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O alerta da ONU para as mudanças climáticas: o que as crianças têm a ver com isso?

Relatório recente aponta que efeitos das mudanças climáticas serão realidade antes que uma criança nascida hoje complete 30 anos

Sabrina Legramandi* Publicado em 12/08/2021, às 11h39

Jovem segura cartaz com os dizeres "Planeta acima de lucro" durante protesto
Jovem segura cartaz com os dizeres "Planeta acima de lucro" durante protesto

Na última segunda-feira (9), a ONU (Organização das Nações Unidas) divulgou um novo documento, de 3.500 páginas, alertando para a gravidade da questão climática.

Classificado pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, como “um código vermelho para a humanidade”, o último IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) elevou o tom em relação à questão ambiental e colocou a culpa pelo aquecimento global nos humanos. Mas, afinal, o que as crianças têm a ver com isso?

Segundo o IPCC, os efeitos do aquecimento global serão realidade antes que uma criança nascida hoje complete 30 anos”, explica a especialista em políticas climáticas do WWF-Brasil, Renata Camargo.

A especialista afirma que o relatório apontou que a vida na terra será modificada profundamente: eventos climáticos extremos, como a frequência das precipitações, inundações causadas pelas chuvas, extinção de ecossistemas, secas, aridez e queimadas, aumento do nível do mar, aumento de temperatura, seca na produção de alimentos, serão realidade.

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Para Renata, “as crianças são grandes radares de transformação do seu sistema” e, no caso das mudanças que podem ser revertidas, podem desempenhar um papel importante de conscientização às pessoas ao seu redor.

A especialista cita como exemplo a jovem Greta Thunberg: com 15 anos na época, Greta deu início a um movimento para combater as mudanças climáticas, o que lhe rendeu uma campanha pelo Prêmio Nobel da Paz. Engajar-se em movimentos estudantis, ou mesmo em campanhas online, é uma possibilidade para as crianças que querem mudar o futuro.

Mas o que as escolas têm a ver com isso?

“A escola é um espaço privilegiado de discussão e produção de conhecimento”, afirma Renata Camargo. Ela explica que a educação ainda não trata de maneira tão direta as mudanças climáticas, mas já se fala sobre enchentes, secas, furacões, ou outros eventos extremos decorrentes das alterações do clima. Isso já é um grande começo para plantar a semente da consciência ambiental e da responsabilidade.

A especialista em políticas ambientais do WWF-Brasil, Renata Camargo
A especialista em políticas ambientais do WWF-Brasil, Renata Camargo – Foto: WWF-Brasil

Trazer mais luz para a questão das mudanças climáticas é fundamental para preparar nossas crianças para enfrentar um planeta mais quente e mais hostil no futuro.” (Renata Camargo)

O caminho em relação aos professores, para a especialista, é dialogar entre as diversas áreas do saber. Por exemplo, falar sobre as emissões de dióxido de carbono nos transportes dos grandes centros urbanos e relacionar com as mudanças ambientais e a saúde ou vincular o assunto com o desmatamento e o regime de chuvas são opções.

O que os governantes e as empresas têm a ver com isso?

Renata Camargo afirma que muitas decisões tomadas atualmente privilegiam interesses econômicos de alguns grupos sem considerar os interesses coletivos. Para ela, hoje o Brasil trata as questões ambientais com extremo descaso e irresponsabilidade.

“Os governos e empresas no Brasil sabem da realidade da crise climática, sabem que estamos em estado de emergência climática”, diz. O que ocorre, porém, é a desestruturação de políticas públicas ambientais, como a de combate ao desmatamento.

Ela também cita os cortes orçamentários em relação às questões ambientais: o Ministério do Meio Ambiente, por exemplo, tem o menor orçamento em 20 anos. Outras atitudes, como a desativação de fontes importantes de dados científicos e a aprovação de certas leis, como o PL da grilagem – Projeto de Lei que visa legalizar ocupações irregulares na Amazônia – impactam diretamente no futuro do país e das crianças.

O que há hoje é uma opção deliberada de escolher o retrocesso ambiental sem considerar a finitude dos recursos nacionais e sem respeitar os ciclos naturais da vida.” (Renata Camargo)

E o que o presente tem a ver com o futuro?

Renata explica que as mudanças climáticas já são uma realidade e já afetam milhões de pessoas em todo mundo – inclusive crianças e especialmente as mais vulneráveis. Para ela, empresas, governantes e a sociedade em geral devem tomar atitudes urgentes para frear os impactos causados.

Algumas mudanças, porém, como apontou o IPCC e lembra a especialista, já são irreversíveis. Ela lembra que os sistemas naturais e humanos têm limites para a adaptação e podem não ser capazes de se adaptar rápido o suficiente.

O fato é que precisaremos nos adequar às mudanças climáticas agora e mais ainda no futuro.” (Renata Camargo)

*Sabrina Legramandi é repórter do Papo de Mãe

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