Papo de Mãe
Papo de Mãe

Olho no olho? Você não é um fracasso se não puder amamentar

A amamentação é importante sim. A amamentação tem limitações sim.

Roberta Manreza Publicado em 12/04/2021, às 00h00 - Atualizado às 10h56

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12 de abril de 2021


Há uma linha muito tênue entre promoção, proteção e apoio à amamentação e pressão para amamentar. 

Por Dr.  Moises Chencinski*

Pensei muito em como escrever esse artigo. Tenho lido muitas notícias sobre amamentação recentemente (como sempre), algumas defendendo e outras atacando (como sempre), alguns manifestos sobre os benefícios reais e sobre a beleza do aleitamento materno e outros relatos mais “realistas” e menos “romantizados” sobre os desafios e as dores de amamentar e de não amamentar (também, como sempre).

Pressão e julgamento em torno da amamentação

Quero fazer esse depoimento para as mães que estão ouvindo sobre amamentação pela primeira vez, para as que me procuram no consultório às vezes chorando, para as que me encaminham e-mails ou interagem comigo pelas redes sociais muito tristes ou preocupadas, porque não estão conseguindo amamentar como sonhavam por qualquer tipo de problema e para as mães que, por qualquer razão, decidem não amamentar.

Estamos a caminho da 30ª Semana Mundial de Aleitamento Materno (1 a 7 agosto) e do Agosto Dourado. Tema de 2021: Proteger a Amamentação: Uma responsabilidade de todos.

Desde há 30 anos (e até antes disso) se fala a respeito de todos os benefícios médicos, sociais, econômicos e psicológicos da amamentação, que resultam de muita pesquisa e estudos sobre o assunto. Cada vez mais, a alimentação “sob demanda” ou “conduzida pelo bebê”, sem necessariamente uma programação rígida, trazem uma maior interação entre as mães e suas crias, com efeitos positivos tanto na produção de leite como na felicidade e leveza dessa situação, tão preocupante para as famílias.

Ao mesmo tempo, as redes sociais, os grupos de mães, o chamado “ativismo” e essas informações a respeito do aleitamento materno trazem uma pressão para a amamentação e as opiniões da sociedade, incluindo comentários firmes sobre como não ser capaz de amamentar, consequentemente, acabam implicando, muitas vezes, em falha da mãe em alimentar seu filho.

Durante esses meus anos de prática pediátrica (lá se vão 40 deles …) encontrei, em consultas ou pelas minhas redes sociais ou pelos e-mails, centenas ou milhares de mães que querem amamentar exclusivamente, outras tantas que não querem nada com a amamentação, muitas que querem seguir certas “crenças ou linhas dietéticas” e muitas mesmo que não têm ideia do que querem fazer.

Pude acompanhar e escutar mães que se importavam pouco e outras que, por terem passado muito tempo nos blogs, grupos de mães na internet, InstagramFacebook, quebraram sobre como elas “falharam” por não terem conseguido atingir a meta almejada (por elas, pelos pediatras, pela sociedade…) de aleitamento materno desde a sala de parto, exclusivo até o sexto mês e mantido até 2 anos ou mais, complementado com alimentação saudável e equilibrada.

Depois de muito tempo como pediatra, tracei como objetivo ser um aliado e um defensor das mães, de seus filhos e das famílias. Assim, ao final do meu dia, depois de ouvir, olhar, ler e sentir as emoções de quem me procura, acho que vale uma reflexão: Ninguém é perfeito e não existe uma única resposta certa para todos.

Não tenho conflito de interesses e não há nenhum julgamento em mim. Vou continuar a defender o leite materno, como o padrão-ouro da alimentação infantil e a amamentação, fazendo tudo o que posso para informar às famílias e as novas mães sobre como amamentar e porque essa é uma ótima ideia. Mas, ao mesmo tempo, acredito firmemente em não censurar ou em não humilhar aquelas que não podem ou decidem não amamentar.

Olho no olho?

Você não é um fracasso se não puder amamentar. Não é o fim do mundo. Há tantas coisas relacionadas com a Maternidade e o fato de você se preocupar com isso já significa que você é uma boa mãe.

Eu compartilho a história da amamentação e o tema porque é uma parte natural da vida, para normalizar o aleitamento materno, para orientar e informar quem não conhece, quem quer saber um pouco mais ou quem quer decidir seu próximo passo. Contem sempre comigo.

Existem mitos sobre a amamentação e alguns deles são passados ​​por familiares, amigos ou pelo “Dr. Google”. Discuta essas preocupações e essas questões com um profissional de saúde que conheça, se interesse e se preocupe com vocês e com o aleitamento.

Há uma linha muito tênue entre promoção, proteção e apoio (advocacy) e pressão para amamentação, e uma ligeira mudança no tom ou na escolha das palavras pode fazer toda a diferença, desde o empoderamento até o julgamento com condenação.

E os resultados?

Não estimulamos adequadamente quem quer amamentar, não acolhemos de forma justa e digna quem não pode ou não quer amamentar e criamos duas “tribos” que, ao invés de se unirem nas suas forças, se dividem nas suas fraquezas.

A amamentação é importante sim.

A amamentação tem limitações sim.

Parte da nossa missão, enquanto pediatras, é acolher com escuta ativa, empatia, sem julgamentos, propiciando a cada família a informação ética e atualizada, sem conflitos de interesse, e a cada mãe o respeito, a dignidade e a condição para ela ser o melhor que ela puder ser. Sem cobranças.

*Dr.  Moises Chencinski , pediatra e homeopata.

Presidente do Departamento Científico de Aleitamento Materno da Sociedade de Pediatria de São Paulo (2016 / 2019 – 2019 / 2021).
Membro do Departamento Científico de Aleitamento Materno da Sociedade Brasileira de Pediatria (2016 / 2019 – 2019 / 2021).
Autor dos livros HOMEOPATIA mais simples que parece, GERAR E NASCER um canto de amor e aconchego, É MAMÍFERO QUE FALA, NÉ? e Dicionário Amamentês-Português
Editor do Blog Pediatra Orienta da Sociedade de Pediatria de São Paulo.
Criador do Movimento Eu Apoio leite Materno.

Veja também:

Por que uma mãe amamenta?

Aleitamento materno protege bebês contra COVID-19

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