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Livros infantis: Os clássicos estão ultrapassados?

Contos de fadas para quem? A escolha dos livros infantis para leitura em família

Vinicius Campos* Publicado em 14/05/2021, às 12h13

A escolha dos livros infantis
A escolha dos livros infantis
Vinicius Campos, escritor e pai de 3 adolescentes
Todo mundo sabe a importância da leitura para o desenvolvimento do ser humano. Nada mais estimulante que uma boa história. São elas que despertam a criatividade, a fantasia e dão aos nossos pequenos parâmetros para que comecem a entender o mundo e suas questões. Além do mais, nada mais gostoso do que aquele momentinho, na cama com os pequenos, lendo, vendo as ilustrações e se divertindo juntos no calor do aconchego. 

Estudos mostram que a leitura entre pais e filhos é a melhor maneira de introduzir as crianças ao mundo dos livros, e que depois que eles conquistam esse gostinho, continuam por conta própria e a literatura passa a ser parte de suas vidas para sempre.

Mas hoje quero falar sobre os livros que lemos. Não sobre a leitura.

Se pergunto sobre um livro infantil é possível que você cite algum clássico. São tantos que transformaram nossa infância, que estão no imaginário coletivo, que são parte de nossas vidas. Branca de Neve, Cinderela, A Bela Adormecida, Rapunzel, João e Maria, ou até os brasileiros como o Sítio do Pica Pau Amarelo. Textos que há décadas nos encantam e nos fazem pensar o mundo através de suas palavras. 

Porém você já parou para pensar sobre as mensagens que esses e outros clássicos carregam? Você, alguma vez, olhou para esses textos tão queridos de forma crítica e pensou se gostaria que seus filhos percebessem o mundo através desses relatos?

Princesas que só se importam com a beleza e que não estudam ou aprendem conhecimento científico. Princesas que precisam de um príncipe para ser feliz. Princesas que com um beijo transformam um sapo num príncipe. Príncipes que beijam mulheres desacordadas, príncipes que lutam e partem para violência física para resolver seus problemas, príncipes que não choram e não mostram suas fraquezas. Personagens protagonistas sempre brancos e ricos, bruxas tristes e rabugentas porque foram deixadas por um homem, mulheres incapazes de trabalhar e lutar sozinhas por suas vidas. Ou até no caso do Sítio, uma mãe preta, Anastácia, escrava, atendendo a seus patrões brancos, sempre de sorriso no rosto porque naquela época ser a negra de dentro da casa era um benefício.

Mas são clássicos, Vini. Contam história de outro tempo, alguns dirão.

Eu sei. Sou adulto e posso entender que os clássicos tenham conceitos retrógrados, mas na hora de ler, na hora de assistir a um filme baseado num desses clássicos, explicamos a nossos filhos tudo isso? Será que nossos pequenos são capazes de separar o que está bem e o que está mal? O que mudou e o que continua sendo assim? Será que nossas meninas, que escutaram a vida toda que um beijo transforma um sapo num príncipe, não correm o risco de levar isso com elas pela vida inteira? Ou passar a vida toda buscando a imagem perfeita na frente do espelho?

Os livros, os contos e os filmes são os primeiros contatos dos nossos filhos com o mundo externo. Deixo aqui então a sugestão e o pedido de que estejamos mais atentos aos conteúdos que consomem nossos pequenos, porque estou convencido de que se queremos um mundo novo, diferente, com meninas seguras e livres, e meninos doces e gentis, já está mais do que na hora de transformar o relato e mostrar a eles que existe um mundo muito mais acolhedor e igualitário do que aquele retratado nos clássicos infantis.

Compremos livros com mensagens amorosas. É fácil de encontrar na internet. Grandes editoras se preocupam em publicar textos que ajudem na construção do pensamento de maneira ampla e diversa. E quando bater aquela vontade de ler um clássico, antes de começar, explique a seu filho. "Olha, vou te ler um livro de uma época que acreditavam que uma mulher precisava de um homem pra ser feliz. Não é engraçado?"

Para que no futuro nossos filhos não precisem ser adultos em desconstrução, precisamos trabalhar para que suas bases sejam mais fortes e firmes do que as nossas.

#DiversidadeComecaNaInfancia

*Vinicius Campos, escritor e pai de 3 adolescentescolunista do papo de mãe

instagram: @viniciuscamposoficial