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Pais imperfeitos: Quando perder a cabeça, peça desculpas, não dê desculpas

Uma das maiores lições que podemos aprender e ensinar aos nossos filhos, é que erros são normais, naturais e esperados

Redação Publicado em 27/04/2021, às 00h00 - Atualizado às 14h16

Você já pediu desculpas para o seu filho ou filha hoje?
Você já pediu desculpas para o seu filho ou filha hoje?

Pais e mães também erram.

Outro dia eu estava sentada no tapete de yoga, ajudando meu filho na aula online, enquanto apitava uma notificação no meu telefone sobre uma reunião de trabalho. Estar sobrecarregada é como carregar dez quilos de arroz naquelas sacolas plásticas de mercado: por um tempo dá certo, vamos andando com cuidado e sem balançar muito para que a alça não arrebente. Mas é questão de tempo, ou de um pequeno descuido, para que tudo caia no chão.

Em tempos de pandemia seguimos com a sacola cheia, na maioria das vezes segurando a língua e a vontade de brigar, até que o inevitável acontece. Derramamos nossas frustrações sobre nossos filhos com a bronca além da conta, palavras desnecessárias, ameaças e afins. Depois vem a culpa junto com a constatação de que isso pode deixar marcas emocionais. Em seguida, o sentimento de vergonha, inferioridade, e a sensação de ser uma péssima mãe. Pois bem, nesta história ainda pode haver um bom desfecho. Desde que saibamos lidar com os nossos erros com inteligência emocional, eles podem ser instrumentos para a educação e para o bom relacionamento entre pais e filhos.

Modelos imperfeitos

Por um instante, imagine como seria crescer em uma casa onde os pais nunca falham… Como seria ser a única pessoa que erra… A única pessoa que perde a cabeça… A única pessoa que diz coisas de que se arrepende… A única pessoa que fere os sentimentos do outro…  Como seria crescer nesta casa onde você é o único imperfeito? Eu faço essa pergunta para muitos pais e mães nos meus atendimentos e palestras, e a resposta é sempre a mesma, seria apavorante crescer em um lugar assim. Se você fosse o único ser falho, naturalmente você se sentiria inferior e inadequado.

A capacidade de aceitar a nossa natureza imperfeita passa pelo reconhecimento de que os outros também erram. Então um primeiro grande benefício de ter pais imperfeitos é descobrir-se normal na sua imperfeição.

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Modelos corajosos

Mas para que seu filho entenda que o erro foi seu, e não dele, é necessário que você tenha coragem de assumir essa responsabilidade. Sim, porque as crianças costumam achar que são culpadas por aquilo que não são. Existe uma idealização dos pais, e uma recusa em aceitar que eles possam decepcioná-las de alguma forma. Então, é muito comum que a criança se culpe pelo que aconteceu e tente mudar a si mesma para conquistar o amor e a aprovação dos pais. Muitas vezes, é justamente na repetição de eventos assim que começam os problemas de autoestima, a falta de autocompaixão, a autocrítica severa e o perfeccionismo.

Já quando os pais reconhecem o próprio erro, a criança entende que os sentimentos dela fazem sentido, e que os pais se importam com o que ela sente. Quando elas entendem que até aqueles que mais admiram também erram, aprendem que os erros nos igualam e não nos fazem diferentes ou inferiores. Pedir desculpas ao seu filho ajuda que ele desenvolva tolerância e compaixão pelos erros dos outros. Também o ajuda a ser compassivo consigo mesmo quando ele errar. Contar para a criança sobre as consequências do seu erro, e o que você fará para corrigi-lo ou o que planeja fazer diferente da próxima vez, ensina que os erros são formas de aprendizado. As pessoas que lidam melhor com os erros tem maior sucesso acadêmico, profissional, melhores relacionamentos, e até mais saúde física. Este aprendizado é a base da resiliência, compaixão, persistência e sucesso.

Peça desculpas, não dê desculpas

Somos muito rápidos em exigir que nossos filhos peçam desculpas, mas quando a vez é nossa, não somos tão bons assim. É frequente que o pedido de desculpas venha acompanhado de justificativas, por exemplo em falas como “se você não tivesse deixado a louça na mesa de jantar, eu não teria ficado nervosa”. Ou então, “eu não sabia que você ficaria chateado quando eu chamei sua atenção durante a aula online”. Perceba que no primeiro exemplo os pais culpam a criança por um erro que ela não cometeu. No segundo exemplo, colocam a culpa na sensibilidade da criança, que ficou chateada por uma “besteira”.

Um terceiro tipo de desculpa comum, é aquela seguida da palavra “mas”. Desculpa por ter gritado com você, “mas” fiquei muito nervosa quando vi a bagunça do seu quarto. Mesmo que a frase após a palavra “mas” seja verdade, ela anula o pedido de desculpas. Porque a intenção de desculpar-se é reconhecer o sentimento do outro, dizer que o que a criança sente faz sentido, e expressar que você sente por ter ferido os sentimentos dela. O pedido de desculpas é uma forma de restaurar a confiança que a criança tem em você. Mas se ele vem seguido da palavra “mas”, o intuito passa a ser justificar as suas ações. Se a bagunça do seu filho contribuiu para que você perdesse a paciência, você pode conversar sobre isto com ele em outro momento.

O objetivo do pedido de desculpas deve ser apenas um: reestabelecer confiança e cumplicidade, fazendo com que a criança se sinta compreendida, vista e amada. A partir deste lugar, conversas futuras serão mais produtivas.

Perdendo a vergonha de errar

Temos uma imagem idealizada de nós mesmos e é doloroso admitir que podemos, de fato, ferir o sentimento das pessoas que mais amamos, incluindo nossos filhos. Uma das principais dificuldades que temos em pedir desculpas é porque é difícil assumir quando nos afastamos daquilo que gostamos de ser: empáticos, justos, honestos, enfim. Às vezes o erro é tão aversivo que mesmo sem perceber culpamos o outro, as circunstâncias, ou então usamos a mentira para salvar a nossa reputação. Se o erro é sinal de que não somos bons o suficiente, torna-se muito dolorido aceita-lo, pedir desculpas e aprender a partir dele.

Perceba que por trás da incapacidade de reconhecer os erros está subentendida a crença de que o erro diz algo de ruim sobre você. Confundimos “fiz algo ruim” com “sou ruim”. Como se fosse possível acertar sempre, e que você só não consegue fazê-lo porque é inferior aos demais.

Uma das maiores lições que podemos aprender e ensinar aos nossos filhos, é que erros são normais, naturais e esperados. Claro que nos sentimos mal quando prejudicamos alguém, porque nos importamos com esta pessoa. Mas isso não significa que somos maus ou ruins, apenas que somos humanos e falíveis. Fazer as pazes com a nossa imperfeição nos ajuda a assumir nossos erros e aprender com eles.

Crianças precisam de pais humanos e corajosos

Portanto, é necessário acolher a nossa própria humanidade e o fato de que não somos, e nunca seremos, perfeitos. Ainda bem, porque filhos imperfeitos precisam se espelhar em pais imperfeitos que também sejam corajosos para admitir que são humanos, e não máquinas. Quando reconhecemos nossos erros, pedimos desculpas para os nossos filhos, e procuramos com honestidade reparar o que causamos, abrimos um caminho de comunicação autêntica. Honramos a nossa humanidade, e inspiramos nossos filhos a fazerem o mesmo.

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*Adriana Drulla, mestre em Psicologia Positiva pela Universidade da Pensilvânia e especialista em Parentalidade Consciente.




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