Papo de Mãe
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Leite de mãe: “medicina personalizada” definitiva e insuperável

O pediatra Moises Chencinski cita inúmeros poderes do leite de mãe. No "Novembro Roxo", por exemplo, ele salva a vida de prematuros

Moises Chencinski* Publicado em 03/11/2021, às 14h57

No Brasil, 11% dos partos são prematuros e o leite de mãe salva vidas.
No Brasil, 11% dos partos são prematuros e o leite de mãe salva vidas.

Medicina Personalizada é um conceito de saúde que vem sendo trabalhado e desenvolvido já há algum tempo, ressaltando a importância de 4 Ps: Preditiva, Preventiva, Personalizada e Participativa.

Mesmo sendo essa uma ação de saúde coletiva, não há como não pensar na medicina mais personalizada, tradicional, cientificamente comprovada, e que abrange todos os 4 Ps: o leite de mãe, um alimento vivo, elementar, básico, fundamental e supremo.

Leite de mãe se modifica do começo ao final da mamada, muda no decorrer das 24 horas, se transforma desde o “mame” até o “desmame” com o decorrer dos dias, semanas, meses e anos (colostro, leite intermediário e leite maduro), para oferecer o que ele tem de melhor para cada bebê, em cada fase da sua vida.

O leite de mãe é específico para cada tipo de recém-nascido, de acordo com o tempo de gravidez. Leite de mães de prematuros e leite de mães de crianças a termo (“9 meses”) são ajustados para a necessidade de cada um deles no que diz respeito ao que se chama de macronutrientes (proteínas, gorduras e carboidratos) e de micronutrientes, entre muitos outros dos 1.000 componentes conhecidos (isso mesmo, são mil já conhecidos e tem mais para chegar).

O leite de mãe pode ser suficiente para quando nascem uma ou duas crianças ao mesmo tempo (gemelares), e pode ser suficiente quando uma mãe amamenta sua criança, engravida e tem um bebê novinho. O maiorzinho continua mamando durante a gravidez (lactogestação) sem risco a nenhum dos 3 (mãe, lactente e feto), compartilha o leite de mãe com o recém-nascido (lactogestação). E, nesse momento, o leite maduro de mãe volta a ser colostro de mãe, favorecendo o mais “frágil (???) e mais novinho”. E o lactente maior ajuda o menor, estimulando a produção e a evolução do leite de mãe.

Assista ao Papo de Mãe sobre bebês prematuros:

Leite de mãe tem proteção específica de defesa contra infecções para cada lactente em especial. E essa proteção é muito mais ampla do que só anticorpos (que já estão lá também). Se a mãe adoece e produz anticorpos para essa patologia especial, ela transfere esses anticorpos para seu bebê pelo seu leite. Se uma mãe recebe uma vacina e produz anticorpos para essa vacina, ela transfere esses anticorpos para o bebê através do leite de mãe. E se o bebê adoece, através do contato de sua saliva com o mamilo quando ele mama, ele transfere as informações de sua infecção para a mãe que as processa e transforma em anticorpos específicos, e os devolve, através do seu leite para favorecer a recuperação do seu bebê.

Bebês em aleitamento materno exclusivo até o 6º mês não precisam tomar mais água ou nenhum outro líquido, porque o leite de mãe tem cerca de 85% de água em sua composição. Isso é incrível, não é? Mas o mais incrível é que eles crescem e se desenvolvem, saudáveis, com os outros 15% presentes na sua composição. Faz a prova na sua próxima refeição. Prepare seu prato como habitual. Arroz, feijão, bife, salada, fruta de sobremesa e tire 85% desse prato. Coma só os 15% que sobraram.

O que vai acontecer???? Fomeeeeeeeeeeeeeeee. Esse leite de mãe é poderoso, hein?

Bebês nascem em média por volta dos 3 kg / 50 cm e chegam ao final de um ano com 9 kg / 75 cm. Eles triplicam de peso e ganham 50% de comprimento em um ano (nunca mais na vida vão crescer em tamanho tanto assim em um ano). Ganham 6 kg e 25 cm nos 12 primeiros meses de suas vidas. Desses, 4,5 kg e 17 cm são ganhos nos primeiros 6 meses, quando estão em aleitamento materno exclusivo. Entre 6 meses e um ano, o ganho é de 1,5 kg / 8 cm. Ou seja: Quando é feita a introdução de alimentação complementar (6 meses) os lactentes passam a ganhar um terço (1/3) do peso e metade do comprimento do que ganharam nos primeiros 6 meses.

O leite de mãe é ecologicamente correto, adaptado e protege o meio ambiente. Bebês que mamam e não necessitam receber substitutos de leite de mãe promovem uma diminuição dos custos econômicos da família, reduzem a poluição causada pelo lixo e a demora da decomposição de mamadeiras (plásticos – 450 anos / vidros – um milhão de anos), metal (latas - 200 a 500 anos), controlam o gasto de água, a pegada de carbono, a contaminação dos rios e mares, que gera morte de animais na terra, no ar e nas águas do mundo.

E a ciência (nutrigenômica e epigenética) mostra o quanto o leite de mãe tem ação atualmente reconhecida na genética das crianças. As “informações” (“imprinting”) que o leite de mãe coloca no bebê traz proteção e saúde para sua vida presente e futura, reduzindo chances de alergia alimentar, de desequilíbrio no metabolismo (diabetes, colesterol, triglicérides, obesidade), de riscos infecciosos.

E, acredite se quiser (mas devia), o leite de mãe, como já comprovado, traz proteção e promoção à saúde para as próprias mães, prevenindo diabetes tipo 2, câncer de mamas, útero, ovários e, reduzindo os riscos de depressão pós-parto e mantendo a mente sadia, mesmo na terceira idade em mães que amamentaram. E esses benefícios aparecem independentemente do tempo de amamentação. Mas, quanto mais tempo de oferta de leite de mãe, maiores as vantagens para a saúde materna.

Veja também: 

Além disso, e até por estarmos no “Novembro Roxo”, o leite de mãe extrapola o binômio “mãe-seu bebê” e propicia maiores chances de sobrevivência aos prematuros que têm, nesse mês, a atenção do mundo voltada para si. No Brasil, 11% dos partos são prematuros. E, só pra reforçar a campanha desse ano: Separação Zero: Aja Agora! Mantenha Pais e Bebês Prematuros Juntos. E, se o leite de mãe para seu bebê é saúde, para um prematuro ele é vida. UM ML SALVA UMA VIDA.

Para concluir, de um texto de 2016, publicado no Healthy Newborn Network:

O leite humano é provavelmente o medicamento mais específico e personalizado que o bebê provavelmente receberá, administrado em um momento em que a expressão do gene está sendo ajustada para o resto da vida.”

*Dr.  Moises Chencinski , pediatra e homeopata.

Membro do Departamento Científico de Aleitamento Materno da Sociedade Brasileira de Pediatria (2016 / 2019 – 2019 / 2021).
Autor dos livros HOMEOPATIA mais simples que parece, GERAR E NASCER um canto de amor e aconchego, É MAMÍFERO QUE FALA, NÉ? e Dicionário Amamentês-Português
Editor do Blog Pediatra Orienta da Sociedade de Pediatria de São Paulo.
Criador do Movimento Eu Apoio leite Materno.

Amamentação / AlimentaçãoMoises ChencinskiBebê0 a 2 anos