Papo de Mãe
Papo de Mãe

Pandemia de COVID-19, nova temporada

É uma série indigesta, mas infelizmente é a que todos nós estamos submetidos a vivê-la como personagens.

Roberta Manreza Publicado em 17/03/2021, às 00h00 - Atualizado às 18h46

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17 de março de 2021


Os episódios de uma série real e indigesta, que infelizmente estamos vivendo novamente por causa da pandemia de Covid-19, e nós somos os personagens. 

Por Ana Paula Yazbek*

Bem-vindos à nova temporada pandêmica!

Nela você irá reencontrar novamente medo, insegurança e muitas dificuldades. Cada um dos personagens, à sua maneira, fará tudo o que for possível para manter-se vivo e são. Todos continuarão assombrados por um vírus e, também, por alguns sabotadores que tentarão disseminar falsas informações, caos e remédios “milagrosos”.

Todos os capítulos começarão com lembretes quanto às restrições ao convívio social, cuidados de biossegurança, uso de máscaras seguras, lavagem de mãos, boa alimentação e muita atenção aos momentos de saídas, a fim de evitar a aspiração de aerossóis, ou levar as mãos aos olhos, bocas, narinas e ouvidos.

Num dos episódios, você verá uma família de classe média, composta por pai, mãe e um casal de filhos adolescentes. No começo do capítulo, a mãe, bastante preocupada com o que a aguarda, vai ao seu quarto, rememora como foi a primeira temporada e propõe o estabelecimento de novos acordos com os filhos e com o marido.

Com bom humor, ela faz uma expedição pela casa e distribui varinhas de condão para dar fim às tarefas invisíveis: apresenta os cestos de lixo, como devem ser embalados, local de destino após serem retirados e como devem colocar os novos sacos. Mostra que copos sujos não voltam sozinhos para dentro dos armários e que o ralinho da pia precisa ser higienizado após cada lavagem. Informa que a parte de fora das panelas, seus cabos e cabos dos talheres precisam ser esfregados com esponja, detergente e água. Mostra que a roupa suja, para voltar aos guarda-roupas precisam ser colocadas para lavar, secar e serem dobradas (como ela não é bela, recatada e nem do lar, pula a parte de passá-las).

Avisa que a lista de compra é de responsabilidade de todos e todas, assim como a iniciativa para comprar o que estiver faltando.

Em seguida, senta-se na frente de seu computador e organiza como serão seus dias, a fim de coordenar todas suas demandas: preparo das refeições (sempre em parceria com os demais moradores da casa), trabalho, faxina, atividade física e tempo de relaxamento. Lembra que as 24 horas do dia são inegociáveis e que precisará incluir algo que lhe traga bem-estar, mesmo que isso possa parecer supérfluo aos demais.

Neste episódio, os humores dos personagens oscilam, ocorrem brigas, o almoço atrasa, a reunião é interrompida para receber a entrega da feira, as plantas recebem água duas vezes no mesmo dia e ficam outros tantos sem nenhuma gota. A internet cai quando os quatro moradores da casa estão trabalhando ou em aula. Mas há tempo para graça e jogos em família.

Em outro episódio, conhecemos o bairro onde mora a funcionária que trabalha na casa da família do episódio anterior. Enquanto ela, pôde se manter em casa e fazer acordos que lhes pareceram significativos para passar por este período, sua vizinha de porta continuou trabalhando para receber algum dinheiro. Ela é diarista e poucos patrões concordaram em manter os pagamentos. Sem poder deixar os quatro filhos pequenos na creche, contrata a filha de outra vizinha para cuidar das crianças. É uma menina de treze anos, que deveria assistir aulas on-line, mas como não tem nem computador e nem celular com internet, ocupa seu tempo ganhando um dinheiro como babá. As cinco crianças passam o dia trancadas na pequena casa. De vez em quando, a vizinha aparece para ver se estão bem. A mãe das crianças se espreme nos ônibus, passa o dia limpando a casa dos outros, recolhendo potes de iogurte descartados pela metade e nem sempre lhe oferecem comida. Quando volta para casa, ouve o choro dos filhos na esquina, sente um alívio em saber que continuam vivos, mas também pensa em fugir. Tira um fôlego não sabe de onde para acolhê-los, dar banho e esquentar o jantar com as sobras trazidas pela querida vizinha.

Dorme de exaustão, mas acorda às 4:30 com um sobressalto, pois sabe que o dia será igual ao anterior. Este episódio não apresenta nenhuma solução no final, ficamos com a sensação de que esta história irá se repetir continuamente, com ou sem pandemia.

Um dos episódios começa com as crianças podendo voltar às escolas. Vemos uma escola de educação infantil muito linda, com portas em lugar de janelas, sempre abertas para que as crianças ocupem tanto os espaços internos como externos. Há uma sensação de otimismo, de que a vida poderá voltar ao normal. Vemos cenas lindas de crianças brincando, correndo, subindo em uma jabuticabeira, descendo uma rampa com bicicletas e motocas. As crianças fazem pintura, ouvem histórias e músicas, brincam com água, com lama, com elementos da natureza. Nas primeiras cenas, elas choram, pois ainda não se sentem seguras em estar fora de casa com pessoas que ainda não conhecem, mas depois vão se sentindo parte deste local e aproveitam tudo o que podem. É um capítulo muito agradável, mas que se encerra abruptamente com a necessidade de novo fechamento das escolas.

Num outro episódio, conhecemos uma mãe solo. Ela teve seu bebê na primeira temporada, fruto de um relacionamento casual. Seus familiares moram em outra cidade e o pai da criança demonstra pouca disponibilidade para ser pai (como se isso fosse uma opção).

Ela é professora e sabe que nesta nova temporada precisará dar suas aulas e cuidar de seu bebê ao mesmo tempo. Mergulhamos em sua subjetividade e angústias, sobre como dará conta de tantas demandas, como atenderá seus alunos, as mil reuniões de trabalho e ainda garantir uma rotina para seu bebê, cuidados com sua introdução alimentar e como irá garantir sua livre exploração num apartamento de quarenta metros quadrados.

Ao longo do episódio, o choro do bebê torna-se o choro da mãe, assim como a risada de um contagia a do outro. Os alunos enviam brinquedos ao bebê e tem sempre uma mãe que se mostra incomodada com o fato da professora ter que dar atenção ao próprio filho durante as aulas.

As madrugadas são longas e ainda mais solitárias, o bebê mama quase a noite toda e a mãe fica semiacordada. Numa cena bem diferente das propagadas nos filmes românticos em que a mãe se delicia em amamentar seu bebê.

Esta é mais uma história que não tem um desfecho final ou que traz a solução para os personagens. Vemos uma mãe e um bebê se esforçando muito para passarem por este período de um jeito possível.

Esta série tem muitos episódios e histórias singulares, há episódios com mortes, com nascimento, outros com separações, outros com um pouco de lazer. Há pessoas solidárias, outras egoístas e, também, indiferentes.

É uma série indigesta, mas infelizmente é a que todos nós estamos submetidos a vivê-la como personagens.

*Ana Paula Yazbek é pedagoga formada pela Faculdade de Educação da USP, com especialização em Educação de Crianças de zero a três anos pelo Instituto Singularidades; iniciou mestrado na FEUSP em 2018 e está pesquisando sobre o papel da educadora de bebês e crianças bem pequenas.

É sócia-diretora do espaço ekoa, escola que atende crianças de toda Educação Infantil (dos 0 aos 5 anos e onze meses). Além de acompanhar o trabalho das educadoras, atua em cursos de formação de professores desde 1995 e desde 2002 está voltada exclusivamente aos estudos desta faixa etária.

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