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Pedagogia dos detalhes

O ator e escritor Vinicius Campos questiona a Pedagogia dos Detalhes: "Como pensar em todos os métodos para cuidar de um bebê, para a transformação da nossa sociedade, se as famílias não têm nem o básico?"

Vinicius Campos* Publicado em 24/09/2021, às 10h47

Pedagogia dos detalhes, o cuidar do bebê, na sociedade brasileira, quando falta o básico.
Pedagogia dos detalhes, o cuidar do bebê, na sociedade brasileira, quando falta o básico.

Há alguns meses comecei uma pós-graduação em Pedagogia das Infâncias. A decisão de estudar depois de tantos anos do término da minha carreira universitária de jornalismo, nasceu devido ao meu envolvimento com infância e a sensação de que se eu quisesse continuar produzindo conteúdo para crianças precisava me nutrir de conhecimento e, quem sabe assim, levar aos pequenos produtos com mais qualidade e profundidade.

Nem preciso dizer que voltar ao mundo acadêmico é uma viagem sensacional. Cada aula é uma expedição por terras nunca antes navegadas. Porém o que mais me chama a atenção é que quanto mais avanço pelo caminho, mais tenho a sensação de que estou em casa.

No momento estamos cursando uma matéria chamada Pedagogia dos Detalhes, ela fala sobre o cuidado e o conjunto de métodos, ou conhecimentos, que precisamos ter na hora de cuidar dos bebês. Está voltada para profissionais de berçários que todos os dias atendem aos menorzinhos, e tem a responsabilidade de educá-los.

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Antes da matéria eu pensava que cuidar bebês era coisa do instinto, que se aprende em casa, que se repete aquilo que nossas mães faziam. Erro total. Existe técnica, estudos, há toda uma pedagogia desenvolvida para essa primeira etapa da vida do ser humano. Vários profissionais vêm pensando a maneira de cuidar dos bebês e acompanhá-los em seu desenvolvimento. 

Uma coisa que aprendi é que toda essa pedagogia, esses métodos de cuidado, foram desenvolvidos porque se entende que se o bebê não recebe a atenção que precisa, isso pode afetar, não só sua rotina diária, como sua percepção da vida. Tendo como resultado crianças mais inseguras, menos autônomas, etc.

Pedagogia dos detalhes. Estamos falando de detalhes. Como dar banho, como trocar a fralda, como alimentar, como colocar pra dormir, como gerar o espaço do brincar, como acompanhar os momentos de descoberta? Detalhes que fazem a diferença. Detalhes que eu e você podemos propiciar aos nossos pequenos, detalhes que a maioria da população nem sonha em oferecer a seus filhos.

Em 2020, o Disque 100, um número do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, recebeu 11 denúncias de violência contra menores por hora. Estima-se que o número é muito mais alto, pois a maioria das famílias não denuncia, já que elas próprias são as agressoras. 

A Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan), fez uma pesquisa que mostrou que em 2020, 19 milhões de brasileiros passaram fome e mais da metade dos domicílios no país enfrentou algum grau de insegurança alimentar.

Segundo matéria do G1, em 2020, metade das crianças de 0 a 3 anos precisava de uma vaga em creche porque seus pais trabalhavam fora e não tinham condição de cuidá-los, porém o Estado Brasileiro está longe de garantir essas vagas a quem precisa.

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Pedagogia dos detalhes?

Como garantir detalhes se nem o básico está sobre a mesa?

O detalhe está para os filhos da burguesia. A classe média mais pobre faz o que pode, e os mais pobres, entregam a Deus. 

Quando escuto pessoas dizendo que quem quer vence na vida, que quem quer consegue trabalho, que quem quer não cai nas drogas nem na violência, fico pensando nos detalhes da pedagogia.

Ora, se não acompanhar um bebê da maneira correta pode lhe trazer danos irreparáveis, imagina crescer com fome, no meio da violência, em casas precárias, sem rede de esgoto, sem comida, sendo abusado, ou com pais viciados?

Realmente acreditamos que vamos transformar nossa sociedade sem olhar para essas crianças que não recebem detalhes, nem nenhum tipo de pedagogia? Achamos verdadeiramente possível que essas crianças sejam capazes de superar todas essas adversidades e se desenvolverem como nossos filhos?

Enquanto a gente olhar somente para os detalhes dos nossos filhos, enquanto os filhos da maioria continuarem a ser tratados como lixo, vamos continuar vivendo numa sociedade injusta, onde os ricos e bem sucedidos moram em bairros ou condomínios cheios de grades, e os abandonados por nós, fazem o que pode para não morrer de fome, inclusive roubar e até matar aqueles que passeiam em carros luxuosos.

Estamos todos juntos. Nenhuma solução é individual. Só o pensamento e o acolhimento coletivo vai nos tirar dessa.

*Vinicius Campos, escritor e pai de 3 adolescentes – Colunista do Papo de Mãe.
Instagram: @viniciuscamposoficial

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