Papo de Mãe
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Refugiados de guerra, refugiados pandêmicos, refugiados climáticos e refugiados planetários

São tantos refugiados. O que todos esses “exílios” têm a ver com nosso cotidiano? Até quando continuaremos fugindo de responsabilidades que são nossas?

Ariela Doctors* Publicado em 09/09/2021, às 07h00

A difícil vida dos refugiados
A difícil vida dos refugiados

São vários os motivos de migração, exílio, chegadas e partidas pelo mundo.

As pessoas movem-se pelo planeta em busca de sonhos, em busca de liberdade, de alimentos, de qualidade de vida, de dignidade, de conforto, de carinho.

É com tristeza que o mundo vem assistindo a fuga de milhares de afegãos do seu país de origem. Desde 1970, entre conflitos civis e políticos, são mais de 2 milhões de refugiados de guerra.

Atualmente, podemos dizer que existem também os refugiados pandêmicos. Explico. Minha mãe estava morando há 8 anos fora do Brasil. Vinha vez ou outra nos visitar. Com a pandemia, ficou dois anos e meio impossibilitada de vir, uma refugiada pandêmica. Chegou no último final de semana e, desta vez, para ficar. Imagine a alegria dela e dos netos!

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Nesses anos que esteve afastada, não pôde acompanhar as transformações que aconteceram neste período. Seus netos cresceram fisicamente e também mudaram intelectualmente. A casa da família também se transformou, acompanhando os novos tempos.

Tempos pandêmicos e de emergências climáticas

Ela ficou bem impressionada ao ver que a alimentação da família tinha mudado. Nas refeições, alimentos orgânicos. O consumo de proteína animal diminuiu consideravelmente. Produtos de limpeza “naturebas”. Os netos vinham correndo mostrar suas escovas de dente de bambu e seu desodorante em barra. Nada de plásticos nos produtos de higiene pessoal. Uau, quanta mudança!

Quando fomos ao mercado, não deixei que ela colocasse as compras em sacolas plásticas e ela falou: puxa, mas podemos usá-las como saquinho de lixo...não precisamos ser tão “fanáticos”. E eu retruquei que não precisávamos de tantos saquinhos de lixo porque em casa os restos orgânicos são compostados no minhocário e reciclamos os materiais reutilizáveis. E, sim, precisamos ser “fanáticos”, porque a humanidade está correndo um risco monumental! É preciso reagir com urgência. As mudanças efetivas têm de ser agora. Não temos mais tempo para deixar para a próxima geração.

Como disse Paulo Artaxo, físico e membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU (IPCC), em sua longa jornada de divulgação do novo relatório da entidade (AR-6):

“Não há plano B e nossos netos correm o risco de, por exemplo, não conhecer as praias lindas como temos hoje”. (Paulo Artaxo)

Não é apenas o futuro das próximas gerações que está comprometido, mas o nosso presente. No relatório produzido por especialistas de todo o globo, podemos observar de forma categórica que as ações humanas estão mudando o clima do planeta. Aquecimento global, queimadas, secas, enchentes, aumento no nível do mar entre outras transformações estão movimentando milhares de animais, inclusive os da raça humana, pelo globo. São os refugiados climáticos.

Cerca de 64 milhões de pessoas no mundo foram obrigadas a se deslocar por conta das mudanças climáticas e, de acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), este número pode chegar à marca de 1 bilhão nos próximos 50 anos. Essas alterações no clima têm várias causas e uma delas é a emissão de gases do efeito estufa que provocam o aquecimento global. Atualmente, já enfrentamos 1 grau Celsius de aquecimento. Para os cientistas da ONU, que revisaram mais de 6 mil estudos, estamos muito próximos de atingir 1.5o C e até mesmo chegar a 2o C de aquecimento já na primeira metade do século, ou seja, daqui a trinta anos. Este é o nível mínimo seguro para a forma como vivemos no planeta. O relatório nos mostra que a única solução possível é reduzir pela metade até 2030 a emissão de desses gases, para então zerá-las em 2050, além de absorver parte do carbono que já está na atmosfera. Para alcançarmos este objetivo, além das novas tecnologias e energias renováveis, precisamos manter as florestas de pé.

Para Paulo Adário, estrategista internacional de florestas do Greenpeace, precisamos frear o desmatamento com urgência e restaurar as florestas degradadas em todo o planeta, “Afinal, as árvores são ‘usinas’ naturais de captação de carbono desenvolvidas e testadas há milhões de anos”. Aqui no Brasil, temos o grande desafio como cidadãos de pressionar o governo para deter o desmatamento ilegal, o garimpo, as grilagens e queimadas sem fim na Floresta Amazônica. Também se faz necessário apoiar a agricultura regenerativa, os pequenos produtores e a agricultura familiar.

Não podemos simplesmente jogar a responsabilidade para os outros, sejam eles empresários, indústrias ou governo. Corremos o risco de nos tornarmos refugiados planetários. E nessa fuga, muito poucos poderão ir.

Se compramos alimentos locais, fomentamos uma cadeia de produção menor e mais limpa. Além de favorecer o pequeno produtor, cooperamos com a urgência climática do nosso planeta. Ao consumir, pense no presente e no futuro de sua família.

Para introduzir esses temas tão relevantes na vida das crianças, minha sugestão é cozinhar e comer com elas! Conversar sobre a procedência do alimento, sobre a sazonalidade das nossas frutas, legumes e verduras, criar e brincar na cozinha!

Setembro está começando e aqui vão dicas das frutas que a natureza nos dá nesta estação: abacaxi, banana-nanica, caju, jabuticaba, laranja-lima, laranja-pera, maçã, mexerica, nêspera, tamarindo, tangerina entre outros.

Aqui vai uma receita de salada de frutas diferente e deliciosa para fazer e comer em família!

Receita Salada de frutas ao forno com creme de castanhas

Ingredientes

  • 3 bananas nanicas bem maduras
  • 2 maçãs
  • 2 nêsperas
  • 1 manga
  • 1 xícara (chá) de morango 1 colher (chá) de canela

Ingredientes do creme

  • 1 xícara (chá) de castanha de caju crua de molho por 4h
  • 1 limão
  • 2 colheres de melado de cana

Modo de Preparo da salada de frutas

  • Corte todas as frutas em pedaços pequenos, misture e coloque numa assadeira.
  • Polvilhe por cima a canela.
  • Cubra com papel laminado e leve ao forno à 180°C.
  • Asse por cerca de 30 minutos.
  • Tire o papel laminado aos 25 minutos e deixe dourar por mais cinco minutos.

Modo de Preparo do creme

  • Após deixar as castanhas de molho por 4 horas, escorra a água e bata no liquidificador com o melado e o suco do limão. Se precisar, acrescente um pouco de água.
  • Escorrer a água das castanhas.
  • Coloque a salada de frutas em uma travessa e sirva com o creme de castanha de caju e raspas de limão por cima.

Bom apetite!

Você pode acessar outras receitas no site Comida e Cultura  e conhecer mais do nosso trabalho no @projetocomidaecultura e no canal de youtube Comida e Cultura.

Fontes:

  • Relatório IPCC
  • https://www.greenpeace.org
  • cevisa.org.br
  • Embrapa
  • Iberdrola
  • Receitas Bela Gil

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Ariela Doctors

*Ariela Doctors é chef, comunicadora e mãe

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