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Me deixem ver meu neto: a saga de uma avó que há 5 anos luta para conviver com o neto

Avó faz apelo ao Papo de Mãe: desde que a filha dela morreu, ela nunca mais conseguiu conviver com o neto, que ficou com o pai

Claudia Zanoni* Publicado em 15/11/2021, às 18h20

Claudia Zanoni, que tenta ver o neto desde 2019
Claudia Zanoni, que tenta ver o neto desde 2019
A seção "Você no Papo" do Portal Papo de Mãe abre seu espaço para divulgar histórias de família enviadas por nossos leitores. Desta vez recebemos o apelo desesperado da vovó Claudia, que não consegue mais conviver com o neto desde que a filha dela, Gabriela, mãe da criança, morreu. E desde 2019 ela sequer vê o menino. Kauã, hoje com 5 anos, ficou com o pai e a família dele, que têm impedido o contato da avó materna. Nesta terça-feira, faz 5 anos que Gabriela faleceu. Leia aqui o texto que Claudia nos enviou.
Olá.
Agradeço pela oportunidade.
Em 2016, minha filha caçula de 19 anos, Gabriela,  foi fazer uma viagem com o namorado para apresentar o meu neto Kauã, então com 5 meses, para o avô paterno.
Essa notícia da viagem deixou a todos preocupados, teve muita discussão, ninguém queria que ela fosse (eu, tios, irmãos e amigos).

O começo do namoro

Quando começaram a namorar, ela foi morar com ele. Mas depois de um tempo voltou para nossa casa e logo descobriu que estava grávida.

O nascimento do meu neto

Faltava um mês para o meu neto nascer quando ele saiu e acabou vindo morar com minha filha na minha casa.
Dia 23 de abril de 2016, ela entrou em trabalho de parto e fomos para o hospital. Chegando lá, a minha outra filha ficou com ela, eu e o paivoltamos para minha casa e no dia seguinte quando fui chamá-lo para ir trabalhar, ele acordou e sumiu, nem sequer fez questão de ir ver o filho que ia nascer.
Fui então render a minha filha no hospital e lá fiquei até o meu neto nascer. Foi parto humanizado, ela sofreu muito e na hora de nascer ela perdeu as forças, ficou com as veias da testa roxa. Eu senti que tinha perdido a minha filha, chamei muito ela, que me olhava e eu dizia "força, falta pouco". Ela não aguentava mais, eu segurei por baixo, perto do bumbum, e meu neto nasceu e ficou sem chorar. Foi outro desespero, eu pedindo a Deus que me desse forças para cuidar os dois. Ele chorou e eu fui ver ela, fiquei com ele e depois deixei os dois na sala de recuperação.
Fui ligar para avisar que ele tinha nascido e desabei de tanto chorar. Deixei eles e vim para casa. Mas nada do pai. Tinha desaparecido. Ela ficou sozinha e ele só apareceu com a irmã no outro dia. Me xingou de tudo o que era nome quando reclamei do sumiço no dia do nascimento do filho.
Aí ficou indo lá em casa ver o meu netinho, ia embora e voltava, às vezes dormia lá.
Quando o meu neto completou 5 meses, eu descobri que ela estava se preparando para essa viagem que mencionei no começo. 

A viagem

A cidade era na Bahia (eu acredito que ela não imaginava o lugar). Passagem comprada, lá foram eles. Consegui falar com ela quando estava lá, isso no mês de setembro. Ficaram na cidade até novembro e a gente se falava por vídeo ou mensagem e ela reclamava da cidade, que era violenta, que e o namorado estava com medo, que não podia sair na rua porque tinha tatuagem. E eu pediu para ela voltar para São Paulo. 
Minha filha queria voltar. Quando foi em novembro, eu fui alugar uma casa maior para ela ter seu espaço com o meu neto, porque ela sempre dormia comigo e depois começou a dormir com o Kauã. 
Dia 9 de novembro ela me ligou à noite, eu estava no ponto de ônibus, e me disse que viria para São Paulo dia 17, que as passagens já estavam compradas. Eu fiquei muito feliz. Ela comentou que andava sentindo muita dor de cabeça.
No dia seguinte ela não me atendeu e quando me ligaram, aí minha vida começou a virar de ponta cabeça. A Gabriela tinha sido internada e quando teve alta, começou a vomitar em jato, o hospital não tinha preparo para nada, a colocaram em uma ambulância precária para ser transferida para Salvador. Minha filha estava com meningite e aquele hopsital não tinha condições.
Enfim, minha filha viajou 8 horas para chegar em Salvador. Ao chegar lá, eles deixaram a maca desarmar, mas ela não caiu no chão. Quando deu entrada, de tanta dor, ela teve uma parada respiratória. O namorado entrou em pânico e eu tentando falar com as pessoas no hospital, fui para Salvador.
O assistente social então disse que ela estava com morte cerebral, eu quase morri, meu mundo acabou, acabou minha vida eu não existia mais.

Assista ao Papo de Mãe sobre luto materno

Quando fizemos tudo, preparamos a vinda do corpo dela, eu falei para o namorado vir embora para SP trazendo o Kauã e ele não quis.  Aconteceu o velório, o enterro e eu fui atrás do meu neto: pedi a guarda, ganhei aqui fórum do Butantã - com busca e apreensão. Paguei advogado e fui à luta. Como lá na Bahia também a irmã dele e a namorada do avô pediram a guarda, a juíza parou o processo.

Sem ver meu neto

Começou tudo de novo porque o pai voltou para São Paulo e o deixou lá: sofrendo, sentindo a falta da mãe. A tia, que cuidava dele, me mandava fotos me mostrava ele em vídeo, mas de repente sumiu, não existia mais o telefone, perdi o contato. Continuou o drama até que trocou a juíza e passou andar o processo. Eu ligava todos os dias pedindo uma audiência, até que a escrivã falou que ia me ajudar e marcou uma audiência em 2018. De Salvador até a cidade onde viviam, eu e o advogado levamos 8 horas para chegar.
À noite fui na praça em frente à casa e lá estava o meu neto na varanda com o pai dele, que tinha ido para a audiência, e eu pedi para vê-lo. Infelizmente o menino nem sabia quem eu era, e ele disse: "Quem é essa mulher?". Eu falei: "Sou a sua avó". E o pai disse: "Ele não te conhece".
No dia seguinte foi audiência e a juíza deu a guarda para o pai, mesmo eu falando que ele não morava na cidade, que era mentira, que ele morava em São Paulo. Bom, fiquei com os anos ímpares, com direito a passar natal e ano novo e férias no meio do ano. 
O promotor ficou perguntando da mãe da criança, nem tinha lido o processo.
Quando veio passar um natal comigo ele se divertiu muito com toda a família. Conheceu São Paulo, adorava passear de ônibus e andar na escada rolante.
Quando era para devolver ele na Bahia, cheguei 5 dias depois do combinado, mas que eu tinha avisado do atraso por causa da falta de passagens, estava o Conselho Tutelar inteiro lá, quase me prenderam.  Mas aí o povo viu que eu não estava mentindo, dei um beijo no meu neto com o coração arrebentado e disse: "Um dia eu te conto tudo".
Meu mundo mais uma vez acabou, aí fiquei hotelzinho esperando para sair de lá. Então me avisam que a família inteira estava levando o Kauã para fazer exame de corpo de delito. Eu fiquei arrasada. Disseram que ele estava com piolho. Ele ficava com uma cuidadora.
Voltei e de vez em quando me mostravam ele por vídeo e quando foi em abril de 2019, aniversário dele, chamamos para dar parabéns para ele. Foi a última vez que vimos ele.
Todo mundo mudou da família mudou de número e ela (a cuidadora) continuou me respondendo, até que um dia ela disse que só cuidava dele e que era para eu procurar o pai que ela não era nada, começou com muitas grosserias e me bloqueou.
Mandei mensagem para a mulher do Conselho Tutelar, ela confirmou que a tia do meu neto tinha levado ele para SP( eu já tinha visto umas fotos dele aqui ). Entrei na justiça de novo.
Descobri a escola onde matricularam ele, mas com a pandemia ele não teve frequência. 
Aí mandei mensagem para avó paterna, falando que o pai tinha que entrar em contato com o advogado (meu cunhado). Meu sogro faleceu e deixou uma herança para as minhas filhas e a parte da Gabriela era para o Kauã. Ela me respondeu "procura o advogado dele e você sabe o que você fez". Mas não me passou nenhum número e até hoje, nada.
Passou o ano de 2019, 2020 e agora, em 2021, ele arrumou uma advogada e meu neto recebeu a herança. Eu estava com umas mediadoras para tentarem me ajudar sem sucesso, porque ele disse que não queria contato.
Ele dizia que eu tinha trancado o meu neto num quarto escuro e espancado ele, que ele estaria "tomando remédio até hoje". Meu Deus, eu nunca iria fazer isso com ele! Tenho 6 netos, ia gastar dinheiro e horas de viagem para bater nele? Sendo que ele é a sementinha da minha filha. Quase morri de novo, entrei em uma tristeza profunda. 
Kauã, sua mãe foi uma guerreira, infelizmente ela teve que partir e eu, sua avó, prometi que nunca iria desistir de você. Sei que ela está torcendo pelo nosso reencontro. Você é amado por mim e pela sua família materna.

Veja também

Gabis (Gabriela), eu vou te amar para sempre e vou usar a sua frase: "Vou ali e volto já".
Olha, eu deito e durmo e tenho a minha consciência tranquila. Muito obrigada, de coração.

Nota da redação

O neto de Cláudia está novamente em São Paulo, mas ela não tem nenhum contato.
*Claúdia Zanoni é avó e assessora de imprensa
*Depoimento dado à repórter Mariana Kotscho
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