê disso ou como, mas se tem como verdade absoluta. Embora isso seja positivo, ainda faltam muitas informações a respeito do assunto.

É justamente a falta de estudos, pesquisas e um entendimento aprofundado em torno da questão, que a Síndrome Alcoólica Fetal (SAF) acarretou e continha acarretando muitos problemas de saúde para crianças e famílias, sejam elas adotivas ou biológicas. Silenciada e desconhecida, a SAF ainda é um assunto novo até mesmo para as grávidas – que às vezes podem imaginar que "uma taça de vinho não faça mal", ou até "uma trufa de licor não seja um problema".

A verdade é que não se sabe qual quantidade de álcool acometa a SAF, e nem se tem estudos de quantos casos existem no Brasil atualmente. Para entender os desafios e a necessidade de promover o debate, o Papo de Mãe entrevista a Dra. Conceição Aparecida de Mattos Segre, pediatra e Conselheira Científica do CISA, e traz a história da mãe do Matheus, de 21 anos, a Graça.

O que é a SAF e quais são suas principais características?

Segundo explica a Dra. Conceição, a SAF é uma doença causada no feto quando a mãe gestante ingere bebidas alcoólicas, ou seja, é o efeito "negativo" do álcool no bebê. "Não se sabe até o hoje qual seria o nível de álcool seguro para uma grávida. Em contato com o álcool, seja em pouca ou muita quantidade, o feto apresenta uma série de características físicas, comportamentais e neurológicas", afirma.

A especialista diz que a Síndrome pode atingir todas as classes sociais, desde mulheres regadas com informações e estruturas às mulheres em vulnerabilidade econômica e social. "Por isso é importante a tolerância zero para álcool durante a gravidez", diz Dra. Conceição.

Ainda de acordo com a médica, a síndrome surgiu pela primeira vez na França em 1968, mas foi apenas no ano de 1973 que dois estudiosos estadunidenses nomearam o transtorno como Síndrome Alcoólica Fetal.

Nos últimos 50 anos muita coisa se tem aprendido, muita coisa tem sido identificada, como, por exemplo, as características. O feto acaba apresentando uma série de mal formações e problemas relacionados ao sistema nervoso. Nem sempre as alterações físicas aparecem, o que a gente chama de síndrome incompleta".

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Como é feito o diagnóstico da SAF?

Dra. Conceição aponta que o diagnóstico da doença é o ponto mais sensível da questão. Isso porque ele pode acontecer no pós-parto, quando o bebê ainda é recém-nascido e as alterações físicas, geralmente ligadas à face, são aparentes, ou só anos depois quando a criança começa a apresentar muitas dificuldades escolares.

"Ao longos dos anos se torna mais difícil, mas hoje em dia sabemos que a TDAH, por exemplo, o transtorno do déficit de atenção com hiperatividade, pode ser um comprometimento pelo álcool", afirma.

Muitas vezes silenciosa, a SAF acomete de 6 a 9 mil crianças por cada nascimento. "Esses são dados da literatura. Se a gente imaginar que no Brasil acontecem 3 milhões de nascimentos, chegaríamos em um número de 18 a 27 mil crianças por ano", completa.

Sem tratamento curativo, Dra. Conceição explica que existem apenas tratamentos de apoio para os transtornos comportamentais causados pela síndrome. "Não temos uma política pública efetiva nesse sentido, nem de prevenção ao álcool durante a gravidez. Algumas cidades possuem leis direcionadas às gestantes, mas quase nenhuma delas aprofunda nesse tema", ressalta.

*Ana Beatriz Gonçalves é jornalista e repórter do Papo de Mãe


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