Papo de Mãe
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As maternidades em tempos de Covid-19: O que mudou?

O relato da mãe Aline Sobreira, da fotógrafa Marcela Barros e do obstetra Renato Kalil sobre os hospitais durante a pandemia

Maria Cunha* Publicado em 25/05/2021, às 12h57

Bebê recém-nascido
Bebê recém-nascido - Marcela Barros

Mamãe de Primeira Viagem

Aline Sobreira, 34, é hoteleira e mãe de Rafael, de 2 meses. A mãe do bebê contou para o Papo de Mãe como foi ter um filho na pandemia e como estava a situação na maternidade: “Eu cheguei no hospital de máscara e fiquei oito horas em trabalho de parto. Eu só tirei a máscara na sala de cirurgia. Foi uma cesárea porque ele estava sentado. Eu tenho amigas que tiveram a cesárea com máscara”.

Além disso, a mãe de Rafael afirma que estava morrendo de dor e enjoada, por isso pegou a lixeira para vomitar. A médica falou: "Cuidado! A Covid! As pessoas jogam um monte de lixo aí, inclusive máscaras!”

Mas, segundo Aline, “quando você está com dor, você não está nem percebendo que não pode encostar nas coisas, passar álcool em gel, você não sabe nem onde você está mais”. 

A hoteleira também contou que as enfermeiras sempre estavam de máscara e só podia receber a visita de quatro pessoas por dia. “Quando eu tive o bebê, a média era de mil mortes diárias”, explica Aline Sobreira.

Aline comentou que iria contratar uma fotógrafa de parto, mas seu bebê nasceu prematuro, então não foi possível finalizar o negócio. “Mas, as minhas amigas que tiveram, a fotógrafa entrou de máscara, toda encapada”.

Aline Sobreira e o filho Rafael
Aline Sobreira e o filho Rafael

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A fotógrafa de partos

A fotógrafa Marcela Barros, que trabalha há 17 anos registrando partos, explica que, no início, quando não havia informações concretas sobre a Covid-19, a presença de fotógrafos e cinegrafistas foi totalmente proibida. 

“Quando entra na fase vermelha, já proíbem. A gente ficou um tempo sem poder fazer as fotos, não podia nenhum tipo de contato no hospital”, relata Marcela. 

A fotógrafa afirma que por volta do dia 19 de abril o retorno foi liberado. Marcela Barros conta também quais são as necessidades e obrigações para fotografar em uma sala de parto em época de pandemia: “A gente não precisa fazer teste de PCR pra entrar, não tem essa obrigatoriedade. Para me proteger, eu vou sempre com a máscara N-95, porque acho que é a mais segura e eu não encosto em nada”, diz a fotógrafa. 

Além disso, Marcela Barros explica que “não pode mais chegar abraçando a mãe, fazendo carinho, coisas que fazíamos antes. No bebê também não é permitido encostar de jeito nenhum”. 

Sobre as regras do hospital, Marcela reforça que apenas um profissional de foto ou filmagem é permitido. Mas caso a pessoa faça os dois, ao mesmo tempo, é autorizado. Também é necessário que o médico autorize a entrada do profissional na sala de parto, mas a fotógrafa afirma que “isso sempre precisou”. 

Marcela Barros destaca uma nova situação que passou no hospital: “Além dos procedimentos que eles já fazem nos hospitais, medir a temperatura, usar só a máscara cirúrgica ou a N-95, teve uma fase em que a gente teve que cheirar o algodão e dizer o cheirinho". Tudo para checar o olfato.

A fotógrafa Marcela Barros
A fotógrafa Marcela Barros

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O médico

O médico ginecologista e obstetra Renato Kalil conta que "na fase de pico, quando começou a pandemia, foi uma loucura, a gente não sabia absolutamente nada, ninguém sabia da gravidade. A Europa começou a sentir tudo rápido, o Brasil ainda teve um pouquinho de tempo para se preparar e, nessa fase, o cuidado nas maternidades e clínicas médicas passou a ser evitar a transmissão do vírus".

Kalil relata que as principais restrições nas maternidades começaram quando houve aumento dos casos de contaminação e com a lotação dos hospitais, incluindo as UTIs. Além disso, o obstetra lembra também as limitações de atendimento que passaram a impedir o contato direto e exigir distanciamento, máscara, gorro e álcool em gel.

O médico conta que, antes da segunda onda da Covid-19, foi esboçada uma tentativa de flexibilização dos protocolos, mas ao perceberem que o governo não daria conta, o retorno  parcial de fotógrafos, visitantes e familiares na sala de parto não se concretizou. 

"A gente estava há um ano e meio, mais ou menos, sem Ministro da Saúde porque troca a toda hora. As informações eram truncadas, você não sabia o que realmente tinha efeito, se passava a doença pro bebê verticalmente, se passava pelo canal de parto com secreção urinária, secreção fecal".

Apesar disso, Kalil informa que não há complicações para o recém-nascido, "o sistema imunológico da criança é muito prematuro e muito imaturo, então como a gente sabe que esse vírus agride principalmente pelo quadro inflamatório, eles não reagem tanto contra o vírus".

O obstetra fala da necessidade de realizar o teste de Covid-19 nas gestantes que irão parir, o que às vezes não é possível de ser feito, já que a possibilidade de um parto prematuro nem sempre é anunciada. 

"Começaram a chegar muitas grávidas em trabalho de parto antes da data provável, duas ou três semanas antes, e virou um desespero porque tinha que internar, mas a paciente não tinha teste de Covid. Em um parto feito por mim, a gestante teve uma evolução em três horas de dilatação, rápida. Entramos na maternidade e ela não tinha feito o teste, mas estava sem nenhum sintoma. Ela estava com 6cm de dilatação, então como é que faz para colher o teste se só fica pronto em três horas? Em três horas nasce o bebê".  

Em razão disso, o protocolo adotado é que na hora do parto todos estejam com com face shield, avental duplo, luva dupla e N-95, inclusive o casal que vai ter o bebê. "A obrigação é usar os parâmentos como se tivesse fazendo um parto com Covid positiva pra, depois de três horas, descobrir que era negativa. As maternidades não estavam preparadas para o protocolo que programaram. Algumas até hoje não tem teste rápido, um protocolo de 20 minutos", completa Renato Kalil. 

Além disso, Kalil aborda a dificuldade de explicar aos familiares a impossibilidade das visitas, que ainda estão restritas. "Foi uma longa troca de informações até que os familiares entendessem que não é pra trazer pai, mãe, filho, nem que seja médico. Não pode ficar no quarto". É permitido somente um acompanhante e, quando este sai por algum motivo, é possível revezar.  

Embora as visitas continuem proibidas, o obstetra e ginecologista revela que "a cada semana vai sendo liberado alguma coisa. Nas últimas duas semanas, por exemplo, liberaram um único fotógrafo na sala de parto e mais uma pessoa da família, e quatro pessoas na janelinha de parto".

Para Renato Kalil, a principal dificuldade da pandemia foi a determinação de protocolos. "Ninguém sabia nada e continua tudo uma novidade. A desinformação ou excesso de informação sem ter a certeza de que aquilo é correto, persiste até hoje".

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