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Sexo e crianças

De forma natural e com muito amor: O ator e escritor Vinicius Campos fala da importância dos pais tirarem as dúvidas dos filhos sobre sexo

Vinicius Campos* Publicado em 06/08/2021, às 14h32

Por que não falamos sobre sexo com nossos filhos?
Por que não falamos sobre sexo com nossos filhos?

Falamos aos nossos filhos sobre violência, sobre tristeza, mostramos nossos problemas. Deixamos nossos filhos assistirem ao jornal, novela e inclusive Youtube sem o menor controle. Nossos filhos têm acesso a videoclips de funk com mulheres com pouca roupa, vídeos de rappers com armas. Nossos filhos até podem jogar videogames violentos. Muitas vezes, na frente dos nossos filhos, fazemos comentários machistas, homofóbicos, criticamos a vida dos outros. Deixamos nossos filhos, com menos de treze anos, usar redes sociais, enfiamos telas nos nossos filhos de dois, três anos, para obter silêncio no jantar. Pesquisas dizem que meninos com idades entre oito e nove anos, a maioria deles, já assistiu a algum vídeo pornô. Porém não falamos sobre sexo com os nossos filhos.

Por que não? Por que é sujo? Íntimo? Intenso? Profundo? Por que é imoral? Fantástico? Forte? Por que é pecado? Por que é o começo da vida? Por que é para dois? Para três? Para muitos? Por que é animal? Sagrado? Natural? Amoral? Sobrenatural? Saboroso? Vergonhoso? Assustador? Viciante? Libertador? Liberador? Essencial? Presencial? Virtual?

Parece que sexo e infância não tem nada a ver. Não podem se relacionar, está proibido. Não devem nem ao menos se mencionar. E então vamos formando pessoas com tabús, medos, traumas, acreditando que aquilo que é o mais natural do ser humano, que mais dá prazer, que é o milagre da vida merece ser escondido como se tratasse de algo sujo. Vamos educando crianças que pensam que sexo é filme pornô, onde a mulher geralmente está numa situação de submissão e mal trato.

Quando fui convidado para ser padrinho do meu afilhado, primeiramente neguei por não ser católico, mas frente a insistência dos pais e o carinho que sinto por eles, decidi fazer o esforço e participar daquela cerimônia. Além do mais, a criança nem tinha chegado, mas algo irracional me fazia amá-la. Uma das condições da igreja católica, com razão (se eu tivesse uma igreja ia ter curso pra tudo) é fazer um curso preparatório. Fui lá eu, sem a menor vontade, escutar a palavra de Deus. E então a professora, uma conhecida da minha sogra, me perguntou se eu sabia o porquê se batizavam crianças e minha resposta foi: porque assim ela será uma filha de Deus. Juro que achei que estava arrasando! Mas não, ela olhou para mim como piedade, como a gente olha para alguém que diz que a terra é plana, e me disse: não, querido, é para limpar a criança do pecado original.

Eu fui à igreja quando era criança, mas nunca tinha ouvido falar em pecado original. Você sabia que nascemos pecadores porque fomos concebidos através do sexo? Que o batizado não é uma bem-vinda à igreja, é um banho pra te limpar antes de você ser parte da igreja. Um horror!

Anos depois, estava com meus filhos no carro, quando ainda não eram meus filhos, e eles estavam cochichando e rindo. Um deles disse: "punheta" e começou a rir mais alto depois de levar um cutucão do irmão. Perguntei: vocês sabem o que é punheta? Silêncio. Eu sabia que deveria ser cuidadoso e dar uma resposta que fosse verdadeira, apesar de serem crianças.

Primeiro me digam o que é prazer - disse ganhando mais tempo. Outro silêncio. Expliquei que prazer era algo bom, uma sensação gostosa. Na sequência perguntei que partes do nosso corpo nos davam prazer. Aos poucos foi surgindo. A boca -  disse um - quando comemos um alimento gostoso. A pele, quando recebemos carinho. O ouvido, ao escutar uma linda canção. Então eu disse: pois é, nossas partes íntimas também nos dão prazer. O pipi, o bumbum, a periquita. Tocar nessas partes dá prazer, é gostoso e  se chama masturbação, ou, popularmente, punheta no caso dos meninos, e siririca, no caso das meninas. Minha filha estava no carro, e óbvio que minha explicação foi igual para ela que para eles. É gostoso? - continuei. Muito. Pode fazer? Claro. Em qualquer lugar? Não, é pra se fazer de forma privada, quando estamos sozinhos. E é importante a gente conhecer o nosso corpo e o prazer que ele pode nos dar.

Os anos foram passando como deve ser. Nossos filhos, depois de um processo de adoção, finalmente se tornaram nossos filhos. E um dia em casa, brincando no terraço, eles estavam falando sobre sexo e me perguntaram o que era sexo? Como se fazia sexo?

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Lá fui eu de novo.

Sexo pode ser feito de muitas maneiras. Sexo é o encontro de duas ou mais pessoas que estão procurando prazer a partir da relação de seus corpos com outros corpos. Pode ser feito entre homem e mulher, entre dois homens, duas mulheres, ou entre quaisquer pessoas que tenham vontade de sentir prazer umas com as outras. Também é algo que se faz em ambiente privado e as regras só são colocadas por aqueles que participam deste encontro. É gostoso? A melhor coisa que existe. É importante fazer? Claro, desde que a outra pessoa também queira. E por questões de saúde é importante usar proteção. Geralmente, é durante a relação sexual entre um homem e uma mulher que são feitos os bebês.  

Falar de sexo ou de qualquer outro assunto com as nossas crianças depende do momento te maturidade em que elas estão. Como sabemos qual o momento? Quando surge a pergunta. E então entra o nosso papel de educador. Imagina se eu respondesse a meus filhos que o único sexo possível é entre dois homens porque sou gay? Eu não estaria dando a eles a possibilidade de entender, pensar, ampliar e se sentir livres para experimentar e vivenciar os seus desejos, que são só deles, e não são parecidos aos de ninguém, muito menos os de seus pais.

Nós pais temos a obrigação de pensar muito bem em nossas respostas, porque elas podem abrir ou fechar portas, ampliar ou estreitar, iluminar ou escurecer. Falemos de sexo, de prazer, que nossos pequenos sejam livres para amar, para ser feliz e para serem responsáveis com os outros também. Num mundo com tanta violência e ódio, falar de sexo e amor é revolucionário e transformador. E apenas diálogos francos, amorosos e transparentes serão capaz de anular tanta informação contaminada que eles recebem através das redes.

Até sexta feira! Espero que sua semana seja de muito prazer.

*Vinicius Campos, escritor e pai de 3 adolescentes – Colunista do Papo de Mãe.
instagram: @viniciuscamposoficial

Assista ao Papo de Mãe sobre sexualidade na adolescência. 

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Papo de Mãe. 
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