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Por que a pandemia afetou a nossa memória? Problema pode atingir todas as faixas etárias

Neurologista dá 7 causas para a perda de memória durante o isolamento social e também as soluções

Sabrina Legramandi* Publicado em 05/08/2021, às 13h52

Problemas de memória podem atingir até as crianças
Problemas de memória podem atingir até as crianças

Esquecer onde está a chave do carro, esquecer de comprar algo no mercado, esquecer de enviar alguma mensagem para alguém: você está sentindo que está mais esquecido durante a pandemia? Saiba que o problema não afeta apenas você: ele tem a ver com o isolamento social e pode atingir, até mesmo, as crianças.

As causas para isso são inúmeras. Um medo constante, uma vida monótona e o isolamento social fazem com que as perdas de memória venham como consequência. Mas o que fazer para driblar essa situação? E, mais importante: como saber quando procurar auxílio médico?

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O neurologista Willian Rezende, chefe de equipe nos hospitais Albert Einstein e Sírio-Libanês e fundador da clínica Regenerati, explica sobre o porquê de estarmos tão esquecidos durante a pandemia e traz um alerta essencial: procurar ajuda para transtornos mentais e neurológicos não deve ser motivo de vergonha.

Quais são as causas para a perda de memória durante a pandemia?

Willian Rezende explica que há vários fatores que contribuem para que estejamos mais esquecidos durante a pandemia. Para ajudar a entender mais sobre o contexto, ele separa as causas para a perda de memória durante a pandemia em seis:

1. O próprio vírus

Como a ciência já confirmou, a própria Covid-19 deixa algumas sequelas e, dentre elas, pode estar a perda de memória. “Muita gente pegou o novo coronavírus, não teve nenhum sintoma a mais ou nem ficou sabendo e o próprio vírus fica afetando a memória da pessoa”, diz Rezende.

O neurologista explica que o novo coronavírus afeta o cérebro mudando a quantidade de neurotransmissores: ele causa uma alteração na metabolização do tripofano, aminoácido que fabrica a serotonina e a dopamina, o que acaba fazendo com que esses neurotransmissores comecem a faltar no corpo.

Além disso, o vírus ativa alguns neurônios através da atividade do neurotransmissor de glutamato. Para entender melhor: o glutamato ativa o cérebro de maneira muito exagerada, o que também prejudica a memória.

2. O estado de estresse prolongado

O fato de as pessoas não terem muitas válvulas de escape também afeta o cérebro, segundo o médico. Para ele, não praticar esportes, não ter atividades de lazer e estar sob uma constante ameaça real – contrair o novo coronavírus – causa impactos que fazem com que o estresse crônico aumente. Como consequência, o estresse crônico afeta a memória.

3. As rotinas monótonas

Levantar da cama, pegar o computador, começar a trabalhar, sair do trabalho, deitar e dormir. Durante o isolamento, essa foi a rotina de grande parte das pessoas que puderam trabalhar de casa. Isso, porém, também pode causar prejuízos neurológicos.

“Essa é uma rotina que não favorece a memória: a pessoa, inclusive, começa a fazer as coisas mais desatenta e, quando ela está desatenta, ela não consegue mais lembrar do que não prestou atenção”, explica Willian Rezende.

4. As rotinas que prejudicam o sono

Ancorada na rotina monótona e no estresse crônico, está a rotina que prejudica o sono. Dormir tarde, acordar várias vezes durante a noite, acordar muito cedo para trabalhar e ter pouco sono ou dormir durante o dia, segundo o neurologista, fazem com a qualidade de sono seja ruim e que, consequentemente, a memória fique prejudicada.

5. O isolamento social

Willian Rezende explica que um elemento essencial para a memória é a repetição. Quando alguém encontra um amigo, por exemplo, e conta sobre um fato que aconteceu na última semana, o processo ajuda a gravar a ocasião e faz com que a pessoa consiga se lembrar dela depois.

Porém, a necessidade do isolamento social e a falta de contato com o exterior também fazem com que momentos da vida passem a ser esquecidos. “Se a pessoa não tem essa oportunidade, as vivências que ela vai tendo facilmente vão saindo da memória”, afirma o neurologista.

6. As múltiplas tarefas digitais

Ter contato com outras pessoas apenas virtualmente ou, no caso das crianças e dos adolescentes, ter uma rotina baseada apenas em redes sociais ou em videogames, não estimula o cérebro. O órgão mais importante do corpo possui, segundo o médico, “uma área desproporcionalmente grande apenas para prestar atenção em um rosto humano”.

Além disso, elementos que dispersam a atenção constantemente, como as notificações do celular, fazem com que jovens e adultos sejam constantemente bombardeados com um excesso de informação que acaba por torná-los mais dispersos. “A gente só lembra daquilo que prestou atenção”, afirma Willian.

7. As fake news

O excesso de informações traz, também, uma enxurrada de informações falsas. As chamadas fake news podem fazer com que as pessoas comecem a duvidar e a confundir coisas que elas mesmas testemunharam em algum momento da vida.

O neurologista dá um exemplo: uma pessoa recebe determinada vacina e, após receber a primeira dose, não tem nenhuma reação. Porém, ela começa a ser bombardeada por informações falsas em relação às vacinas e também sobre os efeitos colaterais que ela pode causar.

“Após um ou dois meses, caso essa pessoa seja perguntada se ela sentiu algo após a primeira dose, ela pode responder que teve várias reações e ficou muito mal. Ela não teve nada disso, ela teve um excesso de informação e isso passa a afetar o componente da memória”, explica.

Como melhorar a memória no contexto do isolamento?

O doutor Rezende informa que melhorar a memória depende de vários elementos. No caso dos jovens, fazer atividades físicas ao ar livre e de máscara pode ser uma opção. Além disso, não estar constantemente conectado também é importante.

As opções são os jogos de tabuleiro ou brincadeiras novas que não envolvam o mundo digital. Ter momentos tranquilos para conversar com pessoas e contar sobre a vida é essencial.” (Willian Rezende)

Ter uma rotina saudável, com horários para as refeições, para dormir, para acordar e para ter algum tipo de sociabilização, segundo o médico, faz com que a memória consiga voltar a ser a mesma que era antes da pandemia.

E se o problema for grave?

O neurologista informa que a pessoa deve estar alerta a problemas de maior gravidade: esquecer reuniões e eventos importantes, esquecer onde parou o carro, esquecer episódios muito marcantes da vida ou esquecer de pessoas do dia a dia pode exigir uma investigação médica.

Existem também alguns elementos, conforme a faixa etária, que podem contribuir para a perda de memória. No caso das crianças, por exemplo, o mais comum é a epilepsia. Para os adultos e os jovens, transtornos como estresse crônico, depressão, ansiedade, TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade), apneia do sono ou déficits nutricionais podem levar à perda da memória. Já os idosos podem sofrer com a doença de Alzheimer, a depressão ou com problemas no sono, nos nutrientes e nos hormônios.

O elemento mais importante, porém, é saber valorizar o cuidado do cérebro e da saúde mental, pois, nas palavras do neurologista, “o cérebro é o que a pessoa é”. Apenas um tratamento e um acompanhamento médico adequado permitem uma maior qualidade de vida e, até mesmo, uma maior funcionalidade do principal órgão do corpo.

Muitas vezes as pessoas vão fazer um check-up cardíaco e exames de sangue, por exemplo. Porém, poucas pessoas se interessam por fazer um check-up neurológico e da saúde mental. Cuidar do cérebro é cuidar de si e não pode ser motivo de vergonha ir a neurologistas ou a psiquiatras para poder ter uma avaliação melhor da própria cabeça.” (Willian Rezende)

*Sabrina Legramandi é repórter do Papo de Mãe

Confira a entrevista sobre saúde mental durante a pandemia com o psiquiatra Rodrigo Bressan, do Instituto Ame Sua Mente:

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