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Pré-natal psicológico na pandemia. Você já ouviu falar disso?

Especialista comenta sobre atenção às mulheres gestantes e puérperas em tempos de pandemia. Se a chegada de um bebê já costuma ser transformadora, em meio à COVID-19 é ainda mais.

Ana Beatriz Gonçalves* Publicado em 18/05/2021, às 21h46

Gestantes que vivem o pré-natal na pandemia precisam de mais apoio psicológico
Gestantes que vivem o pré-natal na pandemia precisam de mais apoio psicológico

"Vai nascer". Essas duas palavras costumam ser divisores de água na vida de uma mulher grávida, não importa se é a primeira, segunda ou terceira gestação. Uma nova vida está prestes a chegar, e com ela, transformações, inseguranças e um mar de novidades para quem está à espera. 

Allana Pezzi, psicóloga perinatal do Centro de Medicina Integrativa do Hospital e Maternidade Pro Matre, afirma que os dias que antecedem o parto e até mesmo o pós, são de muita ansiedade para a maioria das mulheres, por isso, é preciso manter um olhar atento para a saúde mental, afinal, ela faz parte do que a Organização Mundial de Saúde (OMS) define por "saúde".

"É tudo novo e existe um medo enraizado. A probabilidade de um caos psíquico pode vir justamente nessa fase. Exatamente por isso, é preciso falar sobre o pré-natal psicológico, que é tão importante quanto o pré-natal médico", diz a especialista.

Mas afinal de contas, o que é um pré-natal psicológico e por que devemos falar sobre ele? Segundo Allana, o pré-natal psicológico oferece uma escuta qualificada através de uma abordagem psicoterapêutica que ajuda na prevenção de doenças, assim como no tratamento precoce de uma depressão pós-parto, por exemplo.

"No pré-natal psicológico é possível trabalhar medos e angústias comuns da gestação, além de favorecer um autoconhecimento, permitindo uma gravidez e maternidade mais consciente." (Allana Pezzi)

Segundo a OMS, entre 20% a 25% das mulheres que apresentam depressão pós-parto no Brasil, 15% delas já apresentavam sintomas durante a gestação. "Pode ter passado despercebido. Hoje ainda temos um atendimento mecânico, incluindo a rotina de exames, que são importantes, claro, mas nem sempre enxergam a mulher como um sujeito com seus próprios sentimentos", reforça Allana.

Se a novidade da gestação já é por si só transformadora, em meio à pandemia de um vírus até então desconhecido, e que vem sofrendo diversas mutações, isso se intensifica.  "A gestação e o pós-parto são momentos de insegurança, e com a pandemia isso reflete ainda mais, sobretudo nas mães de primeira viagem. As grávidas estão no grupo de risco, então é algo extra para elas se preocuparem", comenta.

A paulistana Cibele Cury, de 36 anos, descobriu a gravidez da primeira filha no começo de 2020, poucas semanas antes da chegada da pandemia da Covid-19. Feliz com a novidade da maternidade, algo que já era muito desejado por ela e seu marido, ela não nega os "efeitos colaterais" em sua jornada gestacional.

"Logo fiz o primeiro ultrassom e fiquei morrendo de medo. Deu tudo certo, mas bate aquela coisa. Fomos de máscara, luva, sem encostar em nada, morremos de medo, foi tenso", conta a mãe de Eva, hoje com 7 meses.

Eva, filha da Cibele
A pequena Eva nos dias de hoje. (Foto: Arquivo pessoal)

Pré-natal na pandemia

Cibele brinca que ninguém a viu grávida, além dos seus familiares mais próximos. Ela descobriu a gestação em fevereiro de 2020, e quando foi em outubro, deu à luz Eva. "A gente programou tanta coisa e nada aconteceu. Meu pré-natal foi só eu e meu marido. Saímos apenas para consultas médicas e exames", relata.

Apesar de não ter tido depressão pós-parto ou sintomas graves de ansiedade, a paulistana afirma que chegando perto do momento do parto, as inseguranças começaram a tomar conta. "Eu via na internet casos de grávidas que pegavam Covid e a minha médica falava: 'Para de ver essas coisas, não fica se estressando, não se preocupa'... Mas não adianta, não tem como, parece que é uma paranoia".

A mãe da Eva conseguiu vencer os medos, e hoje consegue falar com leveza sobre as sensações de gestar em meio à pandemia. Cibele lembra de um curso de pré-natal que fez com o marido. Os dois tiveram que escrever uma carta para a filha, que ainda não havia chegado ao mundo, sobre os sentimentos e as expectativas de sua vinda. 

"Meu marido escreveu uma coisa e eu escrevi outra completamente diferente. A minha carta foi: 'Filha, infelizmente a mamãe não conseguiu fazer um chá de bebê, um ensaio maravilhoso que ela queria. Apesar de tudo, de ninguém ter visto a mamãe grávida, você vai ser muito amada", afirma.

Além do sentimento de frustração, inevitável no momento, Cibele ressalta o medo que sentiu em relação à equipe médica do seu parto, que foi uma cesárea. "O receio da médica se contaminar. Todas aquelas indagações, bate uma insegurança, mas graças a Deus correu tudo bem", conta.

Cibele e Eva
Cibele e Eva, com 7 meses. (Foto: Arquivo Pessoal)

"Não tive visitas. Você fica com aquele sentimento, bate uma tristezinha. Você cria uma expectativa no final acaba frustrando tudo. Mas eu sempre tive na cabeça que o importante é que estávamos com saúde, e estávamos passando por isso razoavelmente bem. Era isso que não me deixava ficar meio louca." (Cibele Cury)

Cuidados com a saúde mental

Na opinião da psicóloga Allana Pezzi, o pré-natal voltado para as questões de saúde mental das grávidas é extremamente necessário, principalmente em tempos de Covid-19. Ela explica também que a medida é um complemento para os outros cuidados físicos que envolvem o pré-natal e perinatal. "A boa saúde mental da mãe contribui para que no pós-parto ela consiga ter uma vinculação mais tranquila. Serve também como prevenção à DPP (depressão pós-parto)".

Em relação ao Baby blues, conhecido por trazer instabilidades emocionais no período do puerpério, Allana comenta que, diferentemente da DPP, ele está associado à queda hormonal e é considerado uma disforia biológica, portanto o pré-natal não estaria relacionado aos sintomas. "A mulher pode chorar, deprimir, mas isso acontece por conta da queda do hormônio estrogênio", explica.

Cibele Cury ficou atenta a todos os sinais do pós-parto. "No momento em que deu aquele choro sem motivo, conversei com a minha médica e estava tudo dentro do normal. Não adianta, são hormônios. Vem um choro que você não consegue controlar", conta. Ela também brinca ao dizer que só não "pirou" porque teve uma rede de apoio familiar. 

"Meus pais ficaram comigo por 45 dias depois que a Eva nasceu. Eu tinha a ajuda da minha mãe, meu marido foi maravilhoso, mas eu tive essa rede de apoio, foi o que me ajudou. Depois que o bebê chega, não é mais o que você quer, e sem ajuda você dá uma pirada mesmo", afirma.

Segundo a psicóloga perinatal, a rede de apoio é muito importante e faz diferença para a saúde mental das mães. "São ajudas que parecem simples, mas que fazem toda a diferença no bem-estar da gestante, da puérpera. O banho, por exemplo, passa a ser um auto-cuidado. É preciso ter esse tempo de acolhimento e empatia", conclui.

*Ana Beatriz é jornalista e repórter do Papo de Mãe

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