Papo de Mãe
Papo de Mãe

Por que uma mãe amamenta?

Por que não se atingem as metas da amamentação no mundo, sabendo ainda tantos benefícios que ela pode trazer?

Roberta Manreza Publicado em 08/03/2021, às 00h00 - Atualizado às 11h16

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8 de março de 2021


A amamentação é um direito, mas não uma obrigação. Mães não precisam ser convencidas a amamentar, elas precisam de apoio quando decidem dar o peito. 

Por Dr. Moises Chencinski*

Mais um texto que poderia ser meu. E mais um que também não é. Mas, ele traz reflexões que levantam questionamentos para os quais ainda busco respostas.

Compreendi que a amamentação não é uma ferramenta para obter saúde, mas uma parte da própria saúde. Não é um meio, mas um fim.

A amamentação não é uma forma de evitar infecções, assim como a vista não é uma forma de evitar acidentes. São partes normais de uma vida plena. Agora eu sei que a amamentação não é um esforço, e muito menos um sacrifício que a mulher faz pelo bem do seu filho, mas uma parte da sua própria vida, do seu ciclo sexual e reprodutivo. Um direito que ninguém pode lhe negar.

Eu sei que existem mulheres que não querem dar o peito. Tudo bem. Um direito não é o mesmo que uma obrigação. Também tem muita gente que não vai a manifestações ou que não vota, mas continua tendo esse direito.

Este livro não tenta convencer as mães a dar o peito, mas sim ajudar aquelas que desejam amamentar, para que consigam.

Como comentei na introdução, já faz um tempo que parei de me interessar pelas vantagens do aleitamento materno. Muitos se empenham em exaltar as excelências da amamentação, pensando que assim as mães darão mais peito. Mas a verdade é que as mães deram peito durante milhões de anos sem saber que isso tinha qualquer vantagem. E que justamente no século em que descobriram tais vantagens, exatamente nos países em que elas foram descobertas, o aleitamento materno esteve a ponto de desaparecer do mapa.

Mas, embora o efeito da amamentação sobre a saúde não seja o motivo pelo qual as mães dão o peito (e menos ainda o motivo pelo qual os bebês mamam), é de fato importante que você conheça essas vantagens. Porque, com muita frequência, recomenda-se que a mãe desmame pelos motivos mais estranhos, por perigos remotos ou imaginários. Como se o aleitamento artificial fosse sempre seguro, enquanto a amamentação estivesse por um triz de prejudicar o bebê.

Quem faz o que pode, diz o que sabe e dá o que tem, não é obrigado a fazer mais.

Trecho do livro “Um presente para a vida toda”**

PROTEGER A AMAMENTAÇÃO: UMA RESPONSABILIDADE DE TODOS.

Esse é o tema da Semana Mundial de Aleitamento Materno de 2021 estabelecida pela WABA. A 30ª semana. Analisando todas elas (sim, eu fui procurar desde a primeira em 1992), sempre abordando informações, responsabilidades, promoção, proteção e apoio ao aleitamento. Só esses temas de “proteção”, “responsabilidade”, “todos” aparecem em pelo menos 10 dessas semanas.

Será que “mais do mesmo” vai promover transformação, causar mudanças?

Quantas vezes você está no térreo, esperando elevador, com o botão aceso e chega alguém, olha para você, aperta novamente o botão já aceso, como se o elevador fosse pensar:

– Ah tá. Preciso me mexer. Agora apertaram mais uma vez um mecanismo que já está funcionando. Agora tem alguém mais ansioso ali. Então, agora eu vou descer mais rápido.

Há uma proposta da OMS para que, até 2025, 50% das crianças estejam em aleitamento materno exclusivo até o 6º mês, no mundo. O ENANI, nossa estatística de 2019, publicada em parte em 2020, mostra que em 13 anos (de 2006 a 2019) tivemos um aumento de 15% no aleitamento materno exclusivo até 4 meses e 8,6% em crianças até 6 meses.

Mas o desmame entre 4 e 6 meses, que em 2006 era de 7,9% passou a 14,3% em 2019. E isso com a instituição do AGOSTO DOURADO, leis para favorecer amamentação em público, licença-maternidade de 6 meses (apenas para funcionários públicos e mães que trabalham em empresas cidadãs), entre outras.

INFORMAÇÃO É FUNDAMENTAL

Se você teclar no Google:

Aleitamento Materno– vão aparecer aproximadamente 2.190.000 resultados

Amamentação– 11.600.000 de resultados.

Breastfeeding– 183.000.000 de resultados.

Então a informação está aí, disponível, mesmo que nem toda ela seja a mais adequada e não tenha filtros.

INFORMAÇÃO EMPODERA

Sim. Verdade. Então, se a informação está aí, ela deve empoderar. Se ela empodera, por que não se atingem as metas da amamentação no mundo, sabendo ainda tantos benefícios que ela pode trazer?

Faltam leis apropriadas? Sim.

Falta apoio? Sim.

Mas as três perguntas que já me movem há muitos anos e para as quais ainda não encontrei as respostas certas, e que tive eco nesse texto que li acima são:

– Por que uma mulher amamenta?

– Onde estamos errando? (Já escrevi sobre isso em um texto de 2012 para o Dia do Pediatra– 27 de julho)

– O que podemos fazer, se é que há algo a mais que nós possamos fazer, para de verdade apoiar uma mãe, sem impor mais desafios ou mais pressão em suas vidas?

Se alguém tiver essas respostas, tô aqui…

*Dr. Moises Chencinski , pediatra e homeopata.

Presidente do Departamento Científico de Aleitamento Materno da Sociedade de Pediatria de São Paulo (2016 / 2019 – 2019 / 2021).
Membro do Departamento Científico de Aleitamento Materno da Sociedade Brasileira de Pediatria (2016 / 2019 – 2019 / 2021).
Autor dos livros HOMEOPATIA mais simples que parece, GERAR E NASCER um canto de amor e aconchego, É MAMÍFERO QUE FALA, NÉ? e Dicionário Amamentês-Português
Editor do Blog Pediatra Orienta da Sociedade de Pediatria de São Paulo.
Criador do Movimento Eu Apoio leite Materno.

**O texto é do livro Um presente para a vida toda – Dr. Carlos González – Editora Timo que eu recomendo muito (entre outras obras dele – Bésame mucho, Meu filho não come).

Veja também:

Aleitamento materno protege bebês contra COVID-19

Grávidas estão fazendo menos consultas de pré-natal na pandemia

Cuidados com bebês e recém-nascidos na prevenção ao Covid-19




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