Papo de Mãe
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Relato de uma pedagoga: Reencontro, afeto e desejo de estarmos juntos

Pouco a pouco, temos indícios de que estamos voltando à vida cotidiana e já enxergamos o sol brilhando para além das nossas janelas.

Roberta Manreza Publicado em 08/12/2020, às 00h00 - Atualizado em 17/12/2020, às 15h49

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8 de dezembro de 2020


Aprendendo novas formas de cuidar e educar.

Dia 17 de março de 2020 foi nosso último dia de funcionamento presencial, achávamos que ficaríamos no máximo duas semanas fechados e, com muito estranhamento, começamos a pensar em como manteríamos o vínculo com as crianças e famílias. De um dia para o outro, nosso trabalho que se constituía essencialmente de forma presencial, precisou ser reorganizado para ter sentido de forma remota. O contato passou a ser pelos meios digitais e, mesmo com ressalvas, buscamos formas humanizadas de colocarmos as crianças em frente às telas.

Foi muito difícil, mas acreditávamos no nosso trabalho, na equipe, nas parcerias estabelecidas com as famílias, na resiliência, na plasticidade, na nossa capacidade de nos adaptarmos à nova realidade e nos aperfeiçoarmos nela.

Uma de nossas primeiras ações, foi apresentarmos nossas casas, para compartilhar nossas rotinas, brincadeiras, onde dormimos, músicas que cantamos, comidas e livros preferidos.  Criamos grupos de Whatsapp, para garantir as interações entre as famílias e as crianças e, com isso, todas puderam compartilhar receitas, brincadeiras, esclarecer dúvidas e trocar sugestões sobre como lidar com alguns comportamentos das crianças.

De forma institucional, passamos a enviar sugestões de livros, filmes/animações, brincadeiras, dicas culturais que poderiam ser feitas em casa, além de sugestões de propostas que envolviam a participação das crianças nos cuidados com a casa.

Através de filmagens enviadas, mantivemos nossos contatos e assim permanecemos próximos mesmo estando longe. Culinárias, brincadeiras, arte, movimentos, músicas, bate-papos, pesquisas, poesias, histórias, trava-línguas e convites a pesquisas voltadas para o interesse das crianças foram gravados, regravados, editados e enviados, na expectativa de que pudéssemos continuar fazendo parte do dia a dia delas.

Ao longo deste período, sentimos falta das conversas ao vivo com as crianças e de fazer coisas junto com elas, por isso no segundo semestre, ainda em quarentena, iniciamos os encontros síncronos e passamos a conversar, brincar, cantar, pintar, desenhar juntas e distantes.

Para além dos muros das casas das famílias que fazem parte de nossa escola, vimos a necessidade de produzir conteúdos de qualidade que chegassem a mais famílias. Daí, surgiu nossa Aldeia Digital, um canal online, o EKOA TV, com vídeos de propostas apresentadas pelos nossos educadores. Essa foi a forma que encontramos para estarmos juntos a qualquer momento, educando, divertindo, contando histórias e descobrindo o mundo ao nosso redor. Produzimos mais de 40 vídeos, de diversos temas, feitos com muito carinho e cuidado, que carregam nosso projeto pedagógico e alegria de estar junto.

Assim que soubemos que poderíamos voltar ao convívio presencial, começamos a nos organizar para o retorno. Cuidamos dos protocolos de saúde, preparamos nossa equipe para que se mantivesse atenta a eles, tivemos treinamento com especialistas da área da saúde para garantirmos maior segurança a todos e todas nós. Ao mesmo tempo, cuidamos dos protocolos de reencontro, de afeto, de desejo de estarmos juntos.

Às vésperas do reinício, tanto eu como as educadoras do espaço ecoa ligamos para as famílias e crianças para combinarmos como seria este reencontro. A ideia era restabelecer o vínculo com elas, ouvir o que gostariam de fazer e contar que encontrariam um espaço diferente por conta das reformas, mas com as pessoas já conhecidas.

Dispusemos pelos novos espaços o mobiliário, as estantes e enfeites que compunham nossos ambientes, para que as crianças encontrassem as antigas referências que as acolhiam anteriormente.

Na quarta, 07 de outubro de 2020, finalmente retornamos ao convívio e estar com as crianças e com as famílias foi extremamente significativo.

Os adultos chegavam, viam o espaço reconfigurado, olhavam para tudo com alegria, muitos se emocionavam, assim como nós. Às vezes, as palavras faltavam, mas as trocas de olhares foram suficientes para transmitir alegria e esperança por podermos estar juntos novamente. O tão desejado abraço, não foi possível, mas o contato de três longos segundos de cotovelo com cotovelo servia para “acalmar o coração”.

Neste breve contato entre adultos, podíamos admirar as crianças se desprendendo, livres, correndo, encontrando seus amigos. Enfim, enquanto os adultos se emocionavam as crianças BRINCAVAM.

Ainda estranhamos precisarmos nos afastar para podermos estar juntos, a sorrir atrás das máscaras, mas temos aprendido novas formas de presença e temos descoberto novas maneiras de cuidar e educar.

Pouco a pouco, temos indícios de que estamos voltando à vida cotidiana e já enxergamos o sol brilhando para além das nossas janelas.

Por Ana Paula Yazbek, pedagoga formada pela Faculdade de Educação da USP, com especialização em Educação de Crianças de zero a três anos pelo Instituto Singularidades; iniciou mestrado na FEUSP em 2018 e está pesquisando sobre o papel da educadora de bebês e crianças bem pequenas.
É sócia-diretora do espaço ekoa, escola que atende crianças de toda Educação Infantil (dos 0 aos 5 anos e onze meses). Além de acompanhar o trabalho das educadoras, atua em cursos de formação de professores desde 1995 e desde 2002 está voltada exclusivamente aos estudos desta faixa etária.




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