Papo de Mãe
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A aquarela do leite de mãe

O pediatra Moises Chencinski esclarece que o leite de mãe pode apresentar várias cores, algumas vezes variações normais e outras como sinais de alerta

DR. MOISES CHENCINSKI* Publicado em 08/11/2021, às 10h22

Existe uma variedade de cores que pode representar o leite de mãe
Existe uma variedade de cores que pode representar o leite de mãe

Todos associam o leite, independentemente de onde ele venha, à cor branca. E, assim, a imagem da pureza, do alimento da espécie e da certeza daquilo que é imutável e até nutritivo fica marcada na nossa memória afetiva.

Mas nem sempre o leite é assim, branquinho. E nem estou falando de quando ele é acrescido de café ou achocolatados, batido com frutas ou até com ervas medicinais. Existe uma variedade, ou uma “paleta”, de cores que pode representar o leite de mãe, algumas vezes como variações do “normal” e outras até como sinal de alerta.

Assista ao Papo de Mãe sobre amamentação. 

Enquanto o leite artificial sempre aparece da mesma forma, se você extrair seu leite (para doação ou para deixar em casa para ser oferecido ao seu filho na volta ao trabalho ou quando você se ausentar de casa), poderá observar mudanças na cor: a composição e a aparência do leite de mãe, considerado um alimento vivo, ou o “sangue branco”, mudam ao longo de uma sessão de extração ou alimentação, durante o dia e até mesmo durante todo o período em que o bebê é amamentado.

Então vamos conhecer melhor quais são essas apresentações para acalmar e até esclarecer algumas informações que aparecem com muita frequência nas redes sociais e orientar quando é importante procurar avaliação médica.

Para começar...

Durante o pré-natal, na maternidade e desde a primeira consulta de rotina com o pediatra, esse é um tema quase obrigatório. Não fique com dúvidas.

Leite materno é o padrão-ouro da nutrição infantil. Todos os dias abordamos sua importância e a cada dia novos estudos aparecem comprovando e revelando as propriedades incríveis do leite de mãe.

Mas, ao mesmo tempo, precisamos cuidado para não “exagerar” nas nossas crenças e ultrapassar o limite das expectativas.

Um exemplo clássico foi a imagem que circulou mostrando cores diferentes de leite de mãe após a vacinação de COVID. Anticorpos não mudam a cor do leite materno.

Covid
Covid-19: Anticorpos não mudam a cor do leite de mãe

Veja também: 

Não se preocupe se...

- AMARELO – leite materno espesso e amarelo em vez de leite branco costuma aparecer no colostro, ou primeiro leite, rico em anticorpos, logo após o parto por até 5 a 7 dias. “Leite de mãe” congelado também pode se apresentar assim, amarelado.

- AMARELO OU LARANJA – quando a dieta é mais rica em carotenos, com vegetais amarelo-laranja (inhame, abóbora, cenoura, etc.). O caroteno é completamente inofensivo para bebês. O leite de transição, entre o colostro e o estágio de leite maduro (entre 5 e 14 dias pós-parto) pode ser amarelado ou laranja com uma aparência mais cremosa.

- AZUL OU AZULADO – embora haja muita discussão sobre leite anterior e leite posterior, leite de começo e leite de final, o leite que “abre a sessão da mamada ou da extração” pode vir mais claro e assumir um tom azulado (por ter menos gordura). Isso acontece, por exemplo, quando se compra um leite desnatado na loja (tonalidade azulada), por razões semelhantes - menos gordura.

- VERDE OU ESVERDEADO – no consumo aumentado de algas, ervas ou vegetais verdes (espinafre, por exemplo) ou de bebidas esportivas dessa cor. 

- MARROM – apesar de assustar, especialmente se for mais escuro, esse é um quadro conhecido como síndrome do tubo enferrujado (“Rusty Pipe”). Durante a gravidez e nos primeiros dias após o nascimento, os dutos e as células que produzem o leite de mãe crescem e se dilatam. Uma quantidade maior de sangue vai para os seios e, às vezes, vaza para os dutos, podendo fazer o leite parecer marrom ou cor de ferrugem (como água de um cano enferrujado, daí o nome). Esse quadro costuma desaparecer depois de alguns dias, e não é necessário suspender a amamentação.

- ROSA OU AVERMELHADO – também pode, dependendo da quantidade, sensibilidade e metabolismo, ser derivado do consumo de bebidas avermelhadas – smoothies de morango, beterraba, ou de alimentos que contêm corante vermelho artificial.

Fique atenta se...

- ROSA OU LARANJA ROSADO – consumo de refrigerantes carbonatados ou sucos de frutas e sobremesas de gelatinas com corantes (melhor evitar alimentos ultraprocessados, independentemente de amamentar).

- ROSA OU VERMELHO – pode indicar presença de sangue no leite, com ou sem fissuras mamilares. Amamentar não deve doer. Se existe dor ou mamilos machucados ou que, ao final da mamada, ficam “amassados” e não no seu formato original, posicionamento e, principalmente, pegas inadequadas podem gerar esses quadros. Assim, é importante trabalhar a dinâmica da mamada e analisar características do bebê (por exemplo, freio de língua) para ajustar essas questões.

- PRETO – Pode acontecer pelo uso de medicamentos (antibiótico – minociclina) ou suplementos vitamínicos. Sempre conversar com seu médico nesses casos para avaliação e nunca se automedicar, especialmente nos períodos de gestação e amamentação.

Quando procurar um profissional de saúde materno-infantil

Leite avermelhado ou rosado que não melhora, dor nos seios antes, durante ou após a mamada, presença de mamilos machucados e mais sensíveis podem indicar outro problema, como uma infecção ou até câncer de mama e merecem uma consulta médica.

Vale ressaltar que o sangue no leite pode ser alarmante e pode ser até um irritante gástrico, mas não é prejudicial para os bebês. A amamentação não precisa ser suspensa, mas, em caso de desconforto, é preciso intervir para que o quadro não evolua para uma mastite, um abscesso ou o desmame.

Mas, tenha sempre uma equipe de saúde materno-infantil para chamar de sua. Use, abuse e relaxe. Estamos aí para acolher e acompanhar cada mãe em sua trajetória. O importante é ser feliz.

*Dr.  Moises Chencinski , pediatra e homeopata.

Membro do Departamento Científico de Aleitamento Materno da Sociedade Brasileira de Pediatria (2016 / 2019 – 2019 / 2021).
Autor dos livros HOMEOPATIA mais simples que parece, GERAR E NASCER um canto de amor e aconchego, É MAMÍFERO QUE FALA, NÉ? e Dicionário Amamentês-Português
Editor do Blog Pediatra Orienta da Sociedade de Pediatria de São Paulo.

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