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Quem ainda assiste novela?

Depois da maternidade você ainda consegue assistir novela? Se sim, vai gostar das análises da noveleira e mãe Renata Kotscho

Renata Kotscho* Publicado em 18/04/2022, às 09h53

Cena da novela Pantanal - Foto: reprodução TV Globo
Cena da novela Pantanal - Foto: reprodução TV Globo

No mundo dominado pelas séries, quem ainda tem tempo de assistir 216 capítulos (o equivalente a 18 temporadas de uma série de 12 episódios) sem poder nem maratonar e ainda ficar de jejum no domingo, logo o pior dia da semana?

Mas a verdade é que a telenovela está completando 70 anos pra lá de enxuta e cheia de autoestima. Para comemorar, a TV Globo trouxe um remake da novela Pantanal, uma das queridinhas dos telespectadores brasileiros.

O caso da TV Globo com a novela Pantanal é uma história de amor meio “amaldiçoado''. A emissora tinha os direitos da novela desde 1984, mas embromou a moça. Ficavam só de paquera e nada.  Até que Pantanal cansou e seu autor, Benedito Ruy Barbosa, resolveu entregar-se aos braços da TV Manchete. 

Foi um estouro. 

Pantanal é um labirinto de histórias de amor e desejo onde homem e bicho se confundem. 

O nosso herói é o peão José Leôncio. Mineirinho, como ele não gosta de ser chamado, é filho de Juventino, o peão que juntou uma constelação de gado pegando marruá no laço e na conversa.

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Desde a adolescência, José Leôncio fazia sucesso entre as moças das casas de currutela e assim como elas por ele, o mocinho apaixonava-se fácil. No que dependesse dele, teria levado logo a primeira quenga com quem deitou-se na sua garupa.

Mas nosso herói beijou foi mesmo a flor da linda e romântica Filó. Como das outras vezes, José Leôncio abandona a amada para algum tempo depois reencontrá-la de barriga. O peão então apadrinha Tadeuzinho e a moça faceira passa a ser uma espécie de governanta da mansão pantaneira (sempre sonhando com o posto de primeira dama do gado, algo tão perfeito quanto inatingível para ela).

O mundo dos nossos pombinhos vira de cabeça pra baixo (desculpe o clichê) quando o peão resolve ir para o Rio de Janeiro cobrar uma dívida de venda de gado. Ao chegar na cidade maravilhosa, Mineirinho era ingênuo de tudo, nunca tinha nem andado de elevador.

O taxista malandro que acompanha nosso herói pela cidade quer faturar o máximo em cima do chucro e leva o peão para jantar num lugar onde os cariocas do começo da década de 90 iam para ver e serem vistos.

Assim que entra no lugar granfino, José Leôncio fica enfeitiçado pela patricinha Madeleine. A louraça belzebu também não consegue tirar seus olhos claríssimos do peão com cara de homem com H sentado à sua frente.

Atrevida, ela vai até a mesa do moço e os dois matam algumas garrafas de vinho para logo em seguida “matarem-se” no hotel dele. (Difícil acreditar que aquela tigresa era virgem nos loucos anos 90, mas vamos dar uma colher de chá pra ficção).

Bom, foi o tempo de organizarem o casamento para os dois trocarem juras de amor eterno para desespero da “Talalirma”, a irmã da noivinha Madeleine, um tipinho de ruiva com cara de santa que também encanta-se pelo peão de mãos grossas e pegada firme

(Crime duplamente qualificado. Lei da talaricagem: Dar em cima de gente comprometida: crime comum. Parágrafo primeiro. Dar em cima de gente comprometida com uma amiga: crime qualificado. Parágrafo segundo. Dar em cima da noiva do irmão: crime duplamente qualificado, sem direito a fiança. Contém ironia.)

Após o casamento, a patricinha Madeleine ainda tentou dar o golpe: “Prometi amar, respeitar, mas não prometi ir morar naquele fim de mundo” (corretíssima, por sinal). Mas não adiantou bater o pé, chorando se foi viver na terra da sucuri. 

Lá engravidou, pariu sozinha em casa com ajuda apenas da rival Filó para logo depois pegar suas trouxas e ir embora com o filho e o antigo crush de volta para vida de burguesinha carioca. 

Enquanto tudo isso acontecia, Maria Marruá e Gil, após perderem o terceiro filho em um conflito de terras no interior do Paraná, mudam-se para o Pantanal em busca de paz. Arredia e traumatizada, Maria não quer nem chegar perto do marido com medo de engravidar e sofrer perdas novamente. Mas a carne é fraca e ela acaba gerando a menina Juma. 

Onça foi a mais mansa das feras que o casal encontrou no Pantanal. Gil acaba sendo assassinado por vingança, e Maria e Juma passam a viver sozinhas como bichos no mato.

Mas voltando à história da novela, depois do sucesso colossal na TV Manchete, a novela Pantanal ainda esteve nas mãos do SBT. O homem do baú comprou as fitas originais da novela em um leilão do espólio da TV Manchete e reprisou a produção no seu canal, bem na época em que a TV Globo tinha comprado os direitos do autor e planejava um remake. O projeto acabou sendo adiado mais uma vez.

A nova data de estréia seria 2021, mas as gravações mais uma vez tiveram que ser adiadas, desta vez por causa da pandemia de covid-19 (não disse que era um amor amaldiçoado?)

Mas agora vai. 

Pessoalmente, acho que é um ótimo momento para Pantanal. A novela relaxa. As paisagens deslumbrantes, os passarinhos, as modas de viola, os passeios de chalana ajudam a embalar o sono sem os efeitos colaterais de medicamentos calmantes.

E, ao contrário dos personagens neuróticos da antecessora Um lugar ao Sol, os humanos-bicho de Pantanal parecem um pouco mais sãos, ainda que menos nus do que na versão original da novela.

Mas então, vale a pena assistir novela com tanta série boa acumulada por aí? Eu acredito que sim e faço o convite para acompanhar a saga comigo: amor, paixão, maternidade, paternidade, desejo, cultura e natureza são assuntos atemporais e sempre geram boas reflexões. 

Vamos?

renata
Renata Kotscho

*Renata Kotscho é noveleira e fofoqueira te convida para assistir e fofocar sobre Pantanal. Tem 3 filhas adolescentes.

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