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Primeiro dia de aula. E na escola nova. Uma crônica de Paulo Bueno

Uma crônica do psicanalista Paulo Bueno, um papo de pai, sobre o primeiro dia de aula de Pedro, de 5 anos

Paulo Bueno* Publicado em 11/02/2022, às 12h53

Pedro no primeiro dia de aula na escola nova
Pedro no primeiro dia de aula na escola nova

O inferno está repleto de boas intenções, e é com a melhor das intenções que a gente escolhe mudar o filho de escola. Mas depois se arrepende. Quase se arrepende. Pois, no fundo, a decisão foi certa. É o tipo de escolha que tem a ver com um projeto de futuro. O inquietante é o presente. Será que vai gostar? Sair de uma escola pequena para outra com tantas crianças? Dizem que eles cobram autonomia nesse colégio. Talvez tenhamos mimado demais esse garoto. Não coloca nem a comida no prato! Será que vai fazer amizades? E justo agora que ele estreitou laços com o Enzo. Não, o nome do amiguinho não é Enzo, mas afinal todos são Enzos (se não é Enzo, é Benício). Tomara que tenha Benícios na nova escola – e Helenas (Helenas são maravilhosas).

No meu tempo não havia Benício nem Helena. Mas tinha a Juliana e o Alberto. Éramos um trio. E como toda história precisa de um antagonista, tinha também o Wagner. Certamente o menino mais bagunceiro de todo o bairro. E nessa idade o bairro é o mundo. Confesso que não me recordo o que, de tão terrível, que ele aprontava, só lembro que deixava os colegas enfurecidos. Certo dia, nosso trio se organizou para contra-atacar. Enquanto um distraiu-lhe, o outro colocou um doce em sua cadeira. Quando se sentou, ficou todo lambuzado. Ele só tinha cinco anos. E ficou bem triste. Nem sempre é fácil distinguir quem, de fato, é o vilão numa história. Tomara que na nova escola não tenha garotos parecidos com Wagner. Pior! E se tiver trios maquiavélicos?

Assista ao Papo de Mãe sobre a importância da escola. Com Vera Iaconelli.

Quando sai dessa escolinha foi difícil. No primeiro dia a gente não conhece ninguém, e dá um trabalhão formar novos trios. No primário, no ginásio, no ensino médio, na faculdade, até no mestrado o primeiro dia é desconcertante. Imagina, então, na educação infantil? No forró sempre tem aquele momento que a sanfona começa a gemer e você fica sozinho na sala de reboco, sem ter com quem dançar. E todos a sua volta rodopiando. Será que devíamos, mesmo, ter feito essa troca antes do ensino fundamental?

Na ida, enchi seus ouvidos com milhares de orientações. Eu me senti como um técnico de futebol que, na beira do gramado, dá instruções ao atacante que vai entrar aos quarenta do segundo tempo, com o time perdendo de goleada. O placar não será revertido, a derrota é inevitável. Mas a função do técnico é a de ir até o final e passar as diretrizes táticas. O jogo não depende só de meu filho. Há muitos outros fatores.

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Na volta, faço semblante de psicanalista e, sem afetações, pergunto como foi seu dia. Pedro diz que gostou, brincou com carrinhos, foi à biblioteca, escolheu o Black Power de Tayó (porque é um livro que já tem em casa). A soneca foi numa cama elástica. Disse que a professora teve que insistir para que as crianças parassem de pular, “mas eu não, eu fui um dos plimeilos a palar” disse-me, completando: “e amanhã, também, vou pular e vou ser um dos plimeilos a palar”. Soube depois que dormiu rápido e esteve entre aqueles que despertaram por último. Revelou que o cardápio do almoço era o mesmo do jantar e – vejam só! – ele fez o próprio prato. E repetiu.

Em certo momento, Pedro acabou deixando escapar que havia alguns colegas bagunceiros. Logo fiquei em alerta, pois toda história tem o seu vilão. Será que além de Benício e Enzo, há Wagner em sua turma? Ou um trio ainda mais cruel? O semblante de neutralidade caiu e com um tom de interesse pedi mais detalhes. Foi quando ele percebeu a diferença entre nós (ele criança, eu adulto). Não se deve dedurar os colegas aos adultos gratuitamente. Pedro deteve-se e corrigiu: “não, eles não fazem muita bagunça papai, é só um pouquinhozinho assim”. Não insisti, nem apontei a inconsistência em seu discurso. Pois admiro a lealdade entre os pares. Até hoje minha professora não sabe quem de nós colocou o doce na cadeira do pequeno Wagner.

Hoje enquanto levava ele para o seu segundo dia de aula, me veio um desejo inconfessável, o de que todo dia fosse o primeiro dia de aula.

paulo bueno
O psicanalista Paulo Bueno

*Paulo Bueno: Pai do Pedro, de 5 anos. Psicanalista, mestre e doutor em Psicologia Social pela PUC-SP e docente do Instituto Gerar Psicanálise, Perinatalidade & Parentalidade.

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