Papo de Mãe
Papo de Mãe

Sindicato das mães: o que você acha desta ideia?

Mariana Kotscho Publicado em 08/03/2021, às 00h00 - Atualizado às 12h10

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8 de março de 2021


Neste 8 de março,  coletivo Política é a Mãe sugere a criação de um sindicato das mães.

Por Política é a Mãe*

Por que precisamos de um sindicato de mães e cuidadoras?  (Mães e cuidadoras: as principais responsáveis pelo cuidado das crianças. Sejam mães biológicas, adotivas, afetivas, madrastas, cis ou trans).

No dia 08 de março as mulheres celebram a conquista de muitos direitos. Há algumas décadas às mulheres não era permitido votar, ter conta em banco, estudar, se divorciar, trabalhar fora. Com muita luta, e sem ignorar as desigualdades em relação à raça, classe social e origem, as mulheres tiveram seus direitos reconhecidos. 

Mas há ainda uma trincheira que falta e que para derrubá-la vamos precisar mais do que resistir. Vamos precisar revolucionar a maneira como enxergamos o trabalho doméstico, a função do cuidar e a maternidade. 

Décadas de conquistas feministas não nos livraram de um problema central: o não reconhecimento do trabalho doméstico e do cuidar como fundamentais para a manutenção da sociedade como conhecemos hoje. Mesmo de mulheres “independentes” financeiramente, que estudam, trabalham “fora” ainda é cobrado o peso do trabalho da reprodução social. Mas o que é esse trabalho de reprodução social? 

Para que as pessoas possam contribuir para a sociedade, possam trabalhar, estudar, é preciso que elas estejam “bem”, que elas tenham capacidade de trabalho, ou, como alguns preferem dizer, que elas tenham força de trabalho. Para reproduzir essa força de trabalho muitas atividades são necessárias. As pessoas precisam de comida, de uma cama para dormir, alguém que escute seus problemas, que costure o botão que caiu da camisa, que organize o dia-a-dia da família, que marque os médicos, que lembre os horários dos remédios. 

E, para que no futuro ainda existam trabalhadores e que eles tenham força de trabalho para oferecer nas atividades fora de casa, é necessário gestar, parir, nutrir, educar, construir laços sociais, apoiar na formação de subjetividades das crianças. Ou, resumindo, é preciso ser mãe/principal cuidador(a). 

Todas essas atividades que renovam a força de trabalho do trabalhador ou que reproduzem novos (futuros) trabalhadores são realizadas de forma gratuita, ou subvalorizadas, por mulheres, mães e cuidadoras dentro de casa. Ou seja, mães e cuidadoras são uma classe de trabalhadoras globais. Uma classe que ainda precisa lutar por seu reconhecimento como uma forma distinta de trabalho. 

E por que realizamos esse trabalho de graça?

Acontece que o trabalho doméstico e os cuidados da maternidade foram impostos às mulheres como algo natural, uma necessidade interna de nossa natureza “feminina”. As meninas são ensinadas (ou seriam doutrinadas?) desde cedo a limpar, cuidar, cozinhar, sorrir, ser dócil. Se fosse algo tão natural talvez não fossem necessários tantos anos socializando meninas na tarefa de cuidar – nasceríamos sabendo. O trabalho doméstico foi transformado em algo natural justamente porque não há interesse em remunerá-lo. 

Misturar o amor e o afeto que as mães e cuidadoras sentem por suas crianças e companheiros/companheiras é uma das armadilhas mais bem construídas da história. Faz parecer que quanto mais amor você sente pelos os seus, mais trabalho você irá realizar. E, claro, tudo sem cobrar nada. Afinal que mãe terrível diria que cuidado é trabalho (invisível e não remunerado)? 

Nós, do Política é a Mãe, entendemos que o campo social dos afetos pode ser separado do trabalho que as mães e cuidadoras realizam há séculos e que mantêm a máquina do trabalho “fora” girando, sem que o trabalho que se faz dentro seja reconhecido e remunerado. 

Entendemos que é importante pensarmos em um salário social para todas as mães e cuidadoras pelo trabalho que elas realizam para a sociedade como um todo. Mas queremos ir além. Por isso propomos a criação de um Sindicato de Mães e Cuidadores.

  • Os sindicatos têm sua origem no enfrentamento coletivo dos trabalhadores contra situações de opressão e exploração, e fundamentam-se na união e solidariedade entre os membros da sua classe. Assim, as ações do sindicato contribuem não somente para a defesa do próprio filiado, mas também para o fortalecimento de toda a classe trabalhadora. 
  • A união de todas as mães/cuidadores – sejam as que são remuneradas pelo trabalho “fora”, sejam aquelas que não recebem pelo trabalho doméstico – em torno do reconhecimento do trabalho de cuidado como central na manutenção da sociedade atual.
  • Proteger e oferecer apoio para as mães que perderam seus direitos trabalhistas, foram enxotadas do mercado de trabalho, especialmente durante a pandemia.
  • Reivindicar como doenças trabalhistas casos de: burnout, depressão, acidentes de trabalho na residência. 

Você já pensou o que aconteceria se todas as mães e cuidadoras entrassem em greve? 

Quer saber mais sobre o Sindicato das Mães? Vamos continuar essa conversa no Política é a Mãe. 

*A Política é a Mãe é um coletivo formado  por mulheres mães que luta para que as vozes das mães e das crianças sejam ouvidas como ponto central nas discussões e ações relacionadas às políticas públicas da sociedade. Nos acompanhe pelo nosso instagram @politicaeamae, onde falamos de política, feminismo, maternidades, infâncias e cuidado.

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