Papo de Mãe
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Obstetra de Elis Regina revela histórias da estrela da MPB e conta, com mais de cinquenta anos de profissão, a deliciosa arte de trazer bebês ao mundo

Roberta Manreza Publicado em 15/02/2017, às 00h00 - Atualizado às 16h24

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15 de fevereiro de 2017


Por Roberta Manreza,

“Doutor Cegonha”: era assim que Elis gostava de chamar o ginecologista e obstetra Dr. Claudio Basbaum

A década de 70 testemunhou a chegada no Brasil do Parto Leboyer. Trazido pelo ginecologista e obstetra Claudio Basbaum que aprendeu a técnica com o próprio Frédérik Leboyer. O médico francês defendia métodos naturais para não agredir o bebê na hora do nascimento e permitir o encontro de mãe e filho logo após o parto. A nova técnica chamou a atenção da cantora Elis Regina que tinha realizado um parto cesárea no nascimento do primeiro filho, João Marcelo Bôscoli, fruto do relacionamento com o cantor e compositor Ronaldo Bôscoli, e não de forma natural, como desejava. Quando engravidou do seu segundo filho, já casada com o músico César Camargo Mariano, ela procurou o Dr. Claudio Basbaum e decidiu que faria o parto natural.

Mais do que um médico, doutor Claudio se tornou um confidente da estrela. As consultas com Elis eram marcadas sempre para o fim do dia e com pelo menos duas horas de duração. Tempo que ela usava não só para falar da gravidez, mas também para conversar e desabafar, contando detalhes da sua vida pessoal e profissional.

“Desde nosso primeiro encontro, quando já iniciou-se a relação médico-paciente, criou-se uma química que facilitava o meu papel como médico, amigo e cúmplice de tantas conversas.  Elis chegou como uma velha amiga, alegre, desbocada, brincalhona e com aquela inconfundível gargalhada. Era muito conectada e suficientemente politizada. Seu apelido “Pimentinha” fazia jus à sua braveza e bem “dona do seu nariz”. Mas como se diz, ‘o santo  bateu’.”

Já em trabalho de parto, Elis, na hora das contrações, xingava expressões que ecoavam pelos corredores do Hospital São Luiz. Mas convencida de que era o parto natural que desejava e, confiando na promessa de Basbaum de que ela teria condições de passar pelo parto, aguentou firme e sentiu dores intensas antes de recorrer ao anestesista. Pedro Mariano nasceu num ambiente tranquilo e com pouca luminosidade. Com Maria Rita, a proposta naturalista do nascimento foi mais ousada. E ela não desistiu mesmo tendo problemas durante a gestação.

“Me lembro que no segundo trimestre da gravidez de Maria Rita, com ameaça de parto prematuro, na vigência do seu mais importante show “Falso Brilhante”, houve a necessidade de interromper as apresentações. Eu dei uma ordem médica proibindo a participação dela, pois era um espetáculo que exigia grande esforço, com uma cena suspensa num trapézio. Sob fortes protestos, ela foi obrigada a aceitar a recomendação médica”. No dia do parto, ela ainda xingava muito enquanto caminhava pela sala do hospital sentindo as contrações. Encarou as dores dessa vez, sem anestesia. Se agachou como uma índia e Maria Rita nasceu tranquila, indo para os braços da mãe, sob uma luz fraca, num ambiente de extrema tranquilidade e alegria.

A relação entre médico e paciente não parou por aí e se manteve a mesma até a morte precoce da cantora.

“Dias antes do seu falecimento, voltando de férias, recebi um cartão de Feliz Natal e Ano Novo e ao chegar ao consultório, uma mensagem de voz na secretária eletrônica que era um apelo: “Cegonha, preciso falar com você”, mas não houve tempo”, conta Basbaum.

Cartão de Natal de Elis para o Dr. Basbaum

Como mulheres que vivem sob pressão devem encarar a gravidez?

Elis Regina era intensa e sofria, como tantas mulheres, a pressão do trabalho e da vida em família. E esse tipo de tensão, que já interfere no comportamento diário  da mulher fica ainda mais evidente durante a gravidez.

“Na gestação, a mulher passa por profundas adaptações físicas e emocionais. Sentimentos controversos, ambivalências, inseguranças tipo surpresa/medo, quero/não quero, estou/não estou e questionamentos. Em geral, digo que a gestante vivencia um estado “neurótico” especial que dura 9 meses e (quantas vezes?) se prolonga sobre o período de amamentação”, explica o médico.

Para o especialista é preciso estimular a grávida a buscar momentos para o recolhimento e a meditação. Ela tem que se dar um tempo para sentir e usufruir a situação ‘mágica’ de gerar um filho. Dr. Claudio conta que certa vez, Frederic Leboyer respondeu a uma gestante que lhe perguntara: “O que posso fazer pelo meu nenê enquanto estou grávida?” e ele simplesmente respondeu “Cante para ele”.

“Isso quer dizer pense no seu bebê e dirija-se ao seu bebê. Lembre-se sempre que ali já existe uma pessoinha que já quer sentir-se desejada, amada e querida”, ressalta.

“Um bebê sendo gestado na paz e que venha nascer em um ambiente harmonioso, com certeza será um futuro cidadão mais feliz e integrado ao meio em que vive. E esses cuidados e essas ações positivas deverão criar o ambiente caloroso e alegre onde acontecerá o ritual do nascimento feliz”, finaliza o especialista.

Assista à entrevista com o Dr. Claudio Basbaum que revela histórias da paciente e amiga Elis Regina durante as gravidezes de Pedro Mariano e Maria Rita. E veja também as dicas desse profissional, com mais de cinquenta anos de profissão, para tornar o  parto um momento mágico e transformador para a mãe e o bebê.  

Dr. Claudio Basbaum

http://www.claudiobasbaum.med.br/

Cláudio Basbaum é médico com especialização na Universidade de Paris-França. Professor-Doutor em Ginecologia e Obstetrícia, pioneiro da laparoscopia no Brasil (1967), Introdutor do Parto Leboyer (“Nascimento sem violência”) e da técnica “Shantala” (Massagem para bebês) no Brasil e defensor de técnicas menos agressivas à mulher e ao bebê. Membro do Corpo Clínico do Hospital e Maternidade São Luiz em São Paulo. O ginecologista tem 51 anos de profissão, defende a população feminina de cirurgias mutiladoras desnecessárias há 18 anos, através da campanha “Mulheres, Salvem seus Úteros!”. (www.claudiobasbaum.med.br) É pioneiro e introdutor no Brasil de diversas técnicas avançadas em medicina como a laparoscopia (1967), videocirurgia – (videolaparoscopia e videohisteroscopia)- 1988  e a embolização para eliminação dos miomas uterinos, desde o ano 2000, procedimentos mini-invasivos de máxima eficácia terapêutica e com um mínimo de trauma e rápida recuperação.




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