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O “telefone sem fio” do aleitamento materno

O pediatra Moises Chencinski analisa a falha de comunicação em grandes empresas quando o assunto é amamentação e cita o caso da mãe australiana que foi proibida de amamentar em público na Disneyland de Paris

Dr. Moises Chencinski* Publicado em 12/07/2021, às 00h00

Disney se desculpa por impedir mãe de amamentar em público
Disney se desculpa por impedir mãe de amamentar em público - Foto: Reprodução/Pexels

Acho que todos nós ou já brincamos disso quando crianças, ou passamos por essa prática em treinamentos ou em cursos

O telefone sem fio é uma brincadeira popular. Uma pessoa fala uma palavra ou uma frase ao ouvido de outra pessoa, bem baixinho, para ninguém escutar. Aí, essa mensagem tem que ser passada de uma pessoa para outra, sempre em voz bem baixinha, falando uma vez só, sem repetição, até chegar ao último participante da brincadeira. Então, esse conta para todos a mensagem que chegou até ele.

E quem já “telefonou sem fio” sabe que a mensagem final sai muito diferente da original, o que causa a diversão. A intenção da “brincadeira” ou da “técnica”, quando usada em dinâmicas de grupo, é mostrar as falha da comunicação, por envolver capacidade de audição, concentração, a fala, a interpretação e a memória.

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E parece que quando o assunto é aleitamento materno, o telefone sem fio é sempre um telefone estragado, mesmo em grandes empresas e nas situações mais diversas.

Nessa semana, uma mãe australiana foi proibida de amamentar em público na Disneyland de Paris, pela equipe de segurança. O fato, que causou constrangimento irreparável à mãe e à família, foi divulgado pelo mundo.

“Eu me senti completamente vulnerável, totalmente intimidada e com muito medo.”

Forte, né? E isso por amamentar sua bebê que estava com fome.

A explicação dos funcionários? A mesma já usada em outras situações semelhantes.

“... eles basicamente disseram que era para os outros visitantes do parque que vieram de outras culturas e religiões”.

A primeira resposta da empresa:

“... as mães tinham o uso de salas especiais com materiais adequados e confortáveis, como poltronas especiais para amamentação”.

Após a intervenção da Ministra júnior do interior da França, Marlene Schiappa, dizendo que “amamentar um bebê não é uma ofensa. É bom que você tenha quartos dedicados a elas, mas ninguém sabe quando e onde um bebê estará com fome”, a empresa mudou seu posicionamento.

“Lamentamos profundamente esta situação e apresentamos mais uma vez as nossas desculpas à mãe em questão”.

Em outras situações semelhantes, as empresas ou os estabelecimentos informam que a “sua política” é a do acolhimento de todas as mães que amamentam, sem nenhuma restrição de local.

Eu fico pensando se essa comunicação entre empresas e funcionários, entre o poder público e as empresas, entre as instituições e a sociedade, entre os legisladores e as famílias é assim só em relação ao aleitamento materno ou isso acontece em outros assuntos. Imagine...

Tá passada?

Pergunto, então, qual seria a dificuldade de se entender que:

O bebê não escolhe a hora de ter fome.

Se ele toma fórmula, não vai ser dada a mamadeira? Se ele mama no seio, vai ser dado o seio.

E pra terminar, simplificar, resumir e não deixar nenhuma dúvida:

Amamentar não tem hora nem lugar.

*Dr.  Moises Chencinski , pediatra e homeopata.

Presidente do Departamento Científico de Aleitamento Materno da Sociedade de Pediatria de São Paulo (2016 / 2019 – 2019 / 2021).
Membro do Departamento Científico de Aleitamento Materno da Sociedade Brasileira de Pediatria (2016 / 2019 – 2019 / 2021).
Autor dos livros HOMEOPATIA mais simples que parece, GERAR E NASCER um canto de amor e aconchego, É MAMÍFERO QUE FALA, NÉ? e Dicionário Amamentês-Português
Editor do Blog Pediatra Orienta da Sociedade de Pediatria de São Paulo.
Criador do Movimento Eu Apoio leite Materno.

Assista ao Papo de Mãe sobre amamentação.

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