Papo de Mãe
Papo de Mãe

O pai, o filho e a resenha antes de dormir

Roberta Manreza Publicado em 22/11/2017, às 00h00 - Atualizado às 10h06

None
22 de novembro de 2017


Por Chico Bicudo*, jornalista e escritor

Papo de pai noturno

Fazia uns cinco minutos que estava lá, em pé, mudo, estático, como se reverenciasse um oráculo. Os olhinhos curiosos já tinham percorrido atentamente e várias vezes as prateleiras da estante, de cima para baixo, de uma ponta a outra, horcruxes de Harry Potter, caçadas de Pedrinho e mistérios policiais disputando a atenção dele e convidando ‘me escolhe, me pega, hoje é comigo’, sem que o moleque, já de pijamas, esboçasse qualquer preferência. Quando finalmente tomou a decisão, virou-se num pulo na direção do pai para decretar, convicto:

– Hoje não quero ler antes de dormir. Vamos sentar ali na cama. Você vai me contar suas histórias de futebol.

Foi puxando o pai pela mão.

– Garotão, não enrola. Você já conhece todas elas. Escolhe lá o livro.

– Não enrola você. É sempre legal ouvir de novo. Conta aí. A da primeira vez que você foi na Vila.

Golpe certeiro, na jugular.

– Eu tinha seis anos. Foi num jogo contra o XV de Jaú, Campeonato Paulista. Fomos campeões naquele ano, o time dos Meninos da Vila, Pita, que fez o gol naquele dia, Nilton Batata, Juary e João Paulo. E o camisa 5 era o Clodoaldo. Estava em fim de carreira, mas eu vi o Clodoaldo jogar. O tempo estava ruim, chovia, parava. Meu avô, seu bisavô, que você não conheceu, era cheio das manias e superstições. Assim que ele guardou o relógio no bolso, para não molhar, marcamos o gol. Não colocou mais a porcaria no pulso. Só quando o jogo acabou.

– Onde vocês ficaram?

– Nas cativas. No mesmo lugar onde fui com você na sua estreia na Vila, trinta anos depois, em 2008, num empate horroroso contra o Náutico, última rodada do Brasileirão. Você era um bebê grande, perninhas curtas. Subiu todo desengonçado os degraus das arquibancadas. Viu o jogo todinho no meu colo, com a camisa listrada. Resmungou porque não saiu gol. Seus ídolos eram o Molina e o Kleber Pereira.

– Eu não lembro…

– Não sei onde está guardada, preciso achar. Mas tem foto.

– Da estreia do Neymar eu lembro, no Pacaembu.

– Você é um santista de muita sorte. Quando nasceu, o Santos foi campeão paulista, seria bi no ano seguinte, seu presente de primeiro aniversário. Pouco antes, tinham sido dois títulos brasileiros. Vieram outros muitos Paulistas, a Copa do Brasil, a Supercopa, o tri da Libertadores. E eu, que fiquei dezoito anos na fila, sendo zoado pelos moleques da escola?

– Você não me levou na final da Liberta. Queria ter ido.

– Eu sei. Você sempre diz isso. Fico com o coração apertado, peço desculpas. Mas não dava. Era jogo tenso, estádio superlotado, você era muito pequeno. Hoje me arrependo. Teria sido o máximo comemorar aquela taça com você no campo.

– Tudo bem, pai. Seu avô viu o Santos campeão do mundo?

– Ouviu pelo rádio. Ele adorava contar as histórias daquelas vitórias contra o Milan e o Benfica, principalmente os 5 x 2, no estádio da Luz. Dizia que tinha sido o jogo mais fantástico de todos os tempos. Contava detalhes sobre o temporal que caiu no Maracanã contra os italianos. Não vi Pelé jogar, mas conheço quase todas as façanhas e dribles do Rei, só de ouvir as histórias que meu avô contava. Eu parava tudo para ouvir essas memórias, sempre. Mesmo que fossem repetidas.

– Viu só? Conversinha de futebol é sempre bom.

– Você é um pilantra.

– Pai, e o seu jogo inesquecível no estádio?

– Putz, são três. Na verdade, quatro. A semifinal do Brasileiro em 1995, naquela virada histórica contra o Fluminense, Giovanni em tarde de gala. Nem sei que horas a gente saiu do Pacaembu. Depois, a final do Brasileiro em 2002, quando a gente chutou a fila. Os gols do título, o do empate, do Elano, e o da virada, do Leo, foram na minha frente. Jamais vou esquecer. Claro, o terceiro é a final da Libertadores. Juro que não imaginava que a gente fosse conquistar a América de novo.

– Está faltando o quarto…

– É um jogo besta, num começo de Campeonato Paulista, sábado de carnaval, contra o Rio Claro. Ganhamos de dois a um. Você e seu tio estavam comigo. E vimos jogar juntos, em campo, três gerações de santistas que resgataram nosso orgulho torcedor – Giovanni, Robinho e Neymar. Foi uma sensação especial, filho, cheia de afetos e boas lembranças.

– Será que a gente vai ganhar a Libertadores de novo, pai?

– Vamos. E, dessa vez, estaremos juntos na arquibancada. Promessa.

– E a tristeza?

– A derrota da Seleção Brasileira para a Itália na Copa do Mundo de 1982. Chorei muito, muito mesmo. Na minha cabeça, aquele time não perderia de ninguém. E aquela maldita semi em que perdemos para o Corinthians no último minuto, no Paulista, em 2001. Amassei meu óculos, sem dó.

– A minha é o sete a um.

– Eu sei.

– Você já sentiu medo num estádio?

– Algumas vezes. Já corri de polícia, da cavalaria, de briga de torcidas. É muito ruim. Nesse último jogo da Libertadores, lembra, fiquei preso no estádio por quarenta minutos, depois que o jogo terminou, por conta da confusão da torcida com a PM. Depois vi muita gente machucada, vidros quebrados, sangue no asfalto. Foi bem triste. Ainda bem que você não estava comigo.

– O maior medo que eu senti foi naquela final contra o Ituano, no Pacaembu, quando aquele policial apontou a arma para a gente. Gelei.

– Péssima lembrança mesmo. Agora chega, garotão. Está ficando tarde. Amanhã você acorda cedo. E tem prova. Caminha e soninho.

– Só mais uma coisa…

– Diga, enrolador.

– Pai… Será que o técnico do meu time vai mesmo me convocar para a Seleção?

– Se você continuar treinando direitinho, como está fazendo, com certeza.

– Boa noite, pai.

– Durma bem.

– Só vou narrar uns jogos aqui deitado, como faço sempre. Bem baixinho. Para pegar no sono.

– Cara, como você enrola!

No meio da madrugada, vento frio entrando pelas frestas das janelas, o pai levantou para cobrir o filho. O moleque dormia tranquilo, encolhido, abraçado com os bonecos de estimação, o canto da boca esboçando um sorriso. Certamente estava sonhando com outras histórias de dribles e arquibancadas.

*Chico Bicudo é paulistano, 45 anos, é formado em Jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP) e mestre em Ciências da Comunicação pela mesma universidade. É apaixonado por futebol, torcedor do Santos Futebol Clube e admirador das crônicas de Nelson Rodrigues e de Luís Fernando Veríssimo. É autor dos livros “Memórias de uma Copa no Brasil” (2014) e “Crônicas Boleiras” (2016), publicados pela Chiado Editora, e professor da Universidade Anhembi Morumbi, cursos de Jornalismo e Produção Editorial.



ColunistasHome